
Em Coringa: Delírio a Dois, as intenções do diretor Todd Phillips não demoram a se revelar. Em sua constante revisitação ao primeiro filme, o diretor busca – novamente – utilizar personagens icônicos da cultura pop, mas desta vez não para mostrar como uma sociedade opressiva e um sistema falho podem gerar um Coringa. Em vez disso, ele procura desconstruir essas ideias. Nesta sequência, os eventos que assistimos anteriormente tiveram tamanha repercussão que, naquele universo, se tornaram um filme, o que fez com que mais e mais pessoas passassem a idolatrar Arthur. O diretor brinca com isso quando, a todo momento, o personagem pergunta “o filme é bom?” e recebe respostas diferentes. A própria Arlequina, interpretada por Lady Gaga, sintetiza essa ideia: uma mulher obcecada pelo que Arthur fez e que, o tempo todo, tenta puxá-lo de volta ao papel de Coringa.
Todd Phillips não se orgulha do legado alcançado pelo primeiro filme e utiliza todas as suas ferramentas para desconstruir os elementos que havia estabelecido, aprofundando-se em temas como idolatria versus realidade. Ele evidencia como Arthur Fleck é uma figura patética, assim como sua persona de Coringa. No entanto, o cineasta não consegue conduzir essa experiência além da redundância. No fim das contas, seus comentários autorreferenciais sobre sua própria obra soam mais como covardia e medo do potencial que a arte tem de nos desafiar moralmente, ideologicamente, e de construir uma mensagem poderosa nesse caminho.

Se no primeiro filme Todd Phillips brincava com a ideia “e se Martin Scorsese tivesse feito um filme do Coringa nos anos 70?”, misturando Taxi Driver com O Rei da Comédia, como as IAs fazem hoje, desta vez ele tenta uma abordagem mais madura. No entanto, Phillips não é Martin Scorsese, Alfred Hitchcock, José Padilha, Vladimir Nabokov e muito menos Fiódor Dostoiévski. Ele não possui a profundidade necessária, nem a habilidade para conduzir a narrativa com a maturidade que almeja.
Coringa: Delírio a Dois acaba se tornando uma experiência exaustiva, dedicada a relembrar constantemente que os atos de Arthur Fleck no filme anterior foram de natureza hedionda, e que as pessoas que o admiraram desumanizam sua figura, buscando apenas o Coringa — indivíduos com potencial tão violento e doentio quanto ele. O interessante é que, nessa busca por profundidade, o primeiro filme, em sua simplicidade, conseguiu estabelecer bem por que figuras como Arthur surgem em Gotham: pela natureza opressiva, abandonada e sufocante da cidade, negligenciada por seus representantes e políticos. Às vezes, o simples pode ser mais. Essa constante reafirmação do papel da violência na arte imprime uma ideia até datada na sequência, já que cineastas americanos como Alfred Hitchcock e Quentin Tarantino enfrentam essas discussões a décadas. Hitchcock, aliás, tem um filme inteiro sobre o tema, Festim Diabólico, onde explora como a filosofia pode servir de justificativa para que alguém perturbado cometa atos hediondos — tudo isso em um filme cheio de estilo, exercício estético e entretenimento. Elementos que Coringa: Delírio a Dois abandona ao longo do caminho.

Há também a intenção de trabalhar a sequência como um musical, mas não posso deixar de destacar que essa é outra ideia infeliz. Não só porque nada de interessante é feito com o gênero, mas porque essa estética realista que parece ter dominado o universo do Batman nos cinemas é a falência do potencial musical que essas sequências poderiam ter. Praticamente todas as cenas musicais são dirigidas de forma tímida, com plano contra plano nos atores, danças discretas pelo ambiente e uma encenação fraca, sem grande controle sobre essas cenas. A única que se destaca um pouco, prezando pelo surrealismo e brincando com cores, é a que acontece no tribunal, onde Arthur está mais “confortável” em sua persona de Coringa. Mas, mesmo assim, não é nada muito memorável. As ambições do cineasta claramente não acompanham sua habilidade de guiar essas cenas. Além disso, o propósito musical não vai além de ilustrar outro devaneio na mente dos personagens — algo que, de qualquer forma, eles já acabam verbalizando depois. A música poderia servir para expressar o que os personagens não conseguem verbalizar, mas eles já falam demais antes disso. Parece que nem uma catarsezinha musical a gente consegue…
Lady Gaga está aqui menos como uma personagem e mais como o veículo principal para as discussões do filme Coringa: Delírio a Dois. Não há muito de interessante para a atriz fazer com seu papel, além de emprestar sua voz nas sequências musicais redundantes. Da mesma forma, Joaquin Phoenix não traz nada de novo ao seu papel. Ele está aqui para repetir o impacto da transformação física, brincar com a voz, continuar com os passos de dança e, honestamente, não convencer tanto assim nos números musicais. Ele funciona melhor no que já fez anteriormente e menos nas tentativas de entregar aspectos novos, como as aspirações de cantor de seu personagem.
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Com certeza há algo de cômico nessa tentativa de elevar o gênero de super-heróis, como se houvesse um certo desprezo por sua natureza infantil e colorida, enquanto se apropriam de seus nomes e marcas. Seja no primeiro Coringa, que faz a brincadeira de ser “Scorsese” — algo tão bobo em essência quanto uma história do Coringa deformando peixes de Gotham para vendê-los com seu sorriso estampado e criar sua própria marca — ou na sequência, que teme o potencial violento do filme anterior. O curioso é que, por mais que tentem tornar aquele mundo mais real, transformando Gotham em Nova York e tirando a pele pálida do personagem para fazer dele um homem comum de maquiagem, o resultado pode acabar sendo tão vazio quanto uma história semanal de gibi pouco inspirada ou menos maduro do que um gibi escrito por Alan Moore.
Crítica/Review
Coringa: Delírio a Dois
“Coringa: Delírio a Dois” se debate entre a falência do realismo no gênero de super-heróis e o medo de repetir o legado do primeiro filme.
PRÓS
- A performance musical de Lady Gaga
CONTRAS
- Encenação musical má conduzida
- A incapacidade da narrativa lidar com os temas que aborda
- A redundância da experiência cinematográfica que o filme oferece
- Falta de profundidade em seus temas
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