Enquanto divulgava Quarteto Fantástico: Primeiros Passos para o ScreenRant, o diretor Matt Shakman declarou o seguinte:
“Queríamos construir um mundo que parecesse inspirado pelos quadrinhos de Kirby; afinal, os personagens nasceram no meio da corrida espacial, em uma época em que o otimismo de John F. Kennedy estava em toda parte — aquela ideia de que o coração certo e a tecnologia certa podiam resolver tudo.”

Diferente de muitos filmes que buscam uma ambientação em décadas anteriores — o próprio Capitã Marvel (2019), do mesmo estúdio —, a escolha criativa aqui não é mero veículo para nostalgia ou comentário óbvio (de que a primeira família Marvel foi criada nesse período nos quadrinhos). O período da década de 1960 americana, marcado pelo otimismo tecnológico, pela família idealizada e pelo sonho americano em contramão ao avanço soviético durante a Guerra Fria, é usado como uma moldura utópica: um mundo que acredita no amanhã. Essa estética usada aqui em Primeiros Passos, presente na filmagem digital que emula a película, no figurino e no desenho de produção, serve para construir o sentimento de esperança científica e heroísmo coletivo, sendo de suma importância para a narrativa que acompanhamos: uma família tentando se adaptar à iminência da chegada do primeiro filho.

Com esse olhar utópico conferido ao filme, a simplicidade e o melodrama se tornam uma linguagem legítima. Não confere apenas os acertos que Primeiros Passos alcança como um simples filme, mas também o torna um exemplar contra o cinismo do cinema de aventura atual, principalmente o da Marvel, que se esconde atrás de autocrítica (como os comentários conscientes do Deadpool em Deadpool & Wolverine) ou de complexidade excessiva (como todos os personagens da série Loki explicando como o multiverso funciona de novo e de novo) para tentar conferir credibilidade ou elevar um filme de aventura a um patamar de suposta maior complexidade ao invés de apenas reconhecer sua própria natureza, assumi-la e exaltá-la.

A ingenuidade do filme é o que o torna essencialmente honesto e confere credibilidade para nós, enquanto público, em determinadas sequências como Sue Storm convencendo uma multidão raivosa a dar ouvidos a ela e perceber que uma vida não precisa ser sacrificada para salvar muitas outras — ou quando o próprio Johnny Storm confronta a Surfista Prateada sobre sua natureza de eterna servidão.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, com seu imaginário utópico dos anos 60, de muitas maneiras propõe uma reconciliação entre inocência e maturidade dentro do gênero de super-herói. É um filme sobre acreditar no super-herói de novo e em que o gênero pode ser simples e abraçar seu melodrama, seu ar utópico e otimista. Com o sucesso de O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, uma visão muito equivocada se espalhou: a de que, para o gênero de super-heróis ser levado a sério, parte da fantasia e da simplicidade precisava ser abandonada no processo. É por isso que O Espetacular Homem-Aranha não era como o Homem-Aranha do Sam Raimi — tudo precisava ser sobre uma grande complexidade: as conspirações por trás da origem dos poderes do herói, a paleta escura, e as explicações sempre constantes sobre a fantasia dos poderes e dos vilões. É algo que os filmes da Marvel herdaram em grande parte. Embora o MCU sempre tenha tentado ser mais cômico e familiar do que a DC, ambos compartilhavam a mesmíssima coisa: o cinismo.

“Vamos abraçar a fantasia até certo ponto — mas faremos comédia dela.” O nome Doutor Octopus é muito ridículo? Faremos piada disso. O personagem M.O.D.O.K só pode ser adaptado de forma esteticamente fiel se for uma piada assumida em tela. E por aí vai. Sempre os diálogos “espertinhos” que fragilizam o drama e servem para lembrar o público de não levar a sério demais aquelas histórias, afinal, são personagens ridículos. É como se a fantasia sempre tivesse um freio. Só que a mídia original: os gibis de super-heróis, sempre foram sobre acreditar na própria fantasia e atráves de sua linguagem simples e melodramática, entregar as histórias que inspiraram o cinema e a TV por tantos anos. E o Quarteto vai mais próximo disso, resgatando um pouco do tom que Sam Raimi conferiu ao Homem-Aranha, Richard Donner ao Superman e Tim Burton ao Batman.
É sobre aceitar a fantasia e a ingenuidade daqueles mundos, e fazer você acreditar neles com atores em carne e osso interpretando aqueles personagens. não ridicularizando a mídia original, mas escolhendo o plano certo, a estética certa, para fazer a fantasia funcionar. É uma honestidade e respeito do autor com o que está sendo mostrado, com suas imagens, uma crença genuína de que não é preciso disfarçar o absurdo ou justificar o impossível para que o público acredite.

E é ainda melhor observar como o reboot da primeira família da Marvel celebra o próprio mito, o próprio universo de seus super-heróis. É sobre um filme, não uma franquia. Ele se interessa pelo que o Quarteto Fantástico representa, descoberta, família, imaginação, e não apenas em como ele se encaixa em uma continuidade, ainda que o aceno na cena pós-créditos nos lembre que ele faz parte de algo maior, a narrativa em momento algum é sacrificada em pról de uma franquia.
Em última instância, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos não trata apenas de revisitar os anos 60, a ambientação não é um adereço nostálgico, mas o alicerce de um cinema que ousa ser ingênuo sem ser tolo, melodramático sem ser artificial. Ao recriar um tempo que acreditava no amanhã, o filme reafirma que o gênero de super-heróis não precisa de cinismo ou pseudo-complexidade para ser relevante. Que ainda é possível acreditar nesses heróis sem que precisem negar o que os tornou únicos — suas tecnologias absurdas, cores berrantes e frases de efeito.
No fim, talvez valha acreditar de novo — Quarteto Fantástico: Primeiros Passos já está disponível no Disney+










