Afinal, o que significa filmar uma possessão? Tradicionalmente, em filmes como O Exorcista e na própria franquia Evil Dead, significa mostrar um corpo perdendo o controle sobre si mesmo através de gestos peculiares, alteração de voz e deformação física. O cineasta, Sébastien Vaniček parece interessado em outra possibilidade: filmar a possessão como um estado da própria linguagem de seu filme. Não apenas os personagens irão receber o demônio kandariano da vez, mas a câmera, a montagem, o espaço e, por consequência, o olhar do espectador também serão contaminados pelo mesmo mal.
A Morte do Demônio: Em Chamas – Crítica (Sem Spoilers)
As minhas cenas favoritas de A Morte do Demônio: Em Chamas não envolvem demônios. Envolvem um funeral e, depois, o jantar onde nossa protagonista Alice (Souheila Yacoub) tenta ocupar um lugar numa família da qual claramente nunca fez parte. Existe um humor desconfortável nesses momentos que me lembrou por que Evil Dead nunca foi apenas uma franquia de gore. O criador Sam Raimi entendia que o horror precisa de contraste. Antes de Ash Williams (Bruce Campbell) atravessar um demônio boca-suja com uma motosserra, alguém precisa trocar um olhar constrangido. Antes de a carnificina se transformar em um espetáculo de comédia física, alguém precisa fracassar de um jeito ridiculamente humano. É justamente esse princípio que Sébastien Vaniček recupera em Em Chamas. O sobrenatural só explode para valer quando aquela família já está emocionalmente quebrada. Antes da possessão, o filme insiste em pessoas incapazes de dividir a mesma mesa sem se machucar. Nisso, quando surgem os Deadites, nome dado aos possuídos no universo da franquia, eles não destroem aquelas relações como em Ascensão (2023); apenas encontram laços que já não conseguiam permanecer de pé sozinhos. De quebra, descobrem que a crueldade humana daquela família pode rivalizar com a deles.

Por isso que uma das imagens mais fortes do filme, para mim, não é uma morte gráfica e nojenta, mas um beijo igualmente nojento. Um beijo deveria ser um gesto de intimidade, de reconciliação, de reconhecimento do outro. Nesse filme, se transforma em uma das imagens mais grotescas da franquia. Não só porque é graficamente perturbador, mas porque inverte o significado do próprio gesto. Talvez seja essa a essência de Evil Dead desde 1981. O horror nunca esteve apenas na destruição do corpo, mas também na corrupção daquilo que deveria aproximar as pessoas. Um beijo que deixa de ser afeto para virar violência. E uma casa de família deixa de ser abrigo para virar uma armadilha. O grotesco, aqui, está longe de ser apenas um excesso de gore. Está no excesso de perversão simbólica. Uma imagem verdadeiramente perturbadora não nasce apenas do que ela mostra, mas do que ela profana e Em Chamas é um filme que tem muito a oferecer quando esse é o assunto.
Quando a possessão finalmente domina a narrativa, Vaniček leva esse princípio para a própria forma do filme e entrega sequências repletas de muita desorientação e caos. E essa sensação não me parece um efeito colateral da montagem; ela parece ser o objetivo da mise-en-scène. Nos filmes de Sam Raimi, a câmera enlouquecia, mas o espaço permanecia incrivelmente claro. Sempre sabíamos onde Ash estava, de onde vinha o perigo e para onde ele precisava correr. O caos era coreografado. Aqui, a organização espacial é outra. Os corredores da casa onde a ação se desenrola não são um mapa confiável. Os enquadramentos se fecham sobre os corpos, os cortes interrompem a ação antes que possamos organizá-la mentalmente e, principalmente, o sangue passa a ocupar o quadro como uma textura que engole a arquitetura. Há um plano-sequência próximo ao clímax que resume essa proposta formal. Em vez de existir para exibir mero virtuosismo técnico, ele produz o efeito contrário: prolonga o horror para ele deixar de ser um acontecimento e se tornar um ambiente. A câmera atravessa o caos sem oferecer ao espectador o conforto de um ponto de vista privilegiado. Não observamos a possessão de fora. Caminhamos através dela. Se Raimi filmava um mundo possuído numa velha cabana, Vaniček tenta filmar um olhar possuído.

Essa intenção ajuda a compreender as escolhas formais do filme. O próprio diretor disse que queria fazer um filme que machucasse, que deixasse o espectador fisicamente exausto. Essa exaustão não nasce apenas das chocantes cenas gráficas, mas da maneira como o filme administra nossa percepção. Há uma escolha clara de substituir a clareza pela vertigem e a observação pela experiência. É uma aposta arriscada, porque elimina parte da elegância espacial que sempre definiu Evil Dead, até mesmo nas retomadas recentes com o filme de 2013 e Ascensão de 2023. Ao mesmo tempo, encontra uma forma nova de representar algo que a franquia já mostrava há mais de quarenta anos.
Existe, porém, um segundo filme acontecendo ao mesmo tempo. Enquanto Vaniček tenta reinventar a experiência da possessão aplicando a forma de seu filme, A Morte do Demônio: Em Chamas demonstra uma preocupação inédita em organizar sua própria mitologia. As referências aos diferentes livros dos mortos, as conexões com os filmes anteriores, os acenos a série Ash vs. Evil Dead e até a existência de cena pós-créditos que organizam o futuro, revelam uma ansiedade que nunca fez parte da identidade da franquia. Durante décadas, Evil Dead sobreviveu justamente porque parecia indiferente à ideia de uma única continuidade absoluta. Cada filme encontrava um novo jeito de brincar com o Necronomicon sem precisar justificar cada detalhe da cronologia. Em Chamas, em alguns momentos, parece sentir a necessidade de amarrar tudo, como se também precisasse funcionar como peça de um universo compartilhado ao estilo MCU. É curioso porque essa preocupação narrativa caminha exatamente na direção oposta da linguagem. A forma dissolve certezas; enquanto a lore tenta reconstruí-las. A câmera deseja o colapso; o roteiro procura organizar a memória da franquia. São duas forças puxando Em Chamas para direções diferentes.

Entretanto, talvez seja essa contradição que torne A Morte do Demônio: Em Chamas tão interessante para mim. Não é um filme perfeito, mas é interessante observar como ele é esse filme dividido entre duas forças. De um lado, um cineasta francês tentando levar para dentro da série um horror mais sensorial, mais físico, mais interessado em contaminar o olhar do espectador do que simplesmente em exibir violência. De outro, uma franquia que finalmente começa a olhar para si mesma como um grande universo a ser preservado e expandido. Quando essas duas ambições entram em conflito, o filme vacila. Quando a preocupação com a mitologia toma conta da narrativa, sinto que ele perde um pouco da estranheza que havia conquistado. Mas quando esquece tudo isso, quando se concentra apenas numa família problemática e seu luto, num beijo transformado em profanação ou numa câmera que atravessa o inferno sem nunca nos devolver um chão firme, Em Chamas encontra sua própria marca.

O mérito não está em repetir a fórmula de uma franquia histórica, mas em encontrar novas formas de fazer o horror contaminar a experiência de quem assiste. Se existe um caminho para Evil Dead continuar vivo depois de mais de quarenta anos, talvez ele esteja menos em repetir seus símbolos e mais em permitir que cada cineasta encontre uma nova maneira de ser possuído por eles.
Crítica/Review
A Morte do Demônio: Em Chamas
Um Evil Dead dividido entre reinventar sua linguagem e organizar seu passado.
PRÓS
- Reinventa a possessão ao contaminar a própria linguagem do filme, e não apenas seus personagens.
- Recupera o equilíbrio entre horror, humor desconfortável e drama humano que sempre definiu Evil Dead.
- Transforma o caos em experiência sensorial por meio de uma mise-en-scène desorientadora e física.
CONTRAS
- A preocupação em organizar a mitologia da franquia enfraquece parte de sua estranheza.
- O desejo de expandir a lore entra em conflito com a liberdade formal que torna o filme mais interessante.
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