Ainda Estou Aqui é um filme dividido entre dois tons. O primeiro é marcado pelo suspense, presente logo em seu plano inicial, quando Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres, emerge de um mergulho e é atraída pelo som de um helicóptero militar cortando os céus. Essa cena é crucial, pois estabelece um sentimento de inquietação e tensão — uma crescente silenciosa de tragédia iminente.

O ritmo mais cadenciado das cenas seguintes nos apresenta à família Paiva: Rubens Paiva, Eunice e seus filhos, em situações cotidianas, como sair para tomar sorvete ou interagir em diferentes cômodos da casa. Somos imersos nesse universo doméstico pelas visitas constantes, pelas músicas que evocam os anos 60 e 70, e por cenas menores, mas significativas, como Rubens aflito enquanto os filhos brincam. As reuniões no escritório de Rubens, os encontros com amigos e as visitas misteriosas que ele recebe à noite são captadas com atenção pelas lentes de Walter Salles, que recorta esses momentos com um olhar intimista, ressaltando a importância desses momentos em meio ao fluxo abrupto de interrupções no cotidiano e leveza nostálgica.
Paralelamente, ouvimos os noticiários ao fundo, relatando as disputas entre a resistência armada e a Ditadura Militar, enquanto veículos militares cruzam as ruas, reforçando o caos e a inquietação que permeiam aquele cotidiano. Esse primeiro tom é fascinante e atmosférico, preparando o espectador para o pior, ao mesmo tempo que nos aproxima da família. A relação calorosa de Rubens com os filhos e a doçura nostálgica desse núcleo familiar nos envolvem profundamente.

São momentos que encontram um equilíbrio entre o realismo e a sensibilidade, evitando artificialidades. Há humanidade ali. Selton Mello brilha ao interpretar o pai angustiado que precisa ser tanto força quanto leveza para os filhos. Durante essa primeira parte do filme, guiada pelo suspense, sua performance sustenta a narrativa, enquanto Walter Salles demonstra pleno domínio ao construir, com precisão, o terreno emocional para o choque que está por vir.
O segundo tom é marcado pelo drama. Para quem não conhece a história, Ainda Estou Aqui é baseado em uma história real: nos anos 70, Rubens Paiva foi levado por militares à paisana e desapareceu. Enquanto Eunice, sua esposa, passou décadas buscando a verdade sobre o destino do marido. A captura de Rubens é um momento que Salles constrói cuidadosamente, é hora de derrubar o que ele construiu até então e mexer com os tons, e filma o momento como o clímax dessa tensão e até horror — a casa escurecendo, homens misteriosos chegando, e a sensação amarga de sabermos que Rubens nunca mais verá sua família. A partir daí, acompanhamos as consequências dessa perda.

Fernanda Torres constrói sua personagem sem os grandes momentos de explosão dramática que poderiam ser esperados em um papel assim. Pelo contrário, Eunice está em pedaços, mas é sufocada pela impossibilidade de compartilhar sua dor com os filhos. Ela precisa se manter firme diante deles e até evitar tocar no assunto, interiorizando essas consequências emocionais. Vemos cada uma das consequências da ausência de Rubens — financeiras, familiares e emocionais. Salles é habilidoso ao explorar uma melancolia que ora é explícita, ora sutil, como nas cenas da casa, que antes irradiava calor nos minutos iniciais e agora está vazia, preenchida apenas pelo vazio e pela incerteza, assim como a própria Eunice. Embora o filme avance para sua conclusão com certa contenção, incluindo dois saltos temporais, a imersão naquele pequeno universo, construído inicialmente pela tensão e depois pela melancolia das consequências, mantém uma profundidade autêntica e palpável, sendo esse o maior mérito do filme.

Na última cena, Eunice, agora interpretada por Fernanda Montenegro, idosa e marcada pelo peso da idade, tanto física quanto mentalmente, sorri na preparação para tirar uma fotografia em família que, em outro momento do filme, jornalistas haviam tentado manipular, pedindo que ela e os filhos não sorrissem. Agora, porém, ela sorri, porque, no fim de sua vida, vê que o destino do marido é finalmente de conhecimento público, mencionado em uma reportagem. Por mais doloroso e melancólico que seja a natureza do desfecho de Rubens, ela encontra paz na certeza de que, Além dela, outras famílias também terão suas histórias reveladas e incertezas cessadas. É uma resolução visceral e verossímil, uma que levou décadas para alcançar Eunice, mas, ainda assim, demorou menos do que seria necessário para realmente lhe trazer paz.
Entre o suspense e o drama, Salles preenche Ainda Estou Aqui com humanidade. A humanidade pode ser melancólica, recompensadora, marcada por tensões — e não é unilateral. Seja em momentos simples, como quando um militar expressa que não concorda com o que estão fazendo com Eunice, ou quando os jornalistas, ali para ajudar a história dela a ganhar voz, tentam espetacularizar o sofrimento, ditando como ela e os filhos devem se portar, manipulando a narrativa.
Ainda Estou Aqui é um grande filme.
Crítica/Review
Ainda Estou Aqui
Entre o suspense e o drama, Walter Salles constrói Ainda Estou Aqui como uma poderosa narrativa de perda, busca pela verdade e resiliência.
PRÓS
- O filme cria uma atmosfera de tensão e inquietação que prepara o espectador para o drama.
- As atuações de Fernanda Torres e Selton Mello são marcadas pela profundidade emocional e pela humanidade que transmitem aos personagens.
- O filme apresenta uma resolução visceral e verossímil, com uma conclusão que traz paz à personagem principal após décadas de busca.
CONTRAS
- O filme avança para sua conclusão com certa contenção, o que pode dar a impressão de um ritmo mais lento ou menos impactante em alguns momentos.
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