
Recentemente, o lendário cineasta Martin Scorsese resumiu bem a trilogia de Ti West e Mia Goth. O filme que abre a trilogia, X – A Marca da Morte (2022), dialoga com a era dos slashers. O segundo, Pearl, aborda o melodrama dos anos 50 com cores vívidas e saturadas. Maxxxine, lançado recentemente e que encerra a trilogia, discute sobre a Hollywood dos anos 80, rançosa e desesperada. O que Ti West propõe, acima de tudo, com essas três histórias interligadas, é discutir sobre a cultura cinematográfica através das eras. Embora cada era tenha suas linguagens e ritmos particulares, uma coisa não muda: algumas pessoas que almejam viver e ascender dentro dessa cultura não têm escrúpulos…
O interessante trabalho de Mia Goth em X-A Marca da Morte e a dualidade ao interpretar simultaneamente a final girl e a vilã, Pearl, ambas um reflexo uma da outra, já é memorável no cinema de horror recente. O mesmo vale para o trabalho dela em Pearl, que rendeu sequências que também se tornaram memoráveis. O longo monólogo em que a sombria personagem coloca todos os seus pensamentos para fora em uma sequência sem cortes, ou os créditos fechados em sua expressão estática e sinistra, reforçam a qualidade acima da média que a parceria entre Ti West e Mia Goth rendeu.

Em Maxxxine, a dupla busca o clímax dessa parceria no filme que conclui essas histórias interligadas sobre ambição. Entre os três, este é, com certeza, o mais vibrante e autorreferencial. Ti West não apenas se destaca na ambientação da década de 80, mas também referencia o giallo, subgênero de horror italiano onde o mistério do assassino mascarado é central. Essa característica do giallo é crucial para a trama: Maxine, em sua transição do cinema pornográfico para o horror, enfrenta um assassino que traz à tona os horrores que ela passou em X. West constroi o mistério e a tensão com cenas mostrando as mãos enluvadas do assassino ou sua silhueta em primeiro plano, reforçando constantemente suas referências.
Além disso, o cineasta também está interessado em discutir a sociedade moralista da época e suas hipocrisias, confrontando diretamente o crescimento da indústria pornô e o cinema de horror, gêneros que provocam sensações opostas em nossos corpos. Essa discussão é interessante e talvez a mais profunda do filme. Quando West segue por esse caminho e nos desdobramentos da trama, ele evoca o filme de Paul Schrader, Hardcore – O Submundo do Sexo (1979), onde um pai conservador e religioso descobre que sua filha desaparecida se tornou atriz pornô e embarca em uma jornada pelo submundo da pornografia para resgatá-la.
Em meio a tudo isso, o cineasta parece querer estabelecer um paralelo com Psicose, uma vez que a famosa casa de Norman Bates, que aparece como cenário do filme que Maxine está rodando, recebe duas sequências de destaque. No entanto, apesar da atenção que West dedica a essas cenas, elas não dizem muito além da iconografia. Poderia dizer o mesmo sobre os outros dois pontos citados acima, pois, ao meu ver, é aqui que reside o maior problema dessa conclusão. É nítido que o cineasta tem um grande apego por todas essas referências, mas ele não consegue trabalhá-las de forma orgânica para acrescentar algo verdadeiro à temática sobre ambição ou sequer à jornada mais profunda de Maxine, a personagem-título. O clímax é onde essas deficiências se tornam mais evidentes, além de revelar uma pobreza criativa em como toda a situação se desenrola e na revelação óbvia do assassino. Não que a obviedade seja um problema, mas a maneira como é apresentada é. É simplesmente caricato ao extremo, menos impactante e emocional do que o filme tenta vender, e não resolve nenhuma camada da jornada psicológica de Maxine. Nenhuma das referências citadas contribuem para ajudar o filme nesse sentido; elas apenas o embalam esteticamente e, por isso, se tornam recursos vazios e oportunidades perdidas.

Por outro lado, Mia Goth continua demonstrando sua força no papel principal, reforçando que a parceria com West funciona. Ela interpreta Maxxxine de uma maneira ligeiramente diferente de Pearl, mas ao mesmo tempo oferece um retrato mais sombrio, ácido e feroz de sua personagem vista em X. Embora eu não ache que ela tenha grandes momentos de destaque como no monólogo de Pearl, há um momento especial em Maxxxine onde ela realiza uma audição para um filme, transitando de forma muito divertida do dramático para o plástico. Goth é um dos fatores que certamente tornam essa experiência divertida, o que é coerente com como o filme é concebido e construído ao redor dela. Apesar de sua personagem não encontrar uma jornada substancial do ponto de vista narrativo, a atriz mantém o público envolvido pelo prazer de vê-la em tela, especialmente nos momentos mais explosivos.
O filme também conta com a presença de Giancarlo Esposito, que me surpreendeu ao mostrar uma faceta diferente de seus trejeitos como Gus Fring em Breaking Bad e Better Call Saul. Ele entrega um personagem com uma mistura única de comicidade e ameaça, alinhando ambos os elementos de forma equilibrada. É meu personagem favorito, e a dinâmica entre ele e Mia proporcionou algumas das sequências mais divertidas para mim. É o tipo de personagem que, mesmo com pouco tempo em tela, consegue deixar uma impressão duradoura.
Outro ator que se destaca é Kevin Bacon como o detetive particular contratado para localizar Maxxxine. Ele me lembrou imediatamente o diretor Ed Rooney de Curtindo a Vida Adoidado, uma vez que persegue a personagem durante todo o filme e sempre se dá mal, como um verdadeiro personagem de desenho animado. Seu sotaque e trejeitos são memoráveis, e ele certamente está muito mais interessante do que o assassino misterioso.

Repeti a palavra “divertido” algumas vezes ao longo do texto porque acredito que é isso que Maxxxine consegue alcançar no final do dia: mesmo com a carência de profundidade no clímax dessas histórias interligadas, o filme consegue nos entreter. Não podemos negar que essas referências são uma decoração muito atraente de se assistir, afinal, são os anos 80, com seus neons, sintetizadores, fitas cassete, jaquetas bacanas e cabelos exagerados. Pode ser um pouco frustrante ver como a temática da ambição construída pela trilogia até então se perde, mas Maxxxine ainda consegue entreter. No fim das contas, o que Ti West e Mia Goth construíram é memorável e certamente será lembrado no cinema de horror daqui alguns anos, mesmo que Maxxxine seja o mais frágil entre todos eles.

“Não vou aceitar uma vida que eu não mereço”, diz a jovem Maxine, uma frase que se torna icônica quando repetida pela Maxine adulta. Não podemos negar que nossa querida final girl/anti-heroína será sempre lembrada.
Crítica/Review
Maxxxine
Maxxxine diverte com suas referências e estilização oitentista, mas carece de profundidade ao lidar com tantas influências. Embora não seja totalmente satisfatório no terror, a parceria de Ti West e Mia Goth, mais frágil que nos antecessores, é memorável o suficiente para entreter.
PRÓS
- A interpretação de Mia Goth no papel título
- Estética Visual
CONTRAS
- Falta de Profundidade no Clímax
- Execução das Referências Cinematográficas









