A Vegetariana de autoria de Han Kang, ganhador de prêmios gigantes da literatura como o Nobel de Literatura e o Man Booker International Prize. É uma obra deliciosamente perturbadora e instigante.
À primeira vista, um livro pequeno de capa preta com desenho de um pulmão florido em vermelho e fino, não parece prometer muitas coisas. Mas como a Editora Todavia gosta de trazer o velho ditado: “Não julgue um livro pela capa”, exatamente o que acontece em A Vegetariana.
“Foi na madrugada seguinte que vi pela primeira vez o meu rosto na poça de sangue do celeiro.”
Como disse Ian McEwan, escritor britânico: “Um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece seu grande sucesso”. Afinal, o que um livro que fala sobre uma mulher decide parar de comer alimentos de origem animal tem tanto a oferecer?
A partir deste ponto, siga por sua própria conta e risco
Alerta de spoiler, risco de gatilhos e assuntos +18
Quando falamos de obras coreanas, logo lembramos de doramas com seu ar romântico ou livros que retratam assuntos de reflexão que ficam por dias martelando em sua mente, mas de uma maneira suave.
Porém, Kang conseguiu trazer em 171 páginas, um delirante e até mesmo apaixonante livro que consegue abordar temas como: loucura, erotismo em outros tipos de graus, a parte mais pútrida da humanidade, violência de vários tipos, abandono, misoginia e relações familiares conturbadas da maneira mais perturbadora possível.
O livro passa em três atos: “A Vegetariana”, “A Mancha Mongólica” e “Árvores em chamas”; cada um dos atos, mostra o caso da Yeonghye em três visões diferentes, isso tudo a partir do verso do poeta modernista coreano Yi Sáng: “Eu acredito que os humanos deveriam ser plantas.”
O primeiro ato acontece através do olhar do marido de Yeonghye, que acaba estranhando a mudança repentina do comportamento de sua esposa. Aquela mulher que nunca foi muito alguma coisa, causa uma reviravolta em sua rotina e dos seus entes ao parar de consumir carne e produtos de origem vegetal, refletindo até mesmo como era vista perante a sociedade.
Parar com tudo de uma vez só, jogando os alimentos fora durante a madrugada e tomando decisões abruptas devido a um sonho sufocante, não parecia de seu feitio, mas lá estava ela. Yeonghye havia perdido a sanidade?
Após diversos tópicos sensíveis, sonhos intensos e sufocantes, uma ação precipitada, o ato dois começa e com ele o erotismo que é rotulado como uma arte por baixo de desejos vis de seu cunhado.
Até onde uma pessoa iria para realizar um sonho erótico que beira um fetiche quase doentio na irmã de sua esposa? Piorado devido uma mancha mongólica, que bebês e crianças normalmente possuem, em uma adulta que é considerada como mentalmente instável por sua família e profissionais da saúde.
E a última parte que chega ainda no meio do segundo ato, onde, o oxigênio parece sumir de seus pulmões. O terceiro e último ato se passa pelo olhar humanizado da irmã da protagonista, que traz alguns episódios do passado traumático de ambas mulheres na família.
O título faz jus pelo que a família e a sociedade rotula a protagonista, em nenhum momento conseguimos de fato entender o que se passa na cabeça da jovem colapsando. Afinal, após tanta violência, traumas, distanciando da própria condição humana devido a amarras do seu passado, torna-se uma planta seria a melhor forma de se recuperar?
É notável que na própria obra a protagonista não tem voz e nem espaço para agir como desejava. Um marido que apenas se casou com ela, por não o deixar se sentindo inferior; um cunhado que sempre desejou voar de diversos modos que a sexualizava e viu uma brecha para poder fazer o que quisesse com um corpo que já estava num processo de perder sua humanidade; e, uma irmã que mesmo a observando e sabendo de seu passado, desejava que tudo fosse um sonho para não atrapalhar mais ninguém.
As cenas em que a protagonista decide deixar totalmente sua humanidade de lado, são aquelas que mais rápido devoramos. Fugir, refugiar-se no meio da floresta e se plantar no chão dizendo que estava pronta para se nutrir e florir é quando entendemos que ela se rebelou por completo.
De maneira assombrosa e feroz, Han Kang conseguiu construir camadas de um romance bélico. Ela joga os leitores num local indigesto, desconfortável e incômodo de uma reflexão tão profunda que acaba se tornando algo de uma beleza mórbida; uma flor que mesmo bela, decora a morte.
Sinopse de A Vegetariana:
“Eu tive um sonho”, diz Yeonghye, e desse sonho de sangue e escuros bosques nasce uma recusa radical: deixar de comer, cozinhar e servir carne. É o primeiro estágio de um desapego em três atos, um caminho muito particular de transcendência destrutiva que parece infectar todos à sua volta. A VEGETARIANA tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre rebelião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas. A tradução, diretamente do coreano, restitui o estranhamento do original.
O livro pode ser adquirido pela Amazon.
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