Francis Ford Coppola, o homem por trás de O Poderoso Chefão, Apocalypse Now e Drácula de Bram Stoker, é um dos cineastas mais icônicos do cinema americano e dispensa apresentações — assim como seu aguardado projeto Megalópolis, que ao longo dos anos, despertou enorme expectativa. O diretor, conhecido por seu papel no movimento antisistema (1960-1980), retorna às suas raízes, bancando pessoalmente um projeto ambicioso e realizando o filme de seus sonhos.

Direto ao ponto, Megalópolis, como o filme se autointitula nos minutos iniciais, é uma fábula alegórica sobre o declínio das democracias modernas, corroídas pela desigualdade e pela ganância em todos os níveis — do entretenimento ao jornalismo e à política — que ameaçam suas estruturas, refletindo de forma trágica a decadência da Roma Antiga. O arquiteto César Catilina (Adam Driver) busca reconstruir uma cidade devastada em certo ponto do filme, como um símbolo urgente de renascimento social, onde valores como empatia e cooperação sustentam o sonho de uma utopia ideal. Para alcançar seus propósitos nessa visão utópica e ácida da história americana, Coppola adota uma estética que flerta com o exagero e o deliberadamente artificial como linguagem central. Em cada plano e atuação, há espaço para a artificialidade, com grande parte do elenco mergulhando nesse estilo, especialmente Adam Driver e Aubrey Plaza, que conseguem tornar certos momentos particularmente divertidos. Figurinos e cores também contribuem para essa atmosfera teatral, criando uma experiência bastante excêntrica e exagerada. De muitas maneiras, com essas escolhas, Coppola parece também se enxergar em seu protagonista, nessa jornada pessoal de reconstruir uma cidade e sendo impedido por aqueles que detêm os recursos para fazê-lo. Ao utilizar o exagero e os efeitos especiais típicos dos grandes filmes que dominam o mercado e levá-los até o limite do desconforto, ele apresenta sua própria versão utópica de um filme de alto orçamento: uma obra que, em teoria, busca oferecer ao público algo para reflexão e debate, supostamente, oposto do chamado “cinema de parque de diversões”.

Megalopolis é cheio de ambição, mas a verdade é que o filme tem pouco para realmente nos prender nessa experiência. Em meio a toda a artificialidade, vemos as reviravoltas e os conflitos dramáticos que um paralelo da Roma Antiga naturalmente evoca, e a narrativa até ganha um tom meio shakespeariano conforme avança. Mas nada disso funciona de verdade. Tudo parece solto, fragmentado, e acaba distante de qualquer humanidade.
É difícil se envolver nessa jornada por um sonho distópico quando aquele mundo, aquela sociedade, aquela cidade e aqueles personagens não são palpáveis; são só abstrações de um delírio febril. Não tem nada ali que realmente nos faça sentir algo, nem mesmo do ponto de vista sensorial. Eu vi Megalopolis sendo descrito como uma experiência imersiva, mas eu discordo. Afinal, Coppola tenta claramente construir um conflito dramático que, na cabeça dele, serviria para explorar os paralelos que quer traçar. Ele não está só atrás de uma experiência visual e sonora; ele quer o drama à la Shakespeare. Se ele está falando da falência das democracias modernas, então quer falar de gente de verdade. De seres humanos. Mas aí que está: ironicamente, a humanidade é o que mais falta nessa fábula.

Não vejo como é possível entregar ideias para o público refletir e debater, diferentemente dos filmes “parque de diversões”, se o espectador não é envolvido pela experiência. Idealizações e utopias são sugeridas, mas o caminho para alcançá-las não é realmente pavimentado nem desenvolvido. Falta um envolvimento narrativo, e muitas das ideias sobre a sociedade americana ora são abandonadas pela metade, sem um raciocínio completo, ora soam deslocadas de seu tempo. Esse constante embate com o jornalismo e a mídia, por exemplo, em uma época de internet, fake news e redes sociais, parece datado — um retrato de décadas passadas. O filme até tenta incorporar elementos atuais em certos momentos, mas mesmo isso não se apresenta organicamente como um anacronismo pensado; parece mais um conjunto de elementos adicionados ou retirados ao longo da realização da obra.
A linguagem falha aqui, a meu ver: como mencionei, a artificialidade das composições visuais, das atuações e dos planos tenta criar uma identidade de fábula, mas entra em colapso por falta de um toque mais humano, de envolvimento dramático. E não vejo como o amadurecimento do tempo poderia fazer com que uma obra como essa crescesse, como o diretor parece desejar. Vejo um pouco de auto indulgência em sua criação, e, com este texto, vou me permitir o mesmo. Megalopolis não tem ideias tão complexas sobre o mundo e a sociedade; ele é bem direto e claro em suas intenções. A estranheza do público certamente vem da linguagem, e a falta de apreço que opiniões divididas refletem é fruto da dificuldade do filme em conciliar todas essas camadas. Megalopolis sempre será uma experiência cinematográfica, sem dúvida, mas, independentemente de quantas ideias ou paralelos tente explorar, continuará sendo um filme distante do que sua fábula parece querer falar: seres humanos.
Crítica/Review
Megalópolis
Coppola mistura exagero e estética teatral, mas deixa de lado a humanidade dos personagens e um desenvolvimento consistente das ideias.
PRÓS
- A ambição de Coppola em criar uma fábula sobre o declínio das democracias modernas é elogiável.
CONTRAS
- O filme é distante e fragmentado, faltando humanidade e conexão emocional.
- Ideias sobre sociedade americana são introduzidas, mas muitas vezes abandonadas sem conclusão.
- A abordagem de temas como mídia e jornalismo parece datada e fora de contexto moderno.
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