Stranger Things 4 – Crítica

1 mês atrás
644

Fora das telas da Netflix desde 2019, uma das séries mais populares da atualidade, senão a mais popular do streaming, chega a sua quarta temporada. Anunciada como a penúltima e a mais ambiciosa de todas as temporadas, Stranger Things 4 chega ao seu fim. Os criadores Matt Duffer e Ross Duffer tinham uma difícil missão em mãos, superar as expectativas e entregar uma evolução natural das outras temporadas. Um feito que em partes, eles entregam com louvor. Stranger Things 4 é ambiciosa, grandiosa e épica. Isso se reflete na história que lida com consequências muito maiores, o tom mais maduro, a trilha sonora a serviço da história e como pano de fundo de sequências memoráveis, construção de tensão e o clímax estonteante e épico, um dos maiores já entregues em um seriado de tevê.


É notável a intenção dos Irmãos Duffer em tornarem sua série que antes surfava no melhor espírito Spielberg, em algo de proporções maiores e mais ousadas (dentro do possível). Isso se reflete na duração dos episódios, principalmente no último que atinge 2 hrs 30 min. A intenção se torna um mérito que se reflete no design de produção e principalmente no trabalho de maquiagem do vilão da temporada, Vecna (interpretado por Jamie Campbell Bower). A direção dos episódios também seguem esse mérito, extraindo o melhor do seu elenco juvenil e do elenco adulto e entregando as cenas que alteram entre o horror, o sensível e o épico. A maioria dos episódios foram dirigidos pelos irmãos Duffer que mantêm o bom trabalho, mas destaques também se reservam para outros nomes como Nimród Antal e Shawn Levy (que dirige um dos episódios mais memoráveis da temporada, “Querido Billy”).

A quarta temporada ao mesmo tempo que busca ousar ainda se apoia em muitas referências, a mais notável de todas é A Hora do Pesadelo. Prestando tributos na forma do vilão Vecna uma óbvio inspiração vinda do Freddy Krueger e nas cenas em que ele persegue e mata suas vítimas, principalmente no final do primeiro episódio. Essas referências só melhoram com a presença de Robert Englund (O eterno Freddy Krueger) fazendo uma ponta de enorme importância para a história do vilão. Também há outras referências de clássicos como Carrie de Brian De Palma e Exterminador do Futuro 2. Todas essas inspirações se equilibram bem com o roteiro que já mencionado antes, busca sempre ser maior. Porém, ele comete alguns tropeços. 

O roteiro também escrito pelos Irmãos Duffer acaba escorregando em clichês, saídas fáceis e principalmente situações que apostam muito no seguro algo que não combina nenhum pouco com a ousadia proposta. Os primeiros problemas aparecem nas motivações do vilão Vecna que embora tenha uma jornada definida e seja ameaçador, é o clichê do vilão que é puro mal e quer destruir o planeta terra. Outros problemas aparecem nos núcleos da série divididos durante os longos episódios. O núcleo da Onze interpretada por Millie Bobby-Brown é extremamente desinteressante servindo com o único propósito de apresentar as motivações do vilão Vecna, mas até atingir isso acaba comprometendo bastante o ritmo da série. A mesma coisa acontece com o núcleo de Hopper interpretado por David Harbor que até começa interessante e tem uma crescente que empolga, mas se perde no final com as intermináveis facilitações narrativas e clichês atrapalhando um pouco do clímax épico do último episódio. Por fim, o tal falado clímax que mesmo que atinja seus picos de épico também enfrenta alguns pequenos deslizes no roteiro. O próprio embate entre Onze e Vecna peca por falta de criatividade e o principal de tudo, falta um roteiro nesse confronto tudo o que vemos são diálogos expositivos jogados em decisões preguiçosas do ponto de vista de ação. As consequências finais acabam seguindo o caminho do previsível  e do seguro, mesmo o terremoto de proporções apocalípticas, não causam qualquer dano a família dos protagonistas tornando a única consequência real de tudo que enfrentaram ser o coma de Max (Sadie Sink).


O elenco continua bom. Millie Bobby Brown como Onze tem um início muito promissor nos primeiros episódios que empaca apenas na promessa, não entregando nada de muito novo em questão de interpretação, mas sustentando o bom trabalho visto em temporadas anteriores. Finn Wolfhard como Mike não tem muito o que fazer, no entanto, sua química continua funcionando com os demais personagens. Noah Schnapp como Will tem um conflito muito interessante só que não chega em lugar algum, tornando-o ao lado de Mike, os personagens mais fracos da temporada inteira. Os destaques se fazem mesmo presentes em Joe Keery como Steve, Gaten Matarazzo como Dustin, Natalia Dyer como Nancy, Sadie Sink como Max e Priah Ferguson como Érica que ganha um merecido destaque. Uma nova e ótima adição ao elenco é o personagem Eddie interpretado por Joseph Quinn que também uma química excelente com o núcleo de Max. David Harbour como Jim Hopper continua o brucutu de sempre, com camadas a mais e sua química com Winona Ryder como Joyce ainda é um acerto.  Jamie Campbell Bower como Vecna funciona, sua interpretação entrega a ameaça que o personagem necessita e é ótimo para Stranger Things finalmente ter um vilão com rosto (trocadilhos com Demogorgons á parte) e presença.


Mesmo com pequenos deslizes, a temporada está longe de se perder. Os acertos se tornam muito maiores que qualquer erro. Mostrando o controle que os Irmãos Duffer tem sobre a série mais popular da atualidade. Ambiciosa, madura e empolgante é assim que Stranger Things 4 se define. Uma temporada que eleva o tom das anteriores, define novos rumos e conserta erros ao mesmo tempo que comete novos erros e mesmo assim, entrega alguns dos momentos mais memoráveis já vistos na tevê. Um mérito para poucos. Resta apenas escutar Running up that Hill de novo e de novo durante a longa espera pela próxima temporada….



Nota: 8,5/10