
Após os créditos finais de “Guerra Civil” subirem, percebi como esse filme pode gerar divisões na audiência. Assim como em uma verdadeira guerra civil, há aqueles que podem torcer o nariz porque esperam que o filme tome uma posição política clara e expresse seu posicionamento ideológico, ou aqueles que esperam uma denúncia do perigo iminente dos eventos retratados tornarem-se realidade. Para mim, porém, o filme não se encaixa em nenhum desses extremos. Ele se assemelha mais a “Apocalypse Now“, que por sua vez é uma adaptação do romance de Joseph Conrad “Coração das Trevas“. Ambas as obras que parecem inspirar “Guerra Civil” questionam os limites da moralidade e da sanidade em ambientes onde as regras da sociedade civilizada não se aplicam mais.
Na história, nos Estados Unidos, em um futuro próximo, diversos estados se rebelam contra o governo americano. Com a guerra interna declarada por esses exércitos, denominados Forças Ocidentais e Aliança da Flórida, alguns jornalistas (Kirsten Dunst e Wagner Moura) se esforçam para cobrir o evento e contar a história. O problema é que o caos se espalha com intensidade e a ideia de rumar para a capital americana expõe o potencial de perigo do conflito para os cidadãos.
Sem muita contextualização de como o conflito se desenrolou naquele Estados Unidos fictício, o foco se volta unicamente aos personagens. Novamente trazendo Apocalypse Now como paralelo, o longa desenrola sua narrativa explorando a desumanização que ocorre quando os seres humanos são expostos a condições extremas de violência e poder. A personagem Lee Smith, interpretada por Kirsten Dunst, por exemplo, é amarga e endurecida por todo o horror que já presenciou e que foi o foco de seus registros fotográficos. A violência e a tragédia já não a abalam mais. Enquanto Joel, interpretado por Wagner Moura, um jornalista, se viciou na adrenalina que aquelas situações extremas lhe proporcionam. Ele é trêmulo, tem problemas para dormir, mas continua se excitando com tudo aquilo. Os dois personagens mergulham no horror que o país está se tornando ao lado de um jornalista veterano, Sammy, interpretado por Stephen Henderson, sábio e que parece não ter se “corrompido” após tantos anos de carreira, e Jessie, interpretada por Cailee Spaeny, que também quer ser uma fotógrafa de guerra e seguir os passos de Lee. Cada personagem é um arquétipo no meio desse caos.
Em sua intenção de retratar aquele colapso social pelo qual os personagens vão mergulhar, Alex Garland nos insere em uma experiência visceral. Se as imagens em tela não são impactantes o suficiente, a sonoplastia nos faz saltar da cadeira, sentindo o peso e horror de cada tiro, independente do lado dos envolvidos naquela guerra. Estamos juntos aos personagens e todo o impacto e o horror que vivem, Garland consegue captar perfeitamente por sua ótica e nós, como público, sentimos isso. Há passagens memoráveis aqui como a tensa sequência em que Jesse Plemons, interpretando um fanático, aborda o grupo dos protagonistas, o suspense criado é tão impactante que mesmo após a cena e a projeção acabarem, continuamos pensando naquele momento. Há também espaço até para uma certa beleza no horror vivenciado durante a trajetória dos personagens, uma sequência em especial onde vemos uma selva em chamas e as labaredas criam uma certa beleza em meio àquele horror enquanto os personagens assistem pela janela do carro. É como um olhar introspectivo para dentro deles mesmos, de nós humanos, que mesmo em meio àquele processo de desumanização, ainda resta uma fagulha de beleza em nosso interior. É um filme que se destaca muito por seu cuidado e apuro estético, não caindo em algo sóbrio e desinteressante visualmente. Além de belo, essas escolhas conseguem ter uma dimensão maior e se alinhar com os objetivos de Garland.
Existem algumas conveniências narrativas em “Guerra Civil” que parecem seguir um padrão, especialmente na conclusão das sequências mais tensas. A com Jesse Plemons, por exemplo, pode até soar anti-climática e um pouco forçada, conforme toda a situação se resolve. Ou no ato final do filme, onde somente nossos protagonistas, acima do exército, são os únicos a “desvendarem” onde o presidente dos Estados Unidos está escondido. São pontos menores que não comprometem a experiência, mas fragilizam um pouco a seriedade que o filme nos vende até aqueles momentos.
Líderes que flertam e verbalizam o desejo de derrubar democracias ao redor do mundo é algo que temos visto com bastante frequência nos últimos tempos, e o que “Guerra Civil” faz é pegar essa ideia para trazer um horror mais familiar e palpável, trabalhando com os mesmos conceitos e temáticas que “Apocalypse Now” explorou nos anos 70. Não estamos diante de uma obra-prima aqui, como “Apocalypse Now” é, mas, sem dúvida, estamos diante de um filme memorável, visceral e atmosférico. Garland acerta exatamente aquilo que propõe com seu filme. Kirsten Dunst e Wagner Moura são a cereja do bolo nisso, ambos representando bem o impacto daquela vida que carregam e, respectivamente, encontrando sua apoteose satisfatória. Definitivamente, é um dos filmes mais interessantes do ano.
Crítica/Review
Guerra Civil
"Guerra Civil" utiliza o horror palpável de uma nação dividida para explorar o processo de desumanização em meio à selvageria. Somos envolvidos por um excelente trabalho de sonoplastia, que não apenas nos faz sentir o estrondo dos tiros, mas nos coloca na pele de seus personagens em uma jornada visceral.
PRÓS
- Capacidade de explorar os limites da moralidade e da sanidade em meio a uma guerra civil
- O trabalho dos atores, especialmente Kirsten Dunst e Wagner Moura, em transmitir o impacto emocional dos eventos vivenciados pelos personagens
- A direção de Alex Garland que cria uma experiência envolvente, com cenas memoráveis e uma sonoplastia impactante
CONTRAS
- Algumas situações no filme que parecem seguir um padrão previsível, especialmente em momentos de alta tensão, o que pode comprometer a seriedade da narrativa







