Superman (2025), a essa altura, é o resgate que todos esperavam: o retorno ao otimismo, ao bom mocismo, às raízes do Homem de Aço. James Gunn torna essa a discussão central do filme: como o Superman pode se manter quem é em um mundo que constantemente busca testá-lo ao limite. Essa discussão, em grande parte, é bem construída e atinge seu maior êxito. É, sem dúvida, o acerto do filme. David Corenswet traz uma encarnação muito forte do Homem de Aço, a doçura e a presença necessárias que o personagem pede se encaixam bem nessa releitura moderna. Com o ator certo e a intenção alcançada, Gunn consegue entregar uma versão memorável do personagem no cinema.

Mas esse não é seu único interesse. Ao se afastar do cinismo que sequestrou o Superman nos últimos anos, Gunn também se afasta do cinismo que contaminou o cinema de super-heróis como um todo. Ele filma a ação com planos fechados e abertos, com uma composição visual clara, o olhar da câmera acompanhando os personagens com consciência do cartunesco, do exagerado. Na ação, os superpoderes são sempre retratados com mais criatividade do que na cena anterior. As poses impossíveis e a forma como ele trabalha os efeitos visuais, não para tornar o realismo o centro, mas para evidenciar o artifício, revelam a intenção final. Superman (2025) encontra um lugar muito próximo do formalismo estético que fez audiências torcerem o nariz para Speed Racer (2008).
Nesse exagero visual e de personagens, não vemos super-heróis ridicularizando sua própria existência como forma de escape humorístico, como em Thor: Amor e Trovão, nem tecnologias mirabolantes sendo explicadas, o tempo inteiro, por diálogos expositivos que tentam fazer a pseudo-ciência soar plausível. Não. É um filme que aposta no exagero para encenar sua fantasia — e acredita nisso. O Homem de Aço não precisa de explicações sobre de onde veio sua capa, por que usa uma cueca por cima da calça ou por que existe um cachorro com os mesmos superpoderes que ele. Tornar esse personagem crível e interessante é a intenção — não responder aos porquês de o fantástico ser como é.

Por outro lado, há uma intenção clara de Gunn em fugir de sua fórmula clássica, grandes elencos em tramas de assalto, que definitivamente não funciona aqui. A narrativa é caótica. Existe uma tentativa de desenvolver dinâmicas entre personagens por meio da ação, como John Wick e Mad Max: Estrada da Fúria fazem, mas sem o mesmo controle. Gunn de fato compõe pequenos mundos muito interessantes dentro do filme: o Planeta Diário e suas figuras retrô, desde Jimmy até Cat Grant; os robôs da Fortaleza da Solidão; e a própria Gangue da Justiça, com seus super-heróis padronizados como marca. Mas o vício narrativo de estabelecê-los apenas para levá-los rapidamente ao próximo bloco de ação dificulta o tempo de interação entre eles.
Momentos de respiro com cada um desses personagens — e para o próprio frenesi do filme — teriam ajudado muito mais no equilíbrio desse elenco. A própria trama investigativa sobre o plano mirabolante de Lex Luthor acaba soando frágil por conta dessa escolha narrativa. É onde mora a parte mais fraca da experiência.

É uma pena, porque os personagens são muito interessantes. Nicholas Hoult, por exemplo, vive Lex Luthor com uma intensidade e um sadismo que o colocam como o contraponto perfeito ao bom moço que Corenswet constrói. O próprio papel das mídias, das telas, como a maior força de Luthor, é um discurso político forte que levanta questões importantes. Mas são ideias que nunca ganham o peso necessário diante do frenesi de ação que domina a narrativa.
Superman (2025) acaba soando como esse resgate atrapalhado e imperfeito das raízes do personagem. Como diz o ditado: de boas intenções o inferno está cheio. Mas, pelo lugar que ocupa dentro do cenário blockbuster atual, que deveria apostar mais nessas fantasias sinceras e cartunescas, nas possibilidades que o gênero pode oferecer para além do realismo cínico, o filme tem méritos para, pelo menos, se tornar marcante.

O sentimento, por mais dividido que pareça, ainda assim abre portas para um caminho interessante dentro do cinema de super-heróis…
Crítica/Review
Superman (2025)
Superman (2025): um resgate sincero, mas atrapalhado, das raízes do herói.
PRÓS
- Resgata com sucesso o idealismo e a essência clássica do Superman
- Abraça o cartunesco e o exagero visual com criatividade e autenticidade
CONTRAS
- A narrativa é caótica e não equilibra bem ação e desenvolvimento de personagens
- As dinâmicas entre os coadjuvantes são pouco exploradas e apressadas
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