No vasto universo das HQs nacionais, é raro encontrar uma obra que consiga equilibrar com maestria o absurdo, o emocional e o estético. Lapso, de Ren Nolasco e Márcio Moreira, publicado pela Companhia das Letras, é uma dessas raridades. Com uma narrativa que desafia as convenções do tempo e espaço, personagens cativantes e um estilo visual que beira o psicodélico, a graphic novel se destaca como uma das mais ousadas e inventivas publicações recentes do gênero.

Enredo: Uma estrela no céu e um caos intergaláctico
A história gira em torno de Verônica, uma bruxa desempregada que tenta alavancar sua carreira como vidente. Sem dinheiro para pagar o aluguel e pressionada pela possibilidade de voltar a morar com a mãe, ela decide investir em uma estratégia de marketing inusitada: comprar uma estrela e usá-la como propaganda nos céus da internet. A ideia, embora criativa, é recebida com ceticismo por sua amiga Cocota, que lembra que likes não pagam boletos.
A partir desse ponto, Lapso mergulha em uma espiral de eventos surreais. Um gato alienígena aparece, o tempo começa a se embaralhar, e Verônica é sugada para uma dimensão paralela onde realidade e sonho se misturam. Acompanhada por um alienígena mal disfarçado e por um gato preto que representa uma ameaça intergaláctica, ela precisa enfrentar os lapsos temporais e impedir que o caos destrua até os móveis da casa.
O enredo é uma verdadeira montanha-russa narrativa. A cada página, somos surpreendidos por reviravoltas que desafiam a lógica, mas que funcionam perfeitamente dentro da proposta da obra. A mistura de fantasia urbana com ficção científica e humor ácido cria uma atmosfera única, onde o leitor nunca sabe o que esperar — e isso é parte do charme.
Personagens: Carisma e complexidade
Verônica é uma protagonista que foge dos estereótipos. Ela não é uma heroína tradicional, tampouco uma anti-heroína. É uma mulher comum, com problemas reais, que tenta encontrar seu lugar em um mundo que parece conspirar contra ela. Sua vulnerabilidade, sarcasmo e determinação tornam-a extremamente humana e fácil de se identificar.
Cocota, sua amiga, funciona como uma voz da razão — ou pelo menos tenta. Com tiradas certeiras e uma visão mais pragmática da vida, ela equilibra o caos que Verônica provoca. Já Zig, o alienígena, é um personagem que mistura inocência com mistério, e seu papel na trama é essencial para o desenvolvimento dos eventos mais surreais.
O gato preto, que começa como um simples mascote, revela-se uma ameaça cósmica. Sua transformação é um dos pontos altos da narrativa, e sua presença constante adiciona uma camada de tensão e estranheza que mantém o leitor alerta.
Arte e estilo visual: Um delírio gráfico
Márcio Moreira entrega uma arte que é, no mínimo, hipnotizante. Os traços são fluidos, dinâmicos e muitas vezes caóticos — o que combina perfeitamente com o enredo. A paleta de cores é vibrante, com contrastes intensos que reforçam o clima de instabilidade temporal e emocional da história.
Os quadros muitas vezes fogem da estrutura tradicional, com composições que parecem colapsar sobre si mesmas, refletindo os lapsos de tempo vividos por Verônica. Há uma clara influência de mangás e quadrinhos alternativos, mas com uma identidade visual própria que torna Lapso imediatamente reconhecível.
Cada página é uma experiência sensorial. É impossível não se perder nos detalhes, nas expressões dos personagens, nos cenários que parecem saídos de um sonho febril. A arte não apenas acompanha a narrativa — ela a amplifica.
Originalidade e impacto: Um marco na fantasia brasileira
Lapso é uma obra que não se encaixa facilmente em categorias. É fantasia, é ficção científica, é comédia, é drama. E é, acima de tudo, brasileira. A forma como Ren Nolasco e Márcio Moreira incorporam elementos da cultura nacional — como o parcelamento da estrela em doze vezes — mostra que é possível fazer fantasia com identidade própria, sem recorrer a clichês importados.
O impacto da obra vai além da estética. Lapso é uma reflexão sobre escolhas, sobre o peso do tempo, sobre a busca por sentido em meio ao caos. É uma história de autodescoberta, contada com humor e sensibilidade, que convida o leitor a olhar para dentro de si enquanto se perde nas frestas do universo.
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Crítica/Review
Lapso
Lapso é uma obra que merece ser lida, relida e discutida. Uma HQ que desafia, encanta e deixa sua marca. Um verdadeiro lapso de genialidade no cenário dos quadrinhos nacionais.
PRÓS
- Enredo criativo e imprevisível
- Personagens carismáticos e bem desenvolvidos
- Arte visualmente deslumbrante e inovadora
- Mistura de gêneros que funciona
- Humor afiado e referências culturais brasileiras
CONTRAS
- Narrativa pode parecer confusa para leitores mais tradicionais
- Alguns trechos exigem releitura para plena compreensão
- Final aberto pode frustrar quem busca conclusões definitivas









