Hideo Kojima é com certeza um dos maiores nomes da indústria dos games. Sendo muito conhecido pela franquia Metal Gear e pelo teaser jogável de Silent Hill, P.T, se tornou comum que as suas aparições e anúncios causem muitas expectativas nas pessoas. Com a sua saída da Konami e início de sua própria empresa, Kojima Productions, Hideo trouxe seu primeiro projeto independente: Death Stranding.
A criatividade de Kojima para construir roteiros
Death Stranding possui uma das melhores introduções que já vi. Sem diálogos expositivos, Kojima mostra a sua maestria em construir roteiros e fornece as informações iniciais que precisamos. Com Sam andando em sua moto, vemos que o mundo ao seu redor está desértico. Já com os pássaros caindo e o protagonista se cobrindo e procurando um esconderijo, após o início da chuva, observamos que existe algo de errado com a água que cai do céu.
Após o personagem se esconder em uma caverna, podemos ver que neste mundo existem criaturas invisíveis que deixam marcas de mão por onde passam. Com a apresentação da personagem Fragile e o fim de alguns diálogos, o jogador assume o controle de Sam, devendo recuperar as caixas que caíram e chegar no centro urbano mais próximo.
Mais uma vez, a introdução de como o jogo funciona é perfeita. Ao simplesmente andar um pouco, vemos que Sam se parece muito com uma pessoa real, logo, tentar carregar muito peso ou correr sobre pedras farão ele cair.
Conforme característico nas obras de Kojima, a história do jogo é contada través de muitas cenas recheadas de diálogos. Para não dar spoilers e estragar a experiência da descoberta dos mistérios que cercam esse universo, resumiremos apenas o que é essencial para o contexto da análise.
Um mundo enigmático e perigoso
O mundo está severamente prejudicado por um fenômeno chamado de chuva temporal. Essa chuva causa uma distorção de tempo em tudo que ela toca, fazendo com que envelheça rapidamente.
Como se não bastasse isso, a morte tem um peso ainda mais alto nesse mundo, pois caso o corpo não seja queimado rapidamente, ocorre um evento chamado de obliteração, no qual uma grande explosão consome o local onde o morto está.
Por conta desses fatores, as pessoas são obrigadas a viverem em cidades e abrigos subterrâneos. Como não é possível sobreviver do lado de fora, a comunicação entre as cidades foi perdida. Neste contexto, alguns indivíduos trabalham como entregadores, levando pacotes contendo os mais variados objetos entre um local e outro. O nosso protagonista é um desses trabalhadores.
Somado ao vasto universo criado, Death Stranding possui diversos personagens extremamente carismáticos, todos com personalidade própria, além de pensamentos, desejos e objetivos. Os diversos mistérios introduzidos na história são revelados gradualmente, sempre deixando o jogador ainda mais curioso. Finalmente, todos esses conceitos criados por Kojima não ficam apenas no campo teórico, mas influenciam de forma prática no jogo.
Os personagens são ainda mais enriquecidos pelas atuações de um elenco de peso como Norman Reedus, Lindsay Wagner, Mads Mikkelsen e até mesmo Guillermo del Toro.
Reconstruindo a América
O objetivo aceito por Sam, é levar um objeto até cada um dos pontos habitados no país e restaurar a comunicação entre eles. Para isso, devera percorrer todo o mapa dos Estados Unidos e realizar diversas entregas. Esse grande empreendimento é realizado graças à Bridges, uma grande empresa que possui o objetivo de reconectar o país. Basicamente, a história avança conforme o jogador cumpre os pedidos de levar um item do ponto A até o ponto B, mas isso é muito mais complicado do que parece.
Primeiramente, a chuva temporal consumirá a vitalidade de qualquer item que Sam esteja carregando ou veiculo que esteja dirigindo. Deste modo, é necessário planejamento e cuidado para não perder os objetos. Quando a tempestade está muito forte, Sam deve procurar um local para se abrigar.
Além da perigosa chuva, espalhados pelo mapa existem diversos inimigos que querem roubar as nossas mercadorias, chamados de MULAS. Death Stranding permite que o jogador mate eles, no entanto, deverá arcar com as consequências da obliteração. Caso não leve um corpo morto para o incinerador, uma grande explosão consumira o local permanentemente, deixando um enorme buraco no mapa.
Apesar de poder ser morto, Sam é um repatriado. Isso quer dizer que quando morre, ele consegue guiar sua alma de volta para o corpo e retornar a viver. No entanto, se formos consumidos por uma EP, deixaremos uma grande cratera no local. Deste modo, o jogo continua após a nossa morte, mas com mudanças significativas e permanentes.
Durante os combates, o jogador pode utilizar diversos tipos de armas, comuns em jogos de tiro. Algumas delas possuem a função de apenas desacordar ou neutralizar o inimigo, sendo preferíveis em confrontos contra humanos.
Desempenho absurdo
Para ajudar durante a trajetória, em alguns locais existem bases da Bridges que servem como descanso para o jogador. No local, Sam pode se recuperar e reabastecer. O traje de Sam é planejado para ajudar a sobreviver nesse mundo hostil. Além de cobrir todo o seu corpo para proteger da chuva, existe um compartimento semelhante a uma capsula que abriga um bebê vivo. Nessa história, os bebês conseguem sentir a presença das EPs.
As EPs são as criaturas sobrenaturais e os inimigos mais mortais do jogo. Se tratam dos seres invisíveis responsáveis por causar obliterações sempre que entram em contato com um humano. Sempre que há uma entidade próxima, o bebê do traje de Sam avisa com a ajuda do scanner Odradek, apontando para o lado onde a entidade está. Caso não se afaste rapidamente, os seres começaram a surgir e tentaram levar o jogador para um líquido negro.
É assustador como o jogo consegue reproduzir o mundo das EPS em tempo real. Não importa se esteja na água, grama ou montanha, caso as EPS apareçam efetivamente, todo o local é inundado pelo líquido escuro. Com a inundação, diversos prédios, carros e casas começam a submergir. Essas construções e veículos não são nada menos do que tudo que foi consumido em obliterações anteriores.
Destaco, novamente, que tudo isso acontece em tempo real, sem pausa para carregamento e sem quedas bruscas de quadros. Para sair do local e voltar a normalidade, o jogador devera derrotar a EP que o arrastou para o local. Se para derrotar os humanos, o jogador pode utilizar armas de fogo comum, contra as EPS a situação é um pouco diferente, pois a única forma de derrotá-las é por armas especiais que utilizam o sangue de SAM como munição.
Um modo on-line diferenciado
Com o que foi exposto, acredito que deu para perceber que entregar uma encomenda não é uma tarefa simples. Além de todas as dificuldades impostas pelas criaturas sobrenaturais e pela chuva temporal, também enfrentamos dificuldades no terreno, pois é recheado de montanhas, grandes rios e florestas.
Para ajudar na jornada, Death Stranding possui diversas ferramentas que podem ser desbloqueadas e construídas. Neste sentido, existe uma grande liberdade para que o jogador explore as possibilidades e crie os seus próprios métodos de vencer as barreiras.
Para exemplificar, é possível usar escadas para subir em locais mais altos e como pontes para atravessar um pequeno rio; podemos criar tirolesas para facilitar a travessia em locais que deveremos voltar mais tarde; cordas para descer de locais altos; pontes grandes para cobrir fendas e rios; abrigos para se proteger da chuva temporal e mais uma infinidade de opções.
Para deixar tudo ainda mais divertido, o sistema on-line de Death Stranding funciona como um mundo compartilhado. Os itens deixados no mundo, como escadas, cordas e veículos, podem ser encontrados e usados por outras pessoas. Além disso, é possível encontrar mercadorias perdidas ou derrubadas por outros jogadores e realizar a entrega delas.
A cooperação não termina por aí, pois os jogadores podem construir juntos estruturas que requerem muitos recursos, como pontes e abrigos. Somado a tudo isso, ainda existem armários compartilhados, onde as pessoas podem doar e pedir itens, armas e recursos.
Para concluir o modo on-line, existe um sistema de likes no qual o jogador curte as construções, contribuições e mensagens deixadas por outros jogadores. Essa função funciona de forma semelhante ao que vemos nos jogos souls.
Death Stranding é uma obra-prima
Graficamente, Death Stranding é uma das obras mais bonitas que já vi, sendo impressionante ver algo tão grandioso funcionando em um PS4 base. Somado isso, a trilha sonora não fica para trás, pois possui diversas faixas incríveis compostas por bandas como Major Lazer e Bring me The Horizon. Devo destacar que a Low Roar, uma banda indie canadense, consegue roubar muito a cena, tendo as músicas que mais me agradaram no jogo.
Este não é só um dos melhores jogos que tive o prazer de jogar, como uma das maiores experiências que já tive. A incrível história que aborda diversos temas importantes fazem com que o título possua ainda mais relevância. Por fim, tudo o que foi dito e exemplificado é apenas uma parte de tudo que o jogo tem a oferecer.
São pouquíssimas obras que, por mais que eu tente, não consigo pensar em nada que poderia ser diferente. Death Stranding é uma delas e não posso chamá-la de outra coisa, além de obra-prima!
Prós:
- Construção de universo incrível, possuindo diversos conceitos envolvendo vida e morte;
- Roteiro muito bem escrito, com muitos mistérios e reviravoltas;
- Personagens carismáticos com atuações de um elenco de peso;
- Gráficos lindos e superiores a maioria dos jogos recentes;
- Trilha sonora afiada, com diversas faixas marcantes;
- Jogabilidade totalmente diferenciada e inovadora;
- Dublado em português;
- Liberdade para o jogador planejar como vai superar os obstáculos para chegar ao local desejado.
Contras:
- As longas cenas podem desanimar algumas pessoas.
Nota final: 10/10
Death Stranding está disponível para Playstation 4, Playstation 5 e PC.
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