Muito se fala sobre o fim da era dos faroestes no cinema, mas pouco se discute como seus arquétipos e atmosferas continuam vivos na cultura pop, especialmente nos melhores exemplares dos últimos anos, seja do cinema ou de televisão. Esse é o caso de “Breaking Bad” (2008-2013), praticamente um faroeste moderno que representa o ápice da qualidade televisiva e reafirma como esses tropos clássicos, mesmo na contemporaneidade, podem render a excelência quando bem executados.

ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤI did it for me. I liked it. I was good at it. And I was really, I was alive ! – W.W.
O faroeste spaghetti, um subgênero do faroeste tradicional, surgiu na Itália nos anos 1960 e se destacou por romper com as convenções estabelecidas pelos faroestes americanos. Esse rompimento ocorreu em diversos aspectos, tanto estilísticos quanto narrativos e morais. Entre os principais aspectos, estavam personagens moralmente ambíguos, narrativas complexas e violência gráfica, além de um estilo visual e auditivo distintivo. Essas influências ganharam destaque dentro do gênero e até mesmo diretores lendários do cinema americano, como John Ford, passaram a incorporar algumas dessas características em seus filmes, como no clássico Rastros de Ódio.

Mas, afinal, onde Breaking Bad se encaixa nisso tudo? Em vários aspectos, e vamos analisá-los por partes. A primeira similaridade é a ambiguidade moral do protagonista, Walter White, interpretado de forma ímpar por Bryan Cranston. A essa altura, todos conhecem a história: acompanhamos um tímido professor de química de um colégio que é diagnosticado com câncer avançado. Com uma expectativa de vida curta e a sensação de ter falhado na vida, sem deixar nada para a família, ele vê uma oportunidade de ganhar dinheiro usando seus conhecimentos químicos no mundo das drogas, na fabricação de metanfetamina.
No entanto, isso é apenas a ponta do iceberg. A construção do personagem ao longo das cinco temporadas é muito mais profunda. Inicialmente, a família é uma motivação para Walter, mas suas ambições e motivos se revelam muito mais egoístas. Walter White é um homem frustrado que poderia ter tido tudo, mas abandonou essa oportunidade. Desde então, sua genialidade ficou aprisionada nas limitações de ser apenas um professor de química. Uma vez envolvido com o crime, ele avança cada vez mais, buscando mostrar que um intelecto genial, embora frustrado, pode levá-lo ao status de um rei. Sua jornada o transforma de um homem frustrado e desesperado em um maquiavélico supervilão e, por fim, em um homem que reconhece seus próprios pecados e está disposto a morrer em busca de redenção.

O desafio moral que Vince Gilligan, sua equipe de roteiristas, diretores e Bryan Cranston criam vai muito além. As ações de Walter vão além das expectativas: sua manipulação de Jesse Pinkman, o coprotagonista cuja vida é arruinada a cada passo da série avança, as pessoas que Walter precisa matar direta ou indiretamente, ou ameaçar, como o pobre garotinho Brock, para manter sua manipulação de Jesse na complexa relação “pai e filho/mentor e aprendiz”, o que provoca sentimentos de repulsa, medo e ódio de Walter. No entanto, ainda torcemos para ver até onde ele pode ir. No fundo, ainda torcemos pela vitória dele, o que é resultado do brilhante piloto da série (o primeiro episódio). Ao acompanhar um dia na vida de Walter e a angústia que ele enfrenta, somos levados a torcer por ele até o fim.
Jesse Pinkman, interpretado com maestria por Aaron Paul, não é apenas um parceiro de Walter, mas um reflexo das consequências do crime e da busca por redenção. Seu sofrimento e crescimento pessoal acrescentam profundidade tanto à narrativa quanto ao arco moralmente ambíguo de White. Embora Pinkman inicialmente embarque no crime por vontade própria, muitas vezes ele se torna um produto direto das ações e influências de Walter, tornando-se um alicerce fundamental para a jornada rica e profunda desenvolvida ao longo das cinco temporadas.

Outra nítida influência do gênero de bang-bang está presente na estética do seriado, Vince Gilligan, o criador e diretor da série, utiliza uma direção visual que remete diretamente aos clássicos do gênero. As paisagens áridas e desoladas do Novo México servem como um personagem em si, refletindo a isolação e a moralidade deteriorada dos protagonistas. Os vastos desertos e as áreas urbanas degradadas não apenas acentuam a sensação de desolação, mas também intensificam a atmosfera de tensão e suspense, criando um ambiente que é simultaneamente belo e ameaçador. Esta escolha de locação é uma reinterpretação do “deserto” clássico do faroeste, simbolizando a jornada moral e a degradação pessoal de Walter White. O que também dá toda uma cara cinematográfica para o seriado que viria ser ainda maior aprimorada em Better Call Saul. Ainda nessa intenção cinematográfica, Breaking Bad utiliza uma combinação de close-ups intensos e amplas tomadas panorâmicas para destacar tanto a individualidade dos personagens quanto o vasto vazio que os rodeia.
A montagem é pontuada por cortes precisos e pausas dramáticas que intensificam o impacto das cenas, criando uma cadência que mantém o espectador à beira de seu assento. A construção meticulosa da tensão, desde os momentos de calma inquietante até os clímax explosivos, é uma reminiscência das técnicas usadas em faroestes antigos para construir a narrativa e explorar o suspense. Esta abordagem estilística não só presta homenagem ao gênero, mas também o reinventa para um público contemporâneo. E, ainda sobre ritmo, o que dizer dos momentos finais da quarta temporada, como o embate contra Gus Fring no brilhante e catártico episódio 13 Face Off? Embora Walter e Gus nunca estejam cara a cara, a tensão que se constrói ao redor do confronto entre os dois vai além da simples presença física. É um clímax dramático que se equipara aos ápices de Onde os Fracos Não Têm Vez e ao duelo final de Era Uma Vez no Oeste, onde a resolução do conflito central é alcançada de maneira impressionante e memorável.

A paleta de cores e o esquema visual de Breaking Bad também são meticulosamente planejados para reforçar sua identidade como um faroeste moderno. A série frequentemente utiliza uma combinação de tons quentes e frios para destacar os estados emocionais dos personagens e a dinâmica da narrativa. As cores saturadas e os contrastes marcantes são usados para enfatizar a tensão e a violência subjacentes, enquanto os tons mais apagados e sujos refletem a corrupção e a decadência moral. Essa abordagem estética cria uma atmosfera que é ao mesmo tempo opressiva e fascinante, fazendo com que o espectador se sinta imerso na dualidade daquele mundo. Existe até mesmo um olhar mais profundo que propõe uma teoria de cores construída na série com a finalidade de oferecer insights visuais e sub textuais sobre os estados emocionais e o desenvolvimento dos personagens ao longo da série, reforçando esse ponto estético tão rico e importante para a construção do todo.

Novamente retornando à poderosa narrativa que o seriado consegue construir ao longo de suas temporadas, observamos como os personagens enriquecem as temáticas e jornadas micro e macro tanto de Walter White quanto de Jesse Pinkman. Hank Schrader (interpretado por Dean Norris) é um exemplo de integridade em meio à corrupção. Apesar de estar cercado pela hipocrisia da sociedade e enfrentar circunstâncias adversas, como o ataque dos Salamancas, Hank se recusa a comprometer seus princípios. Ele continua a fazer o certo até o fim, escolhendo morrer em vez de se corromper moralmente no brilhante episódio “Ozymandias”. Sua trajetória destaca a luta entre o dever ético e a sobrevivência pessoal, ilustrando uma forma de heroísmo que se mantém firme em meio à desordem, talvez a única figura que se mantém assim durante tudo o que aprendemos e conhecemos no seriado.
Skyler White (Anna Gunn), por outro lado, representa o dilema moral interno. Inicialmente, ela desafia Walter e busca se afastar da corrupção, mas acaba se vendo enredada na mesma hipocrisia que combateu. Sua transformação ao longo da série, ao aceitar a lavagem de dinheiro e participar das atividades ilegais de Walter, evidencia como a pressão e o desejo de segurança podem levar até mesmo os personagens mais éticos a se corromperem. Sua trajetória reflete a fragilidade da moralidade quando confrontada com desafios pessoais e familiares. Isso torna a construção da personagem ainda mais brilhante, afinal, ela gera sentimentos mistos (geralmente de raiva) até hoje e isso só reforça como a série nos desafia moralmente ao fazer até mesmo a voz da razão, inicialmente, parecer desprezível.
Personagens como Saul Goodman (Bob Odenkirk) e Gus Fring ( Giancarlo Esposito) oferecem contrastes e aprofundam a narrativa de maneiras distintas. Saul, o advogado cômico e corrupto, proporciona alívio cômico, mas também adiciona profundidade ao mundo ácido e corrupto da série. Sua habilidade em manipular a lei e contornar regras oferece uma visão satírica e crítica da moralidade. Gus Fring, o maior antagonista da série, personifica o que Walter White almeja ser. Sua fachada de respeitável empresário encobre uma mente calculista e fria, e seu antagonismo é enriquecedor para a jornada de Walter, refletindo o tipo de sucesso e poder que Walter deseja alcançar. Por fim, Mike Ehrmantraut (interpretado por Jonathan Banks), embora busque seguir um código moral próprio, também se mostra corrupto, ilustrando a complexidade da moralidade no mundo do crime. Seu papel como mentor de Jesse demonstra como a moralidade pode ser moldada e comprometida, mesmo entre aqueles que tentam manter alguma integridade…

Como podem ver, muito do brilhantismo de Breaking Bad está em não apenas homenagear os tropos do faroeste, mas também em reinventá-los para refletir a complexidade atemporal da moralidade e da natureza humana. A série se equipara aos grandes clássicos do audiovisual, estabelecendo-se como um faroeste moderno que continua a provocar e desafiar os espectadores, mantendo seu impacto a cada nova assistida. Não, não, o faroeste não está morto, ele apenas encontrou sua maneira de se adaptar e evoluir, mas que respiram seu estilo e influência.
Gostaria de fechar o texto com uma reflexão pessoal. Demorei muito tempo para dar uma chance à série e tive uma experiência pessoalmente rica, tanto pela minha bagagem e pelas influências que notei e desenvolvi aqui, quanto por não saber quase nada dos pontos-chave da série. O que quero dizer é que, apesar do muito que já se fala sobre Breaking Bad, parece haver pouco que evidencie a escala e perfeição que a obra consegue construir em suas cinco temporadas. É ao mesmo tempo invejável e inspirador. Tornou-se uma das obras da minha vida e, claro, gostaria de reafirmar que Walter White é um dos personagens mais ricos, complexos e icônicos de toda a cultura pop, merecendo o posto que tem. Todos deveriam dar uma chance à experiência que é assistir Breaking Bad.
Crítica/Review
Breaking Bad
Breaking Bad é um faroeste reinventado que mergulha na complexidade da moralidade humana, estabelecendo-se como um clássico contemporâneo imbatível.
PRÓS
- Breaking Bad reinventa os tropos do faroeste para refletir a complexidade da moralidade e da natureza humana.
- A série usa uma estética visual e uma paleta de cores meticulosas para intensificar a tensão e a narrativa.
- Os personagens são profundos e moralmente ambíguos, oferecendo uma experiência rica e provocativa que desafia o espectador.
CONTRAS
- Não há










