Completando 30 anos de lançamento, Batman Eternamente retorna aos cinemas brasileiros para comemorar o Dia do Batman. Um filme amado por muitos, odiado por outros, mas a sensação de carinho e nostalgia costuma predominar quando se fala dele hoje em dia — especialmente para mim. Joel Schumacher, o homem por trás da direção, já nos deixou, assim como recentemente o lendário Val Kilmer. A cada revisionismo, o filme conquista um lugar de afeto na trajetória do Cavaleiro das Trevas no cinema, se distanciando daquele olhar negativo que perdurou durante muito tempo quando o filme era assunto. Em celebração ao filme, proponho um olhar um pouco mais atento nas camadas por trás dele e o que o faz continuar sendo fascínio…
30 anos de Batman Eternamente

Com Batman e Batman: O Retorno, Tim Burton, como em toda a sua carreira posteriormente, criticava a sociedade americana e suas contradições através do grotesco, do mórbido e do gótico. Não à toa, os super vilões eram muito mais protagonistas que o próprio Cavaleiro das Trevas. Por outro lado, para Christopher Nolan, o Batman é uma lenda, uma espécie de mito fundador que sustenta uma ordem ameaçada por falhas externas e ameaças, e está lá para restaurar a fé nas instituições e nas pessoas. Então, o que sobra para Joel Schumacher? Bem, para ele, Batman é camp/pop, performático, e todo seu universo é encenado como tal.
Logo na primeira cena em que o Batman de Val Kilmer é apresentado em meio às sombras, a figura da seriedade do herói inabalável dá lugar à performance e ares de sátira, quando ele diz a Alfred que não levará um sanduíche, pois vai passar em um drive-thru. Schumacher assume o artifício e exagera o gênero. Sua Gotham City, hoje celebrada por muitos, é um parque temático pós-moderno: neon, esculturas colossais, publicidade por toda parte e figurinos escultóricos (os famosos mamilos nos bat trajes). A ação é acompanhada de trilhas exageradas que chegam a ditar o ritmo dos golpes em alusão às onomatopeias da série do Adam West.

Hoje todo mundo está careca de saber que o interesse da Warner era que a franquia do Cavaleiro das Trevas abraçasse um público mais amplo e juvenil principalmente para lançar mais produtos licenciados, brinquedos e manter a parceria com o McDonald ‘s que foi abalada pelo filme anterior de Burton. Essa pressão por tornar o filme “toy etic” (estética de brinquedo) ditou a visão de Schumacher para com esse universo e ao lado da direção de arte de Barbara Ling, construiu uma Gotham City que reflete símbolos de consumismo constantes e um Batman e Robin que usam e abusam de apetrechos diversos e pilotam dois bat-veículos diferentes no clímax. Se analisar um pouco mais a fundo até mesmo o plano do Charada (Jim Carrey) de elaborar um dispositivo que rouba consciência via TV, uma alegoria precoce da economia da atenção e fusão mídia-tecnologia de consumo, evidencia isso. Essa última é um pouco mais direta, de importância vital narrativa, enquanto as outras estão nos símbolos que preenchem espaço e dão vida àquele mundo. Joel encontra uma maneira de inserir toda essa pressão para o filme ser um motor de consumo em sua própria identidade, mas metaboliza tudo como espetáculo, sempre pensando na performance, não há espaço para uma tese pessimista aqui.

Por outro lado, é interessante notar como Batman Eternamente é o primeiro filme que investiu na jornada emocional de Bruce Wayne (Val Kilmer). Pela primeira vez, o trauma da perda dos pais é um elemento constante para o personagem e sua trajetória ao longo de uma trama. Executada de forma eficiente, a passagem de Bruce de vigilante preso ao trauma para alguém que rompe esse ciclo acolhendo um pupilo é a primeira grande nuance introduzida no cinema, antes das explorações da trilogia de Christopher Nolan. Claro, o melodrama familiar, apesar de ser o coração do filme, nem sempre funciona. Mas existem momentos de grande sinceridade entre Kilmer e Nicole Kidman, especialmente nas cenas em que ele expõe seu trauma para ela já próximo do clímax.

Outro ponto interessante é como a energia erótica proposta em Batman: O Retorno permanece aqui. A relação entre Chase Meridian e o Cavaleiro das Trevas é pautada não primeiramente no romance, mas no puro desejo. As cenas dela de camisola, os encontros noturnos e a atuação de Kidman como uma femme fatale, com sua voz erotizando o herói o tempo inteiro, mergulham ainda mais fundo em como um super-herói pode se tornar um elemento de fetiche em live action. Além disso, os enquadramentos de Joel Schumacher sempre buscam retratar o corpo de Batman ou com desejo sexual, ou como aquela figura a ser alcançada: closes na boca, na máscara, no peitoral da armadura, e por aí vai. A única diferença é que o erotismo, diferente do gótico e sadomasoquista de Burton, aqui é mais plástico e glamouroso, como todo o resto da ideia performática do filme.
É curioso, porque, ao mesmo tempo em que Bruce Wayne vive essa jornada mais psicológica — enfrentando o trauma e a possibilidade de reconciliação entre suas duas identidades —, isso é embalado nessa estética de consumo, nesse olhar erótico e fetichista: O Batman como objeto de desejo para seu autor, público e personagens do filme.É definitivamente um filme mais irregular que seus antecessores, mas essa forte identidade e subtexto são atingidos com êxito. Joel não só dá esse olhar particular a esse mundo, como consegue conduzi-lo bem. Pelo menos aqui, com todas as exigências de criar um filme vendável, ele imprime sua veia artística e uma identidade forte; suas imposições viram sua ferramenta de exploração. Seu puro prazer pela imagem desses super-heróis fica evidente no plano final, quando a Dupla Dinâmica corre em direção à câmera. Não é apenas um encerramento narrativo, mas um gesto teatral em que os heróis se oferecem ao olhar do público. É a síntese do cinema de Schumacher: a celebração da iconografia do super-herói como espetáculo, cor, corpo e movimento. Muito mais do que um Zack Snyder estaria disposto a fazer no futuro (mas isso é papo para outro dia)…

E eu acho que em um mundo onde todo novo grande filme do Batman precisa ser carrancudo, sombrio, cada vez mais violento e com menos espaço para uma aventura familiar, revisitar Batman Eternamente parece um frescor. Não me entendam mal: eu sou o maior fã de Batman que vocês podem imaginar. O Cruzado Encapuzado definitivamente não é um cara engraçado, mas isso não significa que seus filmes precisem ser todos dramas carregados de visuais sóbrios e narrativas policiais. Há espaço para um equilíbrio, uma aventura entre Batman e Robin contra um de seus super vilões clássicos. Afinal, foi através do fascínio e da iconografia do Batman e Robin salvando Gotham City de supervilões coloridos que eu me apaixonei pelo personagem.
E acredito que já é hora de a franquia Batman se renovar, parar de viver à sombra de Nolan e voltar a conquistar os olhares mais jovens. Enquanto esse dia não chega, Batman Eternamente completa 30 anos e, com seus erros e acertos, soa hoje mais inusitado e único do que nunca.
Quais as suas expectativas para o futuro do personagem nos cinemas? Deixe a sua opinião nos comentários e não esqueça de seguir a Alternativa Nerd nas redes sociais para mais conteúdo nerd!










