
Martin Scorsese é um dos maiores cineastas da história do cinema, a fama o precede. Mas mais recentemente, ele ganhou muitos holofotes ao criticar o tipo de cinema que a Disney popularizou nos últimos anos com a Marvel, muitos não entendem que as críticas ferrenhas do cineasta se aplicam a outras franquias como Jurassic World, Star Wars e Velozes e Furiosos. Para não divagar muito, as críticas de Scorsese pontuam como essas produções com sequências infinitas lotam salas de cinema e não trazem nada de novo a cada nova incursão cinematográfica. No entanto, a maior de suas críticas se atém ao fato desse cinema de espetáculo não expressar emoções e experiências psicológicas para outros seres humanos. Para ele o fantástico desse filme não está apenas nas cenas de ação mirabolantes, ela está presente na falta de profundidade humana dos personagens que protagonizam essas obras.

Em seu mais recente filme, Assassinos da Lua das Flores, Scorsese propõe um épico western dramático e nos mostra o que ele sente falta no cinema de hoje. Seu filme é uma longa jornada em dramas reais onde vemos impactos profundos nos personagens que habitam aquela história além de expor figuras humanas desprezíveis e reais. Claro que esse mergulho é profundo até certo ponto, Robert De Niro, por exemplo, interpreta um personagem que não é lá tão tridimensional assim. Um personagem bem simples de certa forma, com uma motivação clara desde o início e sem tantas nuances assim. As nuances encontram sua vez mais no personagem de Leonardo DiCaprio, Ernest e na personagem de Lily Gladstone, Mollie. O florescer do relacionamento dos dois e a tragédia que vai se abatendo durante os anos de história que são comprimidas no filme, é um dos maiores destaques. Existem cenas memoráveis entre os dois no início deste amor e também no fim dele onde Scorsese cria um contraste muito interessante colocando ambos numa mesma posição e os filmando pelo mesmo ângulo de câmera enquanto os personagens realizam ações semelhante em ambos os casos, mas com um peso totalmente diferente. É como um espelho que reflete a passagem de tempo desse relacionamento de maneira sombria.

Ainda sobre o elenco, Lily Gladstone é o maior destaque ao meu ver. Sua personagem é a mais interessante e carrega o peso dramático do filme. Muito das nuances comentadas anteriormente é explorada pela atuação forte de Lily que entrega uma personagem mais multifacetada do que o roteiro propõe, embora eu não seja o maior fã das escolhas a respeito da conclusão da personagem. É um momento que merecia uma conclusão mais digna principalmente por acompanharmos tanto da relação dela com Ernest. Em relação às outras atuações, seria improvável que um ator do calibre de Leonardo DiCaprio entregasse algo menos do que excepcional. Aqui o ator interpreta um sujeito extremamente burro, manipulável e hesitante para o bem o tempo inteiro. Com um personagem como esse, DiCaprio ainda consegue entregar facetas divertidas e até mesmo carismáticas enquanto o acompanhamos perdendo seus escrúpulos gradativamente. Há muita entrega física também e a caracterização do personagem funciona bem servindo como um ponto importante para sua construção. Robert De Niro, um dos maiores atores de todos os tempos, entrega uma atuação que apesar de não trazer nada que fuja muito de personagens semelhantes em sua carreira, é competente. Ele entrega muito da postura ameaçadora de William Hale enquanto transita entre uma faceta falsa de homem bondoso para com o povo Osage. Para ilustrar, a força dessa atuação é quem toma conta de toda a parte final do filme.

Martin Scorsese também não foge muito do tipo de história que está acostumado a explorar. O filme gira em torno do caso real dos assassinatos dados a partir de circunstâncias misteriosas na década de 1920 que assolou os membros da tribo Osage e desencadeou uma grande investigação envolvendo o poderoso J. Edgar Hoover e a aurora do FBI. Estruturalmente o filme evoca ecos de Os Bons Companheiros, O Irlandês, Os Infiltrados ao comprimir anos de histórias dessa conspiração criminosa mostrando ascensão e queda. O interesse e apuro em retratar essas histórias sempre foram características do cinema do cineasta, e aqui ele busca algo a mais, flertando com o subtexto na conclusão, trazendo, de certa forma, uma justiça histórica ao retratá-la em tela de maneira tão poderosa em tela.
Se existe algo que possa destacar esse filme de outros vistos na carreira do cineasta está nas composições visuais que certamente tornam essa uma da obras mais belas e arrebatadores, do ponto de vista visual, que o diretor já entregou. Os planos abertos pela rica paisagem das terras do Osages são memoráveis, as tomadas panorâmicas e os ângulos de câmera. Existe uma cena no filme onde o personagem do DiCaprio prepara a insulina da esposa onde a câmera se inclina, foca em DiCaprio no primeiro plano e a esposa em catatonia desfocada no fundo que é uma composição fantástica. Muitos méritos para o diretor e também a Rodrigo Prieto que entrega uma fotografia digna de premiações. O resultado é o filme mais visualmente interessante do ano, sem dúvidas.
Para mim além da composição visual e das brilhantes atuações tem um elemento definidor em Assassinos da Lua das Flores que é a brilhante trilha sonora de Robbie Robertson. Suas composições evocam um western clássico, sombrio, mesclando composições com um uso amplo de instrumentos que retratam esse embate homem branco contra indígenas. O suspense, o clima de opressão que permeia o filme inteiro é construído pela trilha discreta que toma conta de todas as cenas e tem sua crescente até chegar ao ápice. É um trabalho espetacular por parte do compositor.

Claro que também existem problemas em Assassinos da Lua das Flores. O maior deles em minha opinião se concentra na conclusão do filme que busca uma ruptura metalinguística que além de não ser uma decisão criativa feliz do filme, o enfraquece. É nesse terceiro ato mais fraco e um tanto corrido onde a história também perde sua força e o fechamento acaba ficando aquém do resto do filme.
O envolvimento do FBI, por exemplo, deixa muito a desejar. Outros pontos como a presença da Klu Klux Klan naquela região e a relação do petróleo com os personagens, que mais é contextualizada que sentida, são pontos que mereciam mais atenção e aprofundamento num filme tão amplo. Claro que esses elementos mais fracos não são o bastante para deixar um gosto amargo, mas são escolhas que matam um pouco do potencial do filme.
Ter a oportunidade de assistir Scorsese no cinema já é uma das experiências que tornam o filme por si só, mais do que ele já é. O que um cineasta tão lendário tem de inédito para mostrar? Do ponto de vista temático não muito, mas ele ainda é capaz de conduzir um épico dramático com um apuro estético único e profundamente emocional. Algo que, como ele mesmo salientou nos últimos anos, é raro no cinema de hoje.
Crítica/Review
Assassinos da Lua das Flores
"Assassinos da Lua das Flores", dirigido por Martin Scorsese, brilha com suas composições visuais impressionantes e atuações poderosas, especialmente a notável interpretação de Lily Gladstone. No entanto, é comprometido por uma conclusão fraca e um terceiro ato apressado, embora ainda mantenha a marca distintiva de Scorsese em conduzir um épico dramático com apuro estético e profundo. A trilha sonora envolvente de Robbie Robertson ajuda a criar um clima cativante que reflete a sombria e melancólica história real.
PRÓS
- Atuações notáveis, especialmente a interpretação de Lily Gladstone
- Composições visuais impressionantes, incluindo planos abertos da paisagem e tomadas panorâmicas
- Trilha sonora cativante e bem trabalhada, evocando um clima adequado para o enredo do filme
CONTRAS
- Conclusão enfraquecida devido a uma ruptura metalinguística resultando em uma escolha criativa desfavorável
- Terceiro ato corrido resultando em uma perda de força na narrativa
- Algumas questões relacionadas à profundidade dos personagens, especialmente em comparação com outros filmes do diretor









