
Poucos meses depois de “Godzilla: Minus One” (2023) se apresentar não apenas como uma grata surpresa, mas também como o melhor filme do Godzilla desde o original, com seu melodrama bem conduzido e sérias reflexões sobre o espírito de culpa que paira sobre a cultura japonesa, “Godzilla e Kong: O Novo Império” chega aos cinemas com bem menos reflexões e mais psicodelia, sendo uma homenagem dos americanos para a Era Showa do personagem. Resumindo, é um ótimo momento para o lagartão no cinema.
Em “Godzilla e Kong: O Novo Império”, temos uma tímida amostra de como o poder da imagem pode ser uma ferramenta poderosa. Os melhores momentos do filme estão nas sequências em que o Kong descobre uma nova civilização de primatas na Terra Oca, entende a hierarquia da ameaça que habita aquele mundo e firma uma nova aliança, tudo isso sem um diálogo sequer. Nesses momentos, Adam Wingard parece ter plena confiança de que os monstros podem guiar a narrativa de seu próprio filme, afinal, temos um trabalho gráfico satisfatório, seja em seu design de produção ou na animação de suas criaturas, na feição dos primatas, mais humanizada, ou na feição mais réptil de Godzilla. O poder da imagem desse filme é da mesma proporção dos kaijus e poderia facilmente guiar a narrativa longa para além das sequências de ação que, assim como em seu filme anterior, se beneficiam do distanciamento humano do desenrolar delas, entregando o espetáculo de batalha que pagamos para assistir. Por outro lado, preciso abrir um parêntese aqui porque o filme, mesmo com esse potencial e usufruindo do “mostre, não conte”, acaba numa briga interna com a máquina de exposição que é o núcleo humano. O melodrama é pífio como sempre, mas os diálogos que reafirmam informações que já havíamos entendido previamente é o que incomoda, para não usar outra palavra. Essa briga entre não ser expositivo e ser expositivo é o que mata um pouco da diversão que “Godzilla e Kong: O Novo Império” quer nos proporcionar.
Não há nada de errado em se distanciar daquele pseudo-realismo chato do Godzilla de 2014 e abraçar mais a pancadaria franca entre monstros; o problema é que perdemos a noção de escala e consequência, tornando Godzilla, Kong, Mothra, Shimu e Scar King em meros bonequinhos lutando. Em outras palavras, o melodrama humano é essencial para esse tipo de espetáculo; tratar de encontrar o meio-termo é algo que “O Círculo de Fogo” exemplifica até hoje, mas que o Monsterverse já acertou no passado em escala menor com “Kong: Ilha da Caveira”. As pancadarias são graficamente bem feitas, principalmente quando o Rio de Janeiro é devastado, Godzilla até arrisca movimentos de luta que parecem ter saído diretamente da WWE. Só que a banalidade da vida humana em um filme de monstro, novamente, não é a melhor das ideias em um espetáculo desse tipo. Mesmo após dez anos de existência, o Monsterverso parece não ter atingido seu pleno potencial. Quando olhamos para trás, vemos o Godzilla de 2014, que foi importante para dar uma nova vida ao lagartão nos tempos modernos, sendo seu principal acerto o visual repaginado e a abordagem heroica do personagem no cinema americano. Posteriormente, temos Kong: A Ilha da Caveira, que consegue ser um entretenimento estilizado muito engajante, com um núcleo humano funcional que desempenha um ótimo papel narrativo, e Godzilla: Rei dos Monstros, que tem talvez as melhores composições visuais desse universo até então. As imagens de King Ghidorah com as asas abertas e a devastação ao seu redor, a Mothra pairando sobre o mar ou o Godzilla cuspindo seu raio atômico em direção aos céus cobertos de azul e chuva já são imagens icônicas, mas o restante do filme é bem idiota, novamente, com um melodrama que atrapalhava e desviava o foco das cenas mais espetaculares. Por fim, o ápice do universo foi Godzilla vs. Kong, extremamente honesto e com boa pancadaria, mas que já tirava peso e escala desses monstros em meio às cidades devastadas. Agora, com Godzilla e Kong: O Novo Império, mesmo com a psicodelia inserida ,a estética mais irreal, combates claros e sem desvio de foco que imploramos para ver em Godzilla II, ainda é um filme engessado na briga entre o sutil e a necessidade da verborragia.
Será que o mundo não está preparado para um filme do Godzilla ou do Kong ou dos dois dividindo a tela que pode apenas confiar no potencial colossal de suas criaturas guiando a história? Ou simplesmente, o mundo não está preparado para um melodrama um pouquinho mais bem alinhado para dar dimensão e consequência para gente do combate dessas criaturas? De qualquer forma, se você só quer ver a pancadaria, nesse ponto o filme não vai te segurar muito e é até bem honesto, não dá para dizer que você vai jogar seu suado dinheirinho fora. Mas eu, você, o Círculo de Fogo e o Kong: Ilha da Caveira, sabemos que dá para fazer um cinema bem melhor com kaijus.
Crítica/Review
Godzilla e Kong: Um Novo Império
"Godzilla e Kong: O Novo Império" teria se saído melhor se confiasse mais no poder de suas imagens para guiar a narrativa e menos no veículo de exposição que é o núcleo humano do filme. O frágil melodrama mina um pouco do potencial de diversão, mas, felizmente, ainda sobra espaço para uma pancadaria honesta.
PRÓS
- Pancadaria clara e sem desvio de foco
- Momentos onde as imagens guiam a narrativa
- O interessante trabalho gráfico por trás da animação dos monstros
CONTRAS
- Verborragia demasiada do núcleo humano
- Melodrama mal desenvolvido
- Perda das noções de escala e consequências das batalhas dos monstros
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