Apesar de muitas produções da Marvel/Disney desde Vingadores: Ultimato prometerem propostas estéticas distintas, como Shang-Chi, Cavaleiro da Lua, Miss Marvel e Eternos, entre outras, poucas conseguiram efetivamente se descolar do modelo dominante do estúdio. Poderia citar Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, do ano passado, e agora Magnum (ou… Wonder Man), que radicaliza ainda mais a possibilidade de uma obra inserida nesse universo compartilhado se afastar de seus padrões formais e narrativos.
Magnum (Wonder Man) – Crítica (Sem Spoilers)
Magnum é uma série curiosa: com um marketing discreto e disponibilizada integralmente no catálogo do Disney+, seu reconhecimento foi construído sobretudo pelo boca a boca crítico, que gradualmente despertou interesse ao seu redor. Agora, de fato, posso afirmar que a obra se revela como um olhar da Marvel voltado para dentro de si mesma. Ao longo de seus oito episódios, a narrativa praticamente abdica da lógica de “salvar o mundo” e se concentra, em essência, em temas como crise de identidade, fama e performance com uma caráter bastante autoconsciente de seu gênero.

A partir dessa proposta autoconsciente, a série criada por Destin Daniel Cretton e Andrew Guest desloca seu foco para a construção de personagens, abrindo mão da lógica de grandes eventos para se concentrar em conflitos internos. A narrativa se ancora especialmente na relação entre Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II) e o infame Trevor Slattery, personagem resgatado de Homem de Ferro 3 e novamente interpretado por Ben Kingsley. A parceria entre os dois é telegrafada já na cena inicial e se estabelece como o principal motor dramático da série, servindo de base para os episódios discutirem temas como crise de identidade, fama e performance em um mundo onde a existência de super-heróis é um dado cotidiano.
A direção dos episódios reforça esse viés intimista ao adotar uma mise-en-scène econômica, inteiramente orientada pela atuação e é nesse ponto que Yahya Abdul-Mateen II se afirma como a principal força dramática da série. O uso recorrente de planos e contraplanos valoriza o embate emocional entre os personagens, enquanto os close-ups, seja nas mãos de Simon, seja em seus olhos, assumem papel expressivo nos momentos em que os superpoderes inevitavelmente emergem. Há uma escolha clara por enquadramentos que reduzem o espetáculo e aproximam o olhar do espectador dessas manifestações, tratando os poderes como uma extensão sensorial das crises de ansiedade do protagonista. Esteticamente, essa abordagem se mostra coesa e narrativamente funcional.

O pontapé inicial da jornada de nosso protagonista é, sem dúvida, uma proposta bastante inspirada. Em vez de acompanhar a descoberta de uma persona heroica, a série se organiza em torno do desejo de Simon de realizar o sonho de estrelar um remake de Magnum, um filme de super-herói de sua infância. Essa virada narrativa culmina em uma passagem especialmente interessante envolvendo o diretor fictício Von Kovak, interpretado por Zlatko Burić, cuja reflexão sobre o gênero reposiciona o cinema de super-heróis como um terreno potencialmente fértil, comparando seu projeto vindouro a A Mosca, de David Cronenberg. O paralelo não surge só como provocação gratuita, mas como comentário sobre a possibilidade de um cinema de gênero mais autoral e corporal. Algo que a própria Marvel parece um tanto distante e, aqui, os realizadores parecem conscientes disso.
Nesse caldeirão de discussões, a série abraça de forma consciente a metalinguagem ao explorar os bastidores de Hollywood. O roteiro evidencia como filmes de super-heróis operam como moedas de prestígio e alavancas de carreira, exemplificado pela cena em que Simon recebe propostas da Netflix para protagonizar um projeto logo após seu anúncio como Magnum, ao mesmo tempo em que reflete sobre o descarte sistemático de atores cujas trajetórias são marcadas por traumas. É nesse ponto que Trevor Slattery ganha nova dimensão. Se sua reviravolta em Homem de Ferro 3 partia de uma ideia interessante, mas mal executada, aqui o personagem é ressignificado de maneira mais consistente, funcionando como contraponto dramático e simbólico a Simon. Embora preserve seu potencial cômico, talvez mais eficaz aqui do que nunca, o personagem é reposicionado em uma chave mais intimista e dramática. Kingsley incorpora um cansaço à sua atuação, fazendo do desgaste emocional o centro do papel dessa vez.

As jornadas de ambos se complementam, e a química extraída de cena sustenta boa parte dos episódios até a interrupção no quarto capítulo, Doorman. Nesse episódio, a série radicaliza seu comentário metalinguístico ao adotar o preto e branco e deslocar o foco narrativo para DeMarr Davis, um porteiro de bar com superpoderes, também um homem negro, cuja habilidade o conduz a uma ascensão meteórica na indústria, seguida por um descarte igualmente rápido e brutal após um acidente. A escolha formal dialoga diretamente com o motor da série, reforçando a discussão sobre a natureza cíclica e descartável desse sistema hollywoodiano.
Sem dúvida, nesses momentos, o comentário metalinguístico se revela a maior força de Magnum. Ainda que adotando uma abordagem econômica e direta, a série consegue dar espaço para que suas ideias centrais se desenvolvam de maneira orgânica, agregando densidade temática ao conjunto sem perder o foco nos personagens.

Embora o intimismo e o foco nas jornadas individuais se mantenha até os episódios finais, a dimensão satírica vai sendo gradualmente atenuada em favor da resolução da amizade entre Simon e Trevor. O potencial de explorar com maior profundidade o lançamento de Magnum, a nova posição de Simon na indústria e os comentários decorrentes dessa ascensão acaba ficando parcialmente em segundo plano, cedendo espaço a conflitos mais convencionais do melodrama. Ainda assim, a série nunca trai sua própria natureza: o clímax evita grandes combates heroicos ou a introdução de vilões mirabolantes e se centra nos personagens e suas relacionamentos.

Ao fim, independente de deslizes, Magnum se afirma como esse comentário sobre super-heróis e retrato de sujeitos tentando existir dentro de um sistema que exige performance constante. Simon, um homem negro, crítico, consciente de sua imagem e de seu lugar na indústria, mas atravessado pela ansiedade e pelo medo de destoar, a série encontra na metáfora dos superpoderes uma forma sensível de externalizar esses conflitos. Uma jornada que só se completa ao lado de Trevor Slattery, esse personagem marcado pelo vício e pelo desgaste, que carrega o peso de ter sido transformado no rosto de um terrorista internacional fabricado por um bilionário americano. São dois corpos moldados e descartados por um mesmo sistema, que se reconhecem e se sustentam mutuamente.
Mesmo sem grandes explosões dramáticas ou performances excessivas, a série constrói essa trajetória com honestidade e consistência, recusando-se a abandonar seus personagens para atender aos vícios do gênero. Em um momento em que o cinema de super-heróis parece cada vez mais refém de algoritmos, acenos para pedidos da internet e fórmulas recicladas como vemos em Deadpool e Wolverine e no vindouro Vingadores: Doutor Destino, Magnum se destaca justamente por sua dimensão humana e é aí que reside seu maior valor para mim.
PS: Embora conclua bem suas ideias, o final soa mais como um gancho para uma nova temporada do que como o encerramento de uma minissérie. Resta torcer pelo que vem a seguir, por mim, que venha mais Magnum!
Crítica/Review
Magnum
Magnum usa o cinema de super-heróis para falar menos de poderes e mais sobre pessoas tentando existir dentro da indústria.
PRÓS
- Magnum se destaca dentro do universo Marvel por adotar uma proposta estética e narrativa mais autoconsciente, afastando-se da lógica tradicional de grandes eventos para priorizar conflitos internos e construção de personagens.
- A direção intimista, apoiada em uma mise-en-scène econômica e em performances fortes, especialmente a de Yahya Abdul-Mateen II, transforma os superpoderes em extensão sensorial das crises do protagonista.
- O comentário metalinguístico sobre Hollywood e o sistema de produção de super-heróis confere à série densidade temática, permitindo que ela construa uma jornada humana honesta sem se render aos vícios mais padronizados do gênero.
CONTRAS
- A dimensão satírica perde força nos episódios finais, quando o potencial de explorar o impacto do lançamento de Magnum e a nova posição de Simon na indústria acaba ficando em segundo plano.
- A série opta por resoluções mais convencionais e não se aprofunda dramaticamente tanto quanto poderia, o que limita o alcance de sua proposta mais ambiciosa.










