Quando a Editora JBC anunciou a publicação de PINO, de Takashi Murakami, muita gente ficou surpresa. Afinal, Murakami é mundialmente conhecido por sua presença no universo das artes plásticas, pela estética superflat e por colaborações com marcas e artistas pop — não exatamente por mangás. Mas é justamente essa intersecção entre arte contemporânea e narrativa gráfica que torna PINO uma obra tão singular.

O mangá, inspirado livremente em Pinóquio, não tenta ser uma releitura convencional. Murakami usa o conto clássico apenas como ponto de partida para explorar temas como identidade, solidão, criação e o próprio ato de existir. O resultado é uma obra que provoca, desconforta e, ao mesmo tempo, fascina.
A seguir, destrinchamos os principais elementos que fazem de PINO uma experiência tão única — e por que ele merece um lugar especial na estante de quem gosta de mangás fora da curva.
Enredo: uma jornada existencial em forma de fábula distorcida
A história acompanha Pino, um ser artificial criado em um mundo devastado e melancólico. Diferente do Pinóquio tradicional, que busca se tornar um “menino de verdade”, o Pino de Murakami tenta entender o que significa existir em um ambiente onde a humanidade parece ter perdido o rumo.
A narrativa é fragmentada, quase onírica. Murakami não entrega respostas fáceis — ele prefere sugerir, provocar e deixar lacunas para o leitor preencher. O mangá mistura ficção científica, fantasia e elementos filosóficos, criando uma atmosfera que lembra tanto distopias quanto sonhos febris.
O ritmo é lento, contemplativo, e isso pode estranhar quem espera uma aventura tradicional. Mas é justamente essa cadência que permite que a obra respire e que o leitor absorva cada camada simbólica.
Personagens: figuras estranhas, frágeis e profundamente simbólicas
Além de Pino, encontramos personagens que parecem saídos de instalações artísticas — criaturas híbridas, figuras deformadas, seres que transitam entre o grotesco e o adorável.
Murakami não trabalha com personagens “convencionais”. Cada figura funciona quase como um conceito visual, uma metáfora viva. Eles não são construídos para gerar empatia imediata, mas para provocar reflexão.
Pino, em particular, é um protagonista silencioso, quase passivo, mas carregado de expressividade. Sua jornada não é heroica, mas introspectiva. Ele observa, absorve e tenta compreender um mundo que não faz sentido — e é justamente isso que o torna tão humano.
Arte e estilo visual de Pino: Murakami em sua forma mais livre
Se existe um motivo incontestável para ler PINO, é a arte. Murakami leva ao mangá tudo aquilo que o consagrou nas galerias:
- linhas limpas e formas arredondadas, típicas do superflat
- contrastes fortes entre fofura e estranhamento
- composições que parecem quadros completos
- personagens que transitam entre o pop e o surreal
O mangá é visualmente hipnotizante. Cada página parece pensada como uma peça de exposição. Há quadros que poderiam facilmente estar em museus — e isso não é exagero.
A diagramação também foge do padrão. Murakami brinca com espaços vazios, com enquadramentos amplos e com a repetição de formas. É uma leitura que exige atenção, porque a arte não está apenas ilustrando a história: ela é a história.
Originalidade e impacto: um mangá que desafia expectativas
PINO não é um mangá para todos — e isso é um elogio. Ele não tenta agradar, não segue fórmulas e não se encaixa em gêneros tradicionais. É uma obra experimental, autoral e profundamente marcada pela visão de Murakami.
Seu impacto está justamente na quebra de expectativas. Para quem conhece Murakami apenas como artista plástico, é fascinante vê-lo explorar a narrativa sequencial. Para quem vem do mundo dos mangás, é uma oportunidade de experimentar algo completamente diferente do habitual.
É o tipo de obra que divide opiniões, mas que dificilmente deixa alguém indiferente.
A edição da JBC: qualidade à altura da proposta
A JBC fez um trabalho muito competente com PINO. A impressão valoriza o traço limpo e o contraste das páginas. O papel tem boa gramatura, evitando transparência, e a encadernação é firme, algo essencial para uma obra que depende tanto da experiência visual.
A tradução também merece elogios: ela mantém o tom contemplativo e estranho do original sem soar artificial. É uma edição que respeita a proposta artística da obra e entrega uma experiência de leitura de alto nível.
O review de PINO foi produzida com uma unidade da obra gentilmente cedida pela Editora JBC por meio do programa de parceiros.
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Crítica/Review
PINO
PINO é uma obra que desafia, encanta e desconcerta. Não é um mangá para leitura rápida — é para ser sentido, observado e interpretado. Uma experiência artística rara dentro do mercado editorial.
PRÓS
- Arte deslumbrante e única, fiel ao estilo de Murakami
- Narrativa profunda, simbólica e provocativa
- Edição da JBC muito bem produzida
- Personagens visualmente marcantes e conceituais
- Obra original, fora dos padrões do mercado de mangás
CONTRAS
- Ritmo lento pode afastar leitores acostumados com ação
- Narrativa fragmentada exige interpretação ativa
- Não é uma obra “acessível” para quem busca entretenimento leve
- Alguns simbolismos podem parecer excessivamente abstratos









