Se o mundo fosse acabar amanhã, como você passaria o seu último dia? Essa é a premissa que paira, com gosto agridoce, sobre Eventos Semiapocalípticos: Eduardo e Afonso, HQ brasileira publicada pela Editora JBC. Criada por Yoshi Itice, a obra consegue ser caótica, divertida, melancólica e absolutamente original – às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Neste primeiro volume, somos apresentados a um Brasil em que o fim está próximo, mas a vida continua com uma estranha sensação de normalidade. E é nesse contraste que a narrativa brilha.
Enredo: Um Apocalipse Desajeitado
A trama acompanha Eduardo e Afonso, dois amigos que enfrentam os eventos do suposto “fim do mundo” em uma cidade brasileira genérica e absurdamente familiar. Não há zumbis correndo pelas ruas nem explosões hollywoodianas: o apocalipse retratado por Yoshi Itice é mais introspectivo, esquisito e, principalmente, cotidiano. Há uma sensação de que tudo está fora do eixo, mas ninguém parece se importar muito com isso.
A trama do volume 1 acompanha Eduardo e Afonso em busca do Maior Mago do Universo para ‘curar‘ Afonso. No inicio da HQ a dupla encontra uma antiga amiga chamada Gabriela, que promete ajudá-los a encontrar o mago caso recuperem sua mochila.
Personagens: Protagonistas Que Fogem da Fórmula
Eduardo e Afonso são personagens construídos à base de autenticidade. Eduardo parece mais reflexivo, pessimista, quase resignado com o estado das coisas. Afonso, por outro lado, é impulsivo, elétrico, e capaz de provocar uma reviravolta emocional em qualquer página (e sim ele é uma secadora). Juntos, a dupla funciona como um retrato honesto de amizades reais: imperfeitas, confusas, mas essencialmente sinceras.
O elenco secundário é tão peculiar quanto o universo da HQ. Criaturas aleatórias surgem e desaparecem, humanos estranhos cruzam o caminho da dupla sem grandes explicações, e ainda assim tudo parece fazer parte de um ecossistema narrativo maior. Não é uma obra sobre respostas, e os personagens refletem isso – são testemunhas do absurdo, mas não se chocam com ele.
Arte e Estilo Visual: Estética do Desconforto (de propósito!)
O traço de Yoshi Itice carrega uma estética propositalmente estranha. As proporções dos corpos variam, os quadros parecem colapsar em certos momentos, os cenários mudam abruptamente de estilo. E isso não é uma falha – é parte da construção artística do título. A arte reforça o tom semiapocalíptico de forma brilhante: o mundo está desmoronando, inclusive visualmente.
Há uma sensação constante de instabilidade no estilo: ora os desenhos são minimalistas e limpos, ora caem em uma densidade quase claustrofóbica. A paleta de cores segue essa lógica, misturando tons pastéis com explosões de cores vibrantes em momentos de quebra. É como se o próprio quadrinho tivesse consciência do absurdo e nos provocasse visualmente.
Originalidade e Impacto: Um Manifesto Gráfico do Caos
O que torna Eventos Semiapocalípticos: Eduardo e Afonso realmente memorável é sua ousadia narrativa. Em um mercado saturado por fórmulas de super-heróis, distopias juvenis e dramas previsíveis, essa HQ opta por não seguir roteiro nenhum. E faz isso com confiança. Yoshi Itice entrega um trabalho que se recusa a fazer sentido nos moldes convencionais – e justamente por isso, faz muito sentido para quem está disposto a se deixar levar.
O impacto da obra vai além do conteúdo. É um marco na produção nacional por mostrar que HQs brasileiras podem ser experimentais, filosóficas e completamente fora do padrão. Não é um quadrinho que agrada todo mundo, e esse talvez seja seu maior mérito.
A resenha de Eventos Semiapocalípticos: Eduardo e Afonso foi produzida com uma unidade da HQ gentilmente cedida pela Editora JBC por meio do programa de parceiros.
Curtiu essa resenha? Então comenta aí embaixo o que achou de Eventos Semiapocalípticos e conta pra gente: você encararia o apocalipse com um amigo do lado? Não esquece de seguir a Alternativa Nerd nas redes sociais para mais reviews, análises e novidades do universo nerd brasileiro.
Crítica/Review
Eventos Semiapocalípticos: Eduardo e Afonso - Vol 1
Eventos Semiapocalípticos: Eduardo e Afonso é uma obra que desafia o leitor – não por complexidade, mas por rejeitar a fórmula. É experimental, estranho, e um reflexo honesto de tempos em que nem o fim do mundo parece fazer sentido.
PRÓS
- Narrativa não linear que prende pela imprevisibilidade
- Personagens autênticos e bem construídos
- Arte experimental que complementa o caos temático
- Diálogos inteligentes e carregados de subtexto
- Forte identidade brasileira sem cair em clichês
CONTRAS
- Pode confundir leitores acostumados com estruturas tradicionais
- Estilo visual pode parecer “amador” em alguns momentos (embora proposital)
- Falta de explicações pode frustrar quem busca respostas claras
- Ritmo narrativo irregular pode cansar em leituras mais longas










