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Home Originais AN Análises e Críticas

Pinguim – Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)

Gabriel Lefinski por Gabriel Lefinski
2 anos atrás
em Análises e Críticas, Séries, TV e Streaming
Tempo de Leitura:8 mins
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Pinguim - Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)
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A minissérie Pinguim, ou ao menos como é tratada até o momento, funciona como uma expansão natural do que foi apresentado sobre o personagem em The Batman, ao mesmo tempo que estabelece conexões inevitáveis para The Batman: Parte II. A proposta é explorar a ascensão de Oswald ‘Cobb’ (Cobb, já que o sobrenome Cobblepot aparentemente não soa realista o suficiente para os produtores) no mundo do crime de Gotham, até ele se tornar o grande chefão, posição deixada vaga após a morte de Carmine Falcone.

Pinguim - Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)

Durante os oito episódios — e especialmente na conclusão — me vi satisfeito com a maneira como Pinguim representa um amadurecimento dentro do gênero de super-heróis, ao trazer um vilão como protagonista que desafia moralmente o espectador com as escolhas feitas ao longo de sua trajetória. Isso pode parecer o básico em produções centradas em supervilões, mas basta olhar para filmes como Esquadrão Suicida, a trilogia Venom, Morbius, Adão Negro e afins, para perceber o quanto essas histórias eram reféns de posicionar protagonistas moralmente ambíguos contra antagonistas dispostos a destruir o mundo e a matar inocentes, obrigando-os a desempenhar um papel heroico em conflitos previsíveis e formulaicos. A showrunner Lauren LeFranc e o produtor Matt Reeves, porém, conduzem o protagonista por uma trajetória sombria, sem medo de explorá-lo como um indivíduo sem escrúpulos, cruel e oportunista. O aspecto mais interessante é como, a todo momento, os personagens deixam claro que Oz não é confiável — e, no final, o público obtém uma prova amarga disso quando Victor Aguilar (Rheinzy Feliz), o fiel braço direito ao longo dos episódios, é morto por ter testemunhado o lado mais vulnerável do vilão e, acima de tudo, por já não ter utilidade para ele.

Pinguim - Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)

Além disso, o tom sombrio da narrativa permite uma exploração profunda da relação entre Oz e sua mãe, Francis Cobblepot (Deirdre O’Connell). Esse vínculo, inicialmente remetendo a Família Soprano com sua dinâmica entre o filho e uma mãe frágil e doente, vai ganhando camadas cada vez mais perturbadoras ao longo da série, até alcançar ecos da relação de Norman Bates e sua mãe em Psicose. O sombrio finalmente é empregado no gênero para explorar temas genuinamente perturbadores: um filho que assassinou os próprios irmãos por egoísmo, uma mãe que fracassou em punir esse crime e, agora, o mesmo filho que a mantém em um estado vegetativo para que ela presencie sua ascensão criminosa.

É uma construção bastante intensa que a minissérie dedica ao protagonista, criando uma figura memorável dentro do legado cinematográfico dos vilões de Batman. Colin Farrell, por trás da maquiagem que ajuda nessa transformação em outra pessoa, entrega uma performance fascinante. Sua aparência física repulsiva é uma extensão da psique perturbada de Oz, de seu comportamento impulsivo e intenso. A atuação de Farrell, apesar de incorporar clichês e estereótipos de gângster, manipula o espectador junto com o texto. Principalmente quando é revelado o lado vulnerável do personagem — que, na verdade, é apenas uma expressão do egoísmo crescente de Oz —, enganando-nos até que sua verdadeira face é exposta. Todos os méritos à minissérie por construir um personagem cheio de nuances, permitindo ao gênero respirar novos ares e pavimentar um caminho cheio de promessas, mas que entrega uma experiência completa ao fim. Não é uma simples introdução a algo maior; a exploração de Oz é satisfatória por si só, em tudo o que vemos até aqui.

Pinguim - Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)

Entretanto, há uma deficiência notável na estrutura da minissérie e em suas limitações. Embora a jornada sombria de Oz seja o ponto forte da narrativa, sua ascensão no crime e o desenvolvimento da máfia se tornam os aspectos mais problemáticos da série. No início, vemos Oz manipular as famílias Maroni e Falcone, as duas maiores organizações criminosas de Gotham, colocando-as uma contra a outra no estilo de Yojimbo ou Por um Punhado de Dólares. Sofia, a filha da família Falcone, planeja ascender em Gotham com uma nova droga revolucionária; Pinguim se aproveita disso, toma o controle da droga e une famílias menores, vendendo o produto e consolidando seu poder até os acontecimentos do clímax. Na prática, esses elementos pareciam prometer uma exploração interessante da máfia de Gotham, mas na execução, a fragilidade da história fica evidente nessas passagens.

Oz é um manipulador nato, que diz o que as pessoas querem ouvir — um traço que a série enfatiza constantemente, mas que acaba se tornando a principal ferramenta para resolver qualquer conflito. Esse recurso é usado em excesso e de forma cada vez menos criativa, como ao convencer diversas famílias a se aliarem a ele e, posteriormente, ao persuadir os braços direitos dessas organizações a matarem seus chefes e assumirem o controle. Oz incorpora um discurso quase revolucionário sobre o oprimido tomando o lugar do líder, mas a exploração disso fica apenas na retórica vazia, sem um desenvolvimento mais profundo ou consequências palpáveis. Temos pouca noção da estrutura das famílias menores, de suas relações de lealdade e poder, o que torna difícil acreditar nessas alianças e reviravoltas abruptas. A série invoca influências de filmes de máfia dos anos 70, mas acaba repetindo recursos que soam como homenagens superficiais, por falta de tempo para desenvolvê-las adequadamente.

Essas fragilidades se destacam especialmente na passagem de tempo abrupta do episódio 5 para o 6, quando Oz já comanda uma operação complexa nos túneis de Gotham com a nova droga, ‘blizz’, e uma larga equipe de funcionários. Esse salto temporal, onde tudo acontece fora de cena, mostra que Pinguim recrutou pessoas da Zona Leste e antigos contatos, mas o vemos passar de seu momento mais vulnerável e sem recursos a um império bem-organizado, com traficantes experientes manipulando e fabricando a substância. O problema não está na ‘falta de explicação detalhada’, mas no fato de que não acompanhamos a construção desse império, o esforço envolvido e uma noção de hierarquia. Mais tarde, esses funcionários estão dispostos a arriscar a vida por Oz ao confrontar Sal Maroni, mas sem o desenvolvimento prévio, falta peso dramático principalmente à perda desse império quando Sofia o derruba.

Esses pontos são cruciais para que o público entenda e se envolva com o que nosso protagonista sombrio está construindo, sentindo o impacto de sua queda e permanecendo engajado na trama. No entanto, isso acaba não acontecendo. A história deixa lacunas e reduz o envolvimento com a jornada de Oz, talvez devido à limitação de poucos episódios — um sacrifício que a série precisou fazer e que impacta significativamente na reta final. Basta observar o momento em que Oswald finalmente assume a alcunha de Pinguim e se auto intitula o Rei da Cidade — mas rei de quê? Com quais recursos? O que ele realmente tem a oferecer agora? Não seria essencial para essa jornada de ascensão entender como o Pinguim planeja e está comandando o crime em Gotham daqui em diante? Principalmente quando a droga ‘blizz’ já não parece ser um diferencial sustentável para o tráfico na cidade? Ficam as lacunas, as lacunas..

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Pinguim - Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)

A antagonista na jornada de Oz, Sofia Falcone (Cristin Milioti), representa a melhor exploração do submundo criminoso que a minissérie consegue oferecer. Sua trajetória — de ser esquecida e enclausurada pela família no Asilo Arkham, mostrada em um dos melhores episódios, até sua ascensão e vingança contra os Falcone — se destaca, sendo um dos pontos altos, além da própria história de Oz. A interpretação de Cristin Milioti adiciona uma faceta ligeiramente caricata, evocando traços da performance de Michelle Pfeiffer como Mulher-Gato, uma excentricidade que o universo de Batman pede na tela. Junto à obsessão de Oz por sua mãe, Sofia traz uma peculiaridade que impede a série de ser apenas um pastiche de filmes de gangster, permitindo que incorpore um toque mais excêntrico dos quadrinhos, ainda que sutilmente. Dito isso, sinto que há uma oportunidade perdida aqui: as demais famílias criminosas e os próprios familiares de Sofia permanecem em um realismo sóbrio, sem explorar o potencial surreal e excêntrico que figuras de Gotham City poderiam evocar. Embora esse novo universo encabeçado por Matt Reeves priorize um tom mais sério, Gotham ainda é uma cidade que combina uma arquitetura gótica inglesa no meio dos Estados Unidos, onde um homem se veste de morcego e vilões planejam inundar a cidade. Mesmo com um olhar mais sóbrio, havia espaço para uma exploração mais criativa. No entanto, isso é uma idealização do que a série poderia ser, e cabe julgá-la pelo que ela é. Nesse sentido, é bom ver que a série aproveita ao menos parte desse potencial e evita perder completamente a oportunidade de incluir um toque de estranheza.

Pinguim - Minissérie Completa (Crítica com Spoilers)

Sendo um grande admirador do trabalho de Matt Reeves em The Batman, senti a ausência da direção dele nesta extensão de seu universo. Embora a estética se mantenha em cada episódio, é evidente a falta de uma identidade mais marcante para o seriado. Se no filme havia aquele peso e atmosfera do noir, na série não temos, por exemplo, uma ambientação forte de filme de gangster ou qualquer influência significativa nesse aspecto. A direção de boa parte dos episódios é muito protocolar e acaba não se destacando. Momentos como o vai-e-vem do clímax — em que Sofia captura Oz, Oz foge e é capturado, captura Sofia, e assim por diante — ou tensões em situações menores, como o clássico impasse à la faroeste entre Sal Maroni e a operação de Oz no subsolo, carecem daquela construção de tensão. A falta de exploração de ângulos, planos mais criativos e recursos de câmera torna esses momentos pouco memoráveis. Em certo ponto da série, tudo se torna sóbrio demais, funcional, sem o brilho que a direção de The Batman trazia e o peso do trabalho de Reeves ao construir paralelos entre herói e vilão — ambos se refletindo como observadores, com o herói na posição de quem investiga e o vilão observando suas vítimas —, a série carece desse tipo de exploração narrativa. A direção de The Batman permitia respiros e uma antecipação gradual do conflito, mas aqui não há tanto espaço para isso. Ainda que existam tentativas, como o sequestro de Francis e o conflito entre mãe e filho que Sofia tenta promover no episódio final, essas lacunas enfraquecem a tensão. O ponto de maior exploração estética fica nos momentos de Sofia no Arkham, onde a direção contribui para a narrativa ao brincar com a passagem do tempo e desfigurar a cela até ela se transformar no que a personagem mais temia: o quarto onde encontrou sua mãe assassinada.

Apesar dessas limitações, a minissérie cumpre seu propósito ao explorar seu protagonista titular. Reitero: é uma das produções mais bem-sucedidas do gênero ao colocar um supervilão no centro da trama de forma a desafiar moralmente o espectador. O Pinguim de Colin Farrell certamente permanecerá na memória dos vilões de Batman por muito tempo, e os realizadores conseguiram com êxito conduzir esse mergulho sombrio na narrativa. Ainda assim, a série é irregular; sua estrutura apressada e pouco desenvolvida, somada à falta de uma direção mais definida, prejudicam o que poderia ser um destaque ainda maior. A jornada de Pinguim na minissérie é interessante, mas todo o resto é bem frágil em seu conteúdo. 

Crítica/Review

Pinguim

7 Nota

A minissérie Pinguim apresenta uma jornada sombria e fascinante de um protagonista que desafia moralmente o público, mas deixa a desejar ao construir uma narrativa sólida em torno dele. Apesar da impactante atuação de Colin Farrell, a série tropeça no desenvolvimento apressado das tramas secundárias. Diverte, mas poderia ser mais.

PRÓS

  • A minissérie explora profundamente o personagem do Pinguim, colocando um supervilão como protagonista de forma moralmente desafiadora, em contraste com produções mais formulaicas.
  • A relação entre o Pinguim e sua mãe é retratada de forma sombria e perturbadora, criando um paralelo interessante com temas de outros filmes icônicos, como Psicose.
  • A performance de Colin Farrell como Pinguim, combinando maquiagem e expressão, constrói um personagem cheio de nuances e memorável no universo de vilões de Batman.

CONTRAS

  • A série não explora a ascensão de Oz no mundo do crime, com saltos temporais que deixam lacunas no desenvolvimento de seu império e em suas alianças.
  • A falta de uma direção marcante deixa a narrativa sem o peso e a ambientação dos filmes de gangster ou a tensão explorada em The Batman, prejudicando a construção de momentos importantes.
  • As alianças e conflitos com as famílias de Gotham são tratados de forma rasa, sem explorar as dinâmicas e a estrutura dos grupos, o que diminui o impacto das reviravoltas e da queda de Oz.

Detalhes

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Gabriel Lefinski

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Aspirante a roteirista e amante de cinema, games, gibis e Batman. Instagram: gabriel_lefinski

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Detalhamento

Nota Final

7
  • Nota da Série: 0

PRÓS

  • A minissérie explora profundamente o personagem do Pinguim, colocando um supervilão como protagonista de forma moralmente desafiadora, em contraste com produções mais formulaicas.
  • A relação entre o Pinguim e sua mãe é retratada de forma sombria e perturbadora, criando um paralelo interessante com temas de outros filmes icônicos, como Psicose.
  • A performance de Colin Farrell como Pinguim, combinando maquiagem e expressão, constrói um personagem cheio de nuances e memorável no universo de vilões de Batman.

CONTRAS

  • A série não explora a ascensão de Oz no mundo do crime, com saltos temporais que deixam lacunas no desenvolvimento de seu império e em suas alianças.
  • A falta de uma direção marcante deixa a narrativa sem o peso e a ambientação dos filmes de gangster ou a tensão explorada em The Batman, prejudicando a construção de momentos importantes.
  • As alianças e conflitos com as famílias de Gotham são tratados de forma rasa, sem explorar as dinâmicas e a estrutura dos grupos, o que diminui o impacto das reviravoltas e da queda de Oz.

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