Christopher Nolan é um cineasta que dispensa apresentações. Responsável por filmes como O Cavaleiro das Trevas, Interstellar, A Origem e outros, cada novo filme lançado pelo diretor é um evento. Um filme da autoria de Nolan que adapta um livro ganhador do Pulitzer a respeito do apadrinhado “Pai da Bomba Atômica” é um daqueles projetos que já no primeiro anúncio criam uma expectativa enorme ao redor. E Oppenheimer, em partes, está à altura dessa expectativa.
Oppenheimer é o tipo de filme que pode ser definido de várias formas e uma delas é um retorno ao básico no cinema de Christopher Nolan. É um filme “pé no chão” em comparação a seus outros projetos, o espetáculo cinematográfico ainda existe, mas também há espaço para o drama e um olhar muito humano em seus personagens, um aspecto que parecia perdido em seus últimos projetos. O roteiro, que também é assinado pelo diretor, abandona a expositividade costumeira em seus diálogos e explora com maestria temáticas como responsabilidade e os dilemas morais que cercam o protagonista criador da arma mais destrutiva do planeta terra. Os diálogos afiados acompanham a tensão e a construção não-linear da história que o texto propõe.
Sob a lente do diretor, está o espetáculo cinematográfico já citado e que se tornou característico em suas produções. Existe espaço aqui até mesmo para uma certa psicodelia visual em meio a tensão crescente e acumulativa, a grandiosidade ao redor de toda a sequência do primeiro teste da bomba é um daqueles momentos que será memorável na história do cinema por exemplo. Movimentos de câmera, ângulos e distorções de lente são usados para retratar muito de angústias e dilemas morais que passam a assombrar nosso protagonista e cinema é isso, “mostre, não conte”. Não precisamos que um personagem abra a boca e relate o que está acontecendo, conte o que Robert Oppenheimer está sentindo, porque a direção de Nolan é hábil em explorar isso. A maturidade e evolução do cineasta, é evidente nesses momentos mostrando que ele aprendeu com erros do passado. Dessa maneira a experiência do filme se torna um pouco mais desafiadora para um circuito comercial, afinal, é uma obra que exige atenção, mas não haveria uma maneira mais bem sucedida de se contar essa poderosa história.
Cillian Murphy como Oppenheimer, entrega a melhor interpretação de sua carreira. Sua rica expressividade e olhar penetrante nos comunica toda a angústia e remorso que assombram o personagem. É uma interpretação poderosa que preenche a tela e torna impossível não se conectar ao personagem mesmo com todas suas falhas e um fardo que é impossível de imaginar sendo carregado por qualquer um de nós, mas esse é o poder do cinema. À altura de Murphy, está Robert Downey Jr. como Lewis Strauss que cumpre o papel de antagonista dessa trama em uma interpretação magnética que entrega toda a cobiça e inveja que o personagem nutre. O elenco ainda conta com diversas aparições de atores de gabarito em papéis menores ou maiores, dentre os destaques estão Matt Damon que desde o momento que entra em tela consegue criar uma ótima química com Murphy, Emily Blunt uma personagem cheia de complexidades e Florence Pugh que tem uma breve, mas marcante aparição e que talvez merecia um espaço maior em tela. Um destaque para a também breve participação de Tom Conti como Albert Einstein e Gary Oldman como o Presidente Truman, a primeira participação sendo carregada de doçura, humanidade e a segunda fazendo um retrato extremamente apropriado do presidente daquele período.
A parte técnica como era de se esperar aposta no analógico. O resultado que a sonoplastia e mixagem do som entrega, é impressionante. É magnético por vezes, poderoso em outros momentos e assustador e angustiante em outros. A trilha sonora do competente Ludwig Goransson soma a tensão evocada pela direção do Nolan, com o uso de metais em diversos momentos perfeitamente alinhado com o tom do restante da produção.
No entanto, o tom é o calcanhar de Aquiles de Oppenheimer. O filme é dividido em dois momentos, o primeiro explora a criação da bomba atômica e a aurora do Projeto Manhattan e o segundo explora o julgamento ao redor de Robert Oppenheimer após a destruição de Hiroshima e Nagasaki. O primeiro momento é onde está o melhor do filme como discutido acima, a construção da tensão, as interpretações e a grandiosidade que o projeto faz jús. O problema é que o filme precisava de um respiro após a catarse do primeiro teste, mas isso não acontece. A tensão simplesmente se mantém e continua se elevando nas cenas de julgamento e o tom acaba se atrapalhando. Nolan não demonstra tanta habilidade na condução dessas cenas ainda que as interpretações continuam afiadas, a sensação que vai sendo construída é que essa é uma parte muito inferior do filme além de soar interminável. Os problemas se expõem e a duração começa a pesar e parecer um problema, prejudicando a experiência da obra. A situação que o roteiro discute nesses momentos é riquíssima, mas a direção não acompanha isso infelizmente. Essa falha compromete muito e deixa um gosto agridoce para Oppenheimer ainda que nos minutos finais, o filme recupere sua glória e entregue uma conclusão à altura da acertada primeira parte.
Com seus erros e acertos, a experiência cinematográfica de Oppenheimer é imperdível. Um retrato poderoso para uma história poderosa e a demonstração de maturidade para um dos maiores cineastas de nossa geração.
Nota: 7,5/10









