Em um mercado dominado por mangás japoneses e quadrinhos norte-americanos, é sempre um prazer (e uma surpresa) encontrar uma obra nacional que não apenas ousa sonhar alto, mas entrega uma narrativa sólida, visualmente impactante e com identidade própria. Memo Reboot Vol. 1, publicado pela Editora JBC sob o selo JBStudios, é exatamente esse tipo de obra. Com roteiro de Phellip Willian e arte de Eduardo Ribas, o quadrinho nos transporta para uma galáxia onde memórias são commodities valiosas — e perigosas.
Enredo: memórias à venda, dilemas à flor da pele
A história se passa em um futuro distante, onde corporações especializadas em neurociência desenvolveram uma tecnologia capaz de copiar memórias humanas. Essas memórias, que podem ser traumáticas, políticas ou puramente pessoais, se tornaram itens de alto valor no mercado negro. Nesse cenário, acompanhamos a tripulação da nave Reboot, liderada por Cali, uma caçadora de recompensas de memórias que, junto de sua equipe, aceita missões que envolvem extrair, proteger ou até destruir essas lembranças.
O roteiro de Phellip Willian é ágil e bem estruturado. Ele não perde tempo com exposições desnecessárias e nos joga direto na ação, mas sem abrir mão de momentos de introspecção e desenvolvimento de personagens. A narrativa é recheada de dilemas éticos — o que define uma memória? Quem tem o direito de possuí-la? — e levanta questões que ecoam com força no mundo real, onde dados pessoais são a nova moeda.
Personagens: uma tripulação imperfeita e cativante
Cali, a protagonista, é uma figura complexa. Ela carrega um passado nebuloso e uma postura pragmática, mas aos poucos revela camadas emocionais que a tornam mais humana (e menos heroína genérica). Sua relação com os demais tripulantes — que incluem um hacker sarcástico, uma engenheira com traumas do passado e um androide com senso de humor peculiar — é o coração da história.
O grande trunfo aqui é a dinâmica entre os personagens. Eles funcionam como uma “família disfuncional espacial”, com brigas, afeto e cumplicidade. Cada um tem seus próprios fantasmas, e o quadrinho faz questão de explorá-los com sensibilidade, sem cair em clichês melodramáticos.
Arte e estilo visual: um espetáculo de cores e formas
A arte de Eduardo Ribas é um verdadeiro deleite visual. Com traços limpos e expressivos, ele consegue equilibrar cenas de ação frenéticas com momentos mais contemplativos. O design da nave Reboot e dos cenários espaciais é criativo e funcional, remetendo a clássicos da ficção científica sem parecer derivativo.
O uso de cores é outro destaque. A paleta varia conforme o tom da cena — tons frios para momentos introspectivos, cores vibrantes para as sequências de ação — criando uma atmosfera envolvente que complementa perfeitamente o roteiro. O acabamento gráfico da edição impressa, com capa cartonada e verniz localizado, mostra o cuidado da JBC com o projeto.
Originalidade e impacto: sci-fi com sotaque brasileiro
Memo Reboot não tenta esconder suas influências — há ecos de Blade Runner, Ghost in the Shell e até Cowboy Bebop — mas o faz com personalidade. A ambientação futurista é temperada com um olhar brasileiro, tanto na forma como os personagens se relacionam quanto na crítica social embutida na trama.
É raro ver uma obra nacional de ficção científica que se aprofunda tanto em temas filosóficos e tecnológicos sem perder o ritmo narrativo. Memo Reboot consegue esse equilíbrio com maestria, e isso o torna uma leitura obrigatória para fãs do gênero.
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Crítica/Review
Memo Reboot
Memo Reboot Vol. 1 é uma estreia promissora que prova que a ficção científica brasileira tem muito a dizer — e sabe como dizer. Uma obra que merece ser lida, discutida e celebrada.
PRÓS
- Enredo instigante com dilemas éticos relevantes
- Personagens bem desenvolvidos e carismáticos
- Arte expressiva e visualmente impactante
- Ambientação sci-fi original com identidade nacional
- Edição caprichada da JBC
CONTRAS
- Algumas transições de cena podem parecer abruptas
- O volume 1 termina com um gancho que deixa o leitor ansioso (e impaciente) pelo próximo










