Superman (2025) e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos ocupam um espaço interessante, não apenas pelo peso que carregam dentro de suas respectivas editoras, por terem sido obras definidoras do gênero de super-herói quando este ainda não dominava o espaço audiovisual, ou mesmo pelo curioso fato de serem lançados em datas próximas. O que os torna realmente relevantes é que, mesmo com suas imperfeições, ambos representam um passo adiante — talvez até um abandono completo — do cinismo que marcou o gênero de super-herói no cinema e, em parte, a fantasia moderna.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, em especial, abraça o exagero e a excentricidade estética de sua mídia original, tornando-os verossímeis. Matt Shakman acredita e confere essa crença naquele mundo onde os avanços de Reed Richards (Pedro Pascal) inspiraram um esforço coletivo; um mundo em que não apenas o sonho americano prosperou e se tornou realidade, mas onde toda a humanidade vive um progresso prematuro em plena década de 1960.
O exagero científico daquela tecnologia, os planos mirabolantes do grupo, o visual de seu vilão e a forma como o humor é trabalhado se aproximam muito mais do trabalho de Sam Raimi em Homem-Aranha do que do humor autoconsciente e metalinguístico dos Vingadores. O grande mérito do filme está em tornar aqueles personagens críveis dentro de sua proposta, ainda que o mundo que habitam — seus desafios e poderes — pertença a uma fantasia deliberadamente exagerada, cafona e deliciosamente retrô.

Matt Shakman se debruça primeiramente em Jack Kirby, o lendário quadrinista e um dos criadores do Quarteto Fantástico, ao conceber todo o potencial criativo de seu longa. Elementos “Kirbyanos” já haviam sido retratados em outras ocasiões no cinema — curiosamente por James Gunn, em Guardiões da Galáxia Vol. 2 e toda a sua concepção estética —, mas aqui existe um mergulho um pouco mais profundo.
Existem planos e enquadramentos muito interessantes para retratar Galactus e sua escala grandiosa se projetando sobre Manhattan; a forma como a câmera passeia pela nave colossal, repleta de maquinários impossíveis e intermináveis; o uso de paletas intensas em determinados momentos; e até o modo como Shakman encontra soluções para emular o “Kirby Krackle” nas distorções de lente e nos efeitos de aberração cromática que atravessam os enquadramentos — especialmente ao mostrar as manifestações de poder da Mulher-Invisível (Vanessa Kirby). Isso se destaca também em uma deliciosa sequência de exploração e fuga cósmica da Surfista Prateada (Julia Garner) em um buraco negro, onde a personagem se distorce através do plano ao ser sugada por uma manifestação cósmica.

Essas homenagens estão presentes, mas, principalmente, a essência do que define uma história do Quarteto Fantástico — sobretudo nos trabalhos de Kirby — é respeitada. Apesar das aventuras cósmicas e da ameaça iminente, a narrativa sempre retorna ao terreno humano, aos debates sobre moralidade e destino.
Quando a trama se volta para a iminência da chegada de um bebê na vida de um casal e, logo depois, para uma crise planetária, toda a aventura funciona como um paralelo para o medo do desconhecido — desta vez representado na figura do filho, no potencial para o bem e o mal do futuro dessa criança. A melhor execução disso está na belíssima e tensa sequência do parto no espaço, onde Vanessa Kirby e Pedro Pascal atuam com uma intensidade palpável dentro de uma cena carregada de simbolismo.

É interessante notar como existem poucos blocos de ação em Primeiros Passos. O foco está totalmente na dinâmica familiar. Shakman, assim como em Wandavision, parece muito mais interessado no cotidiano e em como os superpoderes funcionam como extensão dos conflitos internos desses personagens.
Nesse ponto, o elenco é outra grande força: Pascal, Kirby, Joseph Quinn e Ebbon Moss-Bachrach têm, provavelmente, a melhor química de grupo já vista no MCU, o que torna a família crível, mesmo quando nem todos os personagens são explorados com a mesma profundidade. Entretanto, esse interesse pelo familiar às vezes enfrenta tropeços, tornando a aventura excessivamente fechada em si mesma. O próprio clímax, embora também intimista, funciona muito mais na lógica do drama e da tensão do que em uma ação grandiosa e elaborada. Em algumas partes isso funciona, em outras nem tanto.
Por outro lado, o delicioso mundo retrô concebido no figurino e cenário que Shakman enquadra nem sempre acompanha a criatividade dele ao compor planos ou mover a câmera, o que mina um pouco do potencial daquele universo em ser ainda mais rico e dinâmico. Dentro do cinema do MCU, a ousadia estética até existe, mas só até um certo ponto.

Mas, apesar dos tropeços, seja com Superman ou agora com Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, vemos um caminho um pouco mais brilhante para um gênero que parecia enfraquecido. Isolar este projeto da linha do tempo do MCU — embora, inevitavelmente, uma cena pós-créditos prometa conexões — foi um respiro para que um trabalho estético mais criativo fosse realizado mesmo com suas limitações.
A fórmula de uma história de super-herói continua imutável, mas o interesse em se desafiar um pouco mais nas escolhas criativas, em como encaixar o humor na narrativa, em como ser reverente às raízes quadrinescas e em olhar com carinho para o visual, tornam este filme bastante especial e alinhado com os melhores exemplos do gênero de super-herói no cinema.
Crítica/Review
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos se afasta do cinismo e encontra força ao abraçar o exagero, o vibrante legado de Jack Kirby, tornando-o verossímil em um filme tematicamente coeso.
PRÓS
- Abraça a excentricidade estética original e torna-a verossímil no cinema.
- Foca na dinâmica familiar, explorando conflitos internos além da ação.
- Apresenta homenagens visuais criativas ao estilo Kirby com planos e efeitos técnicos marcantes.
CONTRAS
- O ritmo autocontido e intimista pode deixar a aventura por vezes monótona e menos empolgante.
- direção nem sempre aproveita todo o potencial visual do mundo retrô, limitando a riqueza das cenas.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos OFERTAS
Coletamos os melhores preços das nossas lojas parceiras

Ingresso.com









