No clássico do expressionismo alemão Nosferatu (1922), o Conde Orlok, a criatura-título, é um monstro desprovido das complexidades emocionais do Drácula de Bram Stoker — ele é uma força da natureza, a peste encarnada. No excelente remake de 1979, Nosferatu: O Vampiro Da Noite, o vilão é retratado como uma criatura melancólica, presa à sua condição “humana” com a mesma inevitabilidade de destino que Lucy Harker enfrenta diante da passividade sombria do marido e de seu próprio sacrifício para destruir o monstro. Já na versão de Robert Eggers, o Conde Orlok (interpretado por Bill Skarsgård) representa o ponto culminante da descida de Ellen Hutter (interpretada por Lily-Rose Depp) à escuridão emocional da melancolia.

Robert Eggers é um cineasta que, ao lado de Ari Aster (Hereditário) e Jordan Peele (Corra), revitalizou o interesse recente pelo horror psicológico, inspirando até mesmo a percepção de que seu estilo representa um “horror elevado e inteligente”, supostamente superior aos filmes de terror mais frontais e óbvios. Ironicamente, em Nosferatu (2025), Eggers equilibra o horror psicológico com o terror mais visceral, em um filme com um monstro deformado, jumpscares e trilha sonora inquietante. Esse casamento se revela interessante, pois a exploração da narrativa em torno do vazio existencial e da dor emocional que corroem a alma de Ellen é intensificada pelo impacto visual dessas manifestações de horror — seja na figura do Conde e na extensão de sua ameaça, desde os ataques físicos até sua influência, espalhando a peste e condenando uma cidade inteira.

As cenas de possessão de Ellen amplificam essa fusão entre o horror psicológico e o frontal, transformando seu tormento interno em uma experiência tangível e visceral. À medida que a influência do Conde se infiltra na mente e no corpo de Ellen, sua transformação não apenas simboliza a perda de controle sobre sua própria identidade, mas também serve como metáfora para a inevitável corrupção espiritual que acompanha a presença de Orlok. Eggers utiliza esses momentos de possessão para expressar visualmente o impacto psicológico do trauma, combinando a performance intensa com elementos gráficos perturbadores estabelecidos do gênero — como contorções corporais e olhares vazios — para evocar tanto medo quanto empatia.
A vulnerabilidade de Ellen diante dessas forças incontroláveis — da depressão que degrada seu corpo e mente — é um tropo clássico da literatura gótica. Se o clássico de 1922 foi um dos responsáveis por inaugurar o expressionismo alemão como manifestação estética do gótico no cinema, Eggers constrói meticulosamente seus planos para refletir essa herança. A única antítese às sombras que preenchem todos os espaços é a luz intensa da lua ou das chamas das velas, criando momentos memoráveis na obra. É uma atmosfera de constante opressão e melancolia.

O uso expressivo de luz e sombra intensifica a tensão emocional, como na cena da encruzilhada, onde Hutter (Nicholas Hoult) aguarda sua fantasmagórica carruagem. Ali, a composição visual mergulha no simbolismo do desconhecido e do presságio, preparando o espectador para o horror iminente. Da mesma forma, no primeiro encontro com o Conde — sempre deformado e parcialmente desfocado pela lente — as cores vibrantes do fogo da lareira dominam os planos, transformando o horror de Hutter (muito palpável pela performance de Holt por sinal) em um reflexo imediato de sua vulnerabilidade, antes de se projetar sobre nós, espectadores.
Esse impacto visual reafirma como o gótico é um veículo para explorar os medos humanos mais profundos — um controle que Eggers exerce com maestria como autor, honrando o legado do clássico de 1922. Entretanto, o cineasta não se distancia de suas raízes no horror folclórico, mergulhando na cultura cigana em determinadas passagens, além de explorar o oculto, a alquimia e outros tropos que refletem como o folclore também é um meio eficaz para despertar o medo do desconhecido, evocando o ancestral e o mítico.

Eggers presta um olhar atento à versão de 1922, especialmente à estética e às influências que tornaram o filme um clássico, com direito até às homenagens mais óbvias — como a sombra da criatura se aproximando de sua vítima. Contudo, ele também dialoga com as complexidades emocionais introduzidas na versão de 1979, sem deixar de construir uma identidade própria. A narrativa estabelecida é expandida e, em certos momentos, até se torna didática ao explicar, por exemplo, a origem da relação entre o Conde e Knock. No entanto, como todo bom remake deveria ser, Nosferatu (2025) encontra identidade própria e algo a ser dito sobre o contexto temporal em que foi produzida.

“Ele é a morte. Ele é a minha melancolia e, agora que descobriu que me casei, está com ciúmes e me quer de volta.”
Lily Rose Depp entrega esse diálogo angustiado e interiorizado em uma das passagens (repetitivas e até didáticas) como Ellen. Descobrimos que a personagem se entregou ao Conde no passado, foi reprimida por isso, conseguiu se livrar de sua influência durante um tempo, mas agora ele retornou. Essa é a metáfora que permeia todo o conto de Eggers. É um vazio existencial tão avassalador, uma busca incessante por preencher uma melancolia tão intensa que se reflete até mesmo na volúpia e no desejo carnal que Ellen demonstra em diversos momentos. Uma sensação sufocante que ela só consegue vencer quando, no belíssimo clímax, se entrega e aceita essa depressão, mas a destrói (ou se une a ela de vez) ao revelá-la, permitindo que a luz a envolva. Não é à toa que o Conde Orlok, interpretado por Bill Skarsgård, é um cadáver putrefato ambulante, com sua voz cavernosa e seu manto escuro que remete à figura popular do ceifador. Esse é o simbolismo que Nosferatu (2025) busca tratar: Um remake que surge em um momento em que a sociedade, marcada pela depressão e um vazio emocional avassalador, busca incessantemente e intensamente preencher suas lacunas internas, tal como Ellen, que evoca o vampiro de um feiticeiro como um suspiro de conforto, apenas para se ver consumida por aquilo que desejava.
É um grande remake.
Crítica/Review
Nosferatu
Com Nosferatu (2025), o cineasta Robert Eggers equilibra o terror psicológico com o terror frontal, criando uma atmosfera melancólica que reflete o vazio existencial de Ellen, enquanto honra a herança do clássico de 1922 e se contextualiza à depressão da sociedade contemporânea.
PRÓS
- Equilíbrio entre horror psicológico e frontal
- Respeito ao legado e construção de identidade própria
CONTRAS
- Repetição e didatismo de certos elementos
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