
Pensando sobre Furiosa, principalmente em comparação com seu antecessor Mad Max: Estrada da Fúria, não pude deixar de lembrar de “Kill Bill: Vol. 1” e “Kill Bill: Vol. 2“. Enquanto o primeiro, assim como Estrada da Fúria (com o adendo de que Estrada da Fúria é o melhor filme de ação de todos os tempos, é claro), é frenético, insano, cheio de megalomania e desenvolve sua narrativa a partir da ação ininterrupta, o segundo tem um ritmo mais lento, optando por uma narrativa mais contida e cheia de contemplação, que acaba por evocar ecos de um bom bangue-bangue (ou faroeste, chame como preferir). Como tradição na série Mad Max, basta comparar Mad Max (1979) com Mad Max: O Guerreiro da Estrada (1981) e você verá como o diretor e criador George Miller se reinventa a cada novo filme da série. Com Estrada da Fúria, entretanto, ele acabou indo além e chegou em um patamar de excelência e controle que parece insuperável, reitero, é o melhor filme de ação de todos os tempos. Com feito impressionante desses de superar seus clássicos e ainda por cima alcançar esse status, era natural que Furiosa fosse um filme cercado de dúvidas e expectativas… E o que o velho George faz? Ele se reinventa de novo.
No enredo que acompanhamos, a jovem Furiosa é sequestrada do Vale Verde das Muitas Mães e cai nas mãos de uma grande horda de motoqueiros liderada pelo Senhor da Guerra Dementus (Chris Hemsworth). Vagando pelo deserto condenado, eles encontram a cidadela controlada por Immortan Joe. Enquanto os dois tiranos lutam pelo poder e controle, Furiosa busca vingança. Isso não evoca ecos de “Por Um Punhado de Dólares“? Um guerreiro silencioso no meio da briga de duas facções atrás de um objetivo misterioso? No caso, para nós espectadores, o objetivo de Furiosa não é tão misterioso assim, mas para os demais personagens, sim.

Esses ecos do gênero de faroeste sempre estiveram presentes em outros filmes da saga, mas aqui isso é explicitado o tempo inteiro. Essas influências são evocadas no plano geral que George Miller usa, destacando o mítico heroi em meio ao cenário árido e, mais tarde, nos planos fechados que dão destaque aos olhos, que são o ponto principal para a construção da tensão. O culto ao cavalo se torna o culto ao V8, às motocicletas e até mesmo aos monster trucks que surgem em cena. Do ponto de vista temático, temos os personagens cinzas do faroeste spaghetti, o conflito homem contra a natureza e uma narrativa que gira em torno de uma vingança. O que completa esse faroeste automobilístico de Miller, construído minuciosamente aqui assim como era nos filmes seguintes, é a atmosfera e o ritmo. O longa alterna entre cenas de ação intensa e momentos de tensão silenciosa, criando uma atmosfera de suspense e iminência de conflito que a trilha sonora elucida muito bem. Diferente de “Estrada da Fúria“, a trilha de Tom Holkenborg raramente encontra aquele ápice explosivo; ela está o tempo inteiro construindo essa iminência de um conflito maior, que é a vingança que move Furiosa o tempo inteiro. A história se torna muito maior estruturalmente que seu antecessor, fragmentando a narrativa em capítulos e adotando o estilo de conto, um longo e árido conto sobre a vingança cíclica. E essa vingança, por sua vez, não é recompensadora ou catártica. Novamente adotando ecos do faroeste, a discussão que o filme abre é semelhante à que John Ford propôs em “O Homem que Matou Facínora“, sobre a bestialidade ser algo intrínseco na construção de qualquer sociedade, ou em “Os Brutos Também Amam”, que trabalha a ideia de que a grande catarse violenta não é nada recompensadora, e sim melancólica.

A forma como o clímax de Furiosa se desenrola sob a ótica de Miller, com a fúria silenciosa que Anya Taylor-Joy construiu brilhantemente até então através de seus olhos e fisicalidade, explode em contraste com a insanidade e o caos que Dementus, interpretado com um carisma impressionante por Hemsworth. A discussão filosófica que se desenrola a partir daí, e a resolução e escolhas de Miller sobre o conflito que marcou o longa por duas horas, são simplesmente dignas de aplausos pela coragem e excelência do que é construído aqui. Novamente remetendo aos bangue-bangues e até se assemelhando um pouco com o bom gosto do icônico desfecho entre Beatrix (Uma Thurman) e Bill (David Carradine), onde a a trilha sonora icônica de Ennio Morricone pontuando a dramaticidade. Ao final do clímax de Furiosa, o tom mítico de conto está completo e entendemos qual é o verdadeiro objetivo desse prelúdio.
O surrealismo também é um ponto que esse prelúdio permite ir um pouco mais além, existe uma composição nas imagens que é um pouco mais exagerada. A dramática cena onde vemos o destino da mãe de Furiosa, participação breve mas marcante de Charlee Fraser, temos uma imagem semelhante a uma pintura barroca viva evocando influências bíblicas até. A artificialidade que envolve o filme é notável para elucidar esse surrealismo, a mescla de efeitos digitais pesados com o analógico, às vezes funciona, às vezes não, só que é crucial para a construção dessas intenções de tornar o longa em um conto. Até mesmo os feitos na ação embora ela seja mais pontual do que no seu antecessor, assumem proporções exageradas, como a carruagem de motocicletas de Dementus e as motocicletas equipadas com espécie de pipas que fazem a gangue inimiga de Immortan Joe planar pelos céus. São escolhas cumprindo a um propósito narrativo, e parece até pequeno notar um outro efeito digital mais fraco que o todo diante de tantos acertos em tela.

E quanto a Anya Taylor-Joy? Mais uma escolha ousada do cineasta ao pegar a personagem Furiosa, que se tornou um ícone da cultura pop e foi brilhantemente interpretada por Charlize Theron, e rejuvenescê-la, entregando o papel a outra atriz. O que Anya entrega inicialmente não foge muito dos trejeitos amadurecidos que aprendemos a gostar e conhecemos na performance anterior, mas ela vai além, empregando uma ferocidade e um ódio que são notáveis desde a primeira vez que a atriz entra em cena. Com poucos diálogos, a fisicalidade e os olhos expressam todas as informações que precisamos. Não há verborragia aqui, há imagens contando histórias, há cinema. Com essa presença na tela, Anya se torna uma verdadeira força da natureza, até esquecemos de Charlize Theron no papel. Assim como vemos Mel Gibson e Tom Hardy que apesar de terem semelhanças, entregam algo único em cada versão como Max Rockatansky, vemos o mesmo no papel da Furiosa, só que o que Anya faz aqui, não desmerecendo Hardy, é levar a personagem para camadas ainda mais profundas.
Chris Hemsworth por outro lado emprega todo seu timing cômico para construir um antagonista caótico, exagerado e carismático. Ele é uma espécie de Coringa bombado no pós-apocalipse automobilístico e funciona muito bem. Seu personagem é cercado de pequenos detalhes que o enriquecem, seja suas ambições, a forma como administra a gangue, seu dicionário humano que o acompanha (e também narrador da narrativa que estamos assistindo) e suas influências visuais, é como se ele fosse um mito grego. Afinal, se Immortan Joe domina seus garotos de guerra prometendo alcançarem a nórdica Valhalla, Dementus é guiado por uma carruagem de motocicletas, com sua capa, cabelos e barba longa, como se fosse o próprio Zeus. De muitas formas, o personagem é um espelho sombrio de Furiosa e a dualidade que os personagens carregam, a relação simbiótica, é algo inédito na franquia. Uma dinâmica heroi x vilão memorável.

A beleza de Kill Bill: Vol. 1 e 2 reside na forma como ambas as partes se complementam, sendo diferentes uma da outra e ao mesmo tempo intrínsecas. Enquanto uma é um filme frenético inspirado pela cultura japonesa, a outra é um faroeste contemplativo. Da mesma forma, Mad Max: Estrada da Fúria e Furiosa se complementam de maneira semelhante. É difícil não enxergar esses filmes como uma unidade, pois o prelúdio aqui definitivamente expande aquele universo, não de maneira convencional, dedicando todo o seu tempo em responder questões, mas sim na construção da personagem Furiosa. Em termos de visual e trajetória, aquele mundo e seus personagens ganham uma perspectiva diferente, e os eventos que os destacam também. Furiosa torna Estrada da Fúria maior, mais completo e robusto. É um prelúdio que reinventa e enriquece, mostrando até o potencial que esse tipo de obra pode ter quando bem executada. Separados, um é o melhor filme de ação já feito, e o outro é um dos faroestes mais interessantes dos últimos anos. Mas juntos, proporcionam uma das experiências de cinema de ação mais recompensadoras e empolgantes já vistas na história do cinema.
Daqui a alguns meses, após uma sessão dupla de Estrada da Fúria e Furiosa, eu direi em alto e bom tom: TESTEMUNHEM!
Crítica/Review
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Furiosa se afasta do frenesi incessante de Mad Max: A Estrada da Fúria, reinventando-se ao abraçar completamente o gênero faroeste e suas profundas temáticas, mantendo o padrão de excelência da saga Mad Max.
PRÓS
- "Furiosa" expande e enriquece o universo de "Mad Max: Estrada da Fúria", proporcionando uma visão mais ampla e detalhada desse mundo.
- O filme se reinventa ao abraçar o gênero faroeste, oferecendo uma nova abordagem e temáticas diferentes do frenesi de "Estrada da Fúria".
- O filme demonstra o potencial de reinvenção de franquias estabelecidas, mostrando que é possível criar algo novo e enriquecedor dentro de um universo já conhecido.
- A rica narrativa se concentra na construção da personagem Furiosa, dando profundidade à sua trajetória e desenvolvimento.
CONTRAS
- Ao se distanciar do estilo frenético de "Estrada da Fúria", "Furiosa" corre o risco de ser constantemente comparada e, possivelmente, considerado inferior por aqueles que preferem a ação ininterrupta.
- O pesado uso de efeitos digitais que apesar de cumprir seu propósito narrativo, nem sempre funciona em cena.
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