Cara-de-Barro, um dos vilões populares do Batman, acaba de ganhar um trailer. É a grande aposta do novo DCU, buscando um misto do sucesso comercial da trilogia Venom, do primeiro Coringa e o apelo do recente terror corporal, a Substância. Em essência, é mais um filme solo de um super-vilão. Uma fatia dentro dos filmes de super-herói e blockbusters que tem crescido nos últimos anos, mas quais são os problemas desse tipo de produção? E não, não se preocupe, não é uma palestrinha moral. Prometo.
Cara-de-Barro e o problema dos filmes de super-vilão!
Os chamados filmes de supervilão revelam uma contradição curiosa do cinema popular contemporâneo: a indústria adora a iconografia do vilão, mas raramente aceita sua essência moral. Sempre que essas figuras assumem o protagonismo, deixam de ser vilões propriamente ditos e são remodeladas como anti-heróis, vítimas do sistema, justiceiros brutais ou almas traumatizadas em busca de redenção. O blockbuster moderno quer vender a imagem do monstro, mas a verdade é que teme sua monstruosidade.
Isso se relaciona diretamente ao modo como o gênero de super-herói se consolidou em Hollywood. Cada vez mais dependente de fórmulas seguras após o sucesso do MCU, grandes orçamentos e apelo global, o cinema comercial passou a exigir protagonistas facilmente consumíveis: carismáticos, compreensíveis, passíveis de torcida e moralmente digeríveis. Um vilão genuíno desafia essa lógica. Egoísmo, crueldade, sadismo ou niilismo são traços difíceis de transformar em marca rentável. É algo que seria mais facilmente atingido dentro de um cinema que foge de mirar nos grandes circuitos. Vamos pegar alguns exemplares.

Quando o vilão ganha filme próprio, ele costuma ser “corrigido”. A trilogia Venom, por exemplo, converte Eddie Brock e seu simbionte em protetores tortos com uma forte veia cômica; Morbius (2022) transforma o personagem em cientista trágico que combate alguém pior; Kraven, o Caçador (2024) reimagina Kraven como justiceiro violento em busca de uma vingança pessoal; Adão Negro apresenta Teth-Adam menos como tirano e mais como libertador implacável e até protetor de um garoto (nos melhores moldes Exterminador do Futuro 2).
O problema é que o super-vilão tradicionalmente existe em relação ao herói. Ele não é apenas “um cara mau”, mas uma força de contraste. O Coringa testa os limites morais do Batman. Lex Luthor confronta o idealismo do Superman. Doutor Destino rivaliza intelectualmente com o Senhor Fantástico. Separado desse espelho narrativo, o vilão perde parte de sua função. Sem herói, precisa ser reinventado. E nessa reinvenção, quase sempre vira apenas um protagonista sombrio que enfrenta criminosos genéricos. Até quando o filme busca maior densidade dramática, persiste a necessidade de justificar o personagem central. O adorado Coringa (2019) cerca Arthur Fleck de humilhações sociais, elites cruéis e figuras abusivas, convertendo sua violência em consequência compreensível de um mundo adoecido. O filme pode ter ambições autorais e psicológicas, mas confirma a regra: até o Coringa precisa ser explicado para sustentar o centro da narrativa mainstream. O que levou seu autor até se acovardar na sequência, Coringa: Delírio a Dois (2024), com vergonha do público ter comprado para si as lutas de seu justiceiro violento.

Veja bem, a mão pesada da fórmula de hollywood, jamais permitiria um filme solo que testasse nossos limites morais onde o Coringa fosse mais próximo da versão do Jack Nicholson, essa figura caótica, cometendo atrocidades contra pessoas inocentes por que se considera um artista moderno e arrancando risadas por seu comportamento imprevisível, cômico e em crimes cada vez mais criativos.
Mas essa tendência não morre apenas nos filmes de gibi. Malévola (2014) transforma uma das vilãs mais emblemáticas da Disney em figura trágica, traída e maternal. Cruella (2020) reimagina a futura obsessiva por casacos de dálmata como estilista rebelde, carismática e cool ao melhor estilo Arlequina da Margot Robbie. A maldade assumida deixa de ser traço constitutivo nessas produções e passa a ser mal-entendido ou resposta emocional ao trauma. Não há nada de errado em abraçar a simplicidade de um vilão que é mau por ser mau, mas até isso virou exceção. Todos precisam soar, antes de tudo, como figuras incompreendidas, porque é assim que se acredita alcançar uma suposta complexidade. Ou melhor: foi assim que as próprias redes sociais se acostumaram a encarar os filmes. Habituaram-se a uma fórmula elevada à décima potência por Disney, Sony e Warner.

E mesmo quando a narrativa preserva certa brutalidade em produções “para maiores”, o mecanismo se repete. Pacificador (2022) pega um personagem inicialmente apresentado como fanático violento em O Esquadrão Suicida (2021) e o humaniza por meio de culpa, carência afetiva e trauma familiar. O próprio Esquadrão de 2016 e 2021, Comando das Criaturas (2025) resolvem a equação reunindo criminosos para enfrentar ameaças piores: o vilão só pode protagonizar quando trabalha provisoriamente como herói. Em Comando das Criaturas, isso é ainda mais gritante. Cada episódio reforça, em flashbacks, os passados tristes e a incompreensão que esses “vilões” viveram. O grotesco e divertido Doninha, que tinha um passado nebuloso envolvendo o assassinato de crianças, na série tem sua origem didatizada ao máximo para entendermos que todos ali são vítimas.
O padrão é claro. Sempre que o antagonista assume o centro da narrativa popular, ocorre ao menos uma destas operações: traumatização, relativização moral, carismatização estética ou redenção. Em outras palavras, o cinema contemporâneo blockbuster não sabe fazer filmes de super-vilão, sabe apenas domesticar vilões até que pareçam heróis tortos e mais vendáveis. Isso empobrece inclusive o próprio papel do vilão. O antagonista clássico existe para encarnar tentações, medos, ideologias destrutivas e desafios éticos ao herói. Quando todo vilão precisa ser secretamente bom, injustiçado ou “mal compreendido”, perde-se a força simbólica do conflito. O herói deixa de enfrentar o mal e passa a enfrentar versões ligeiramente mais rudes de si mesmo. Prova disso é que se tornou impossível imaginar o Coringa dos filmes de Todd Phillips enfrentando o Batman de Robert Pattinson, ou o Venom de Tom Hardy antagonizando o Homem-Aranha de Tom Holland. O mesmo vale para o Adão Negro de The Rock confrontando o Shazam de Zachary Levi ou o Superman de Henry Cavill, como chegou a ser planejado. Sinceramente, parece mais fácil imaginar os dois virando parceiros e quebrando pescoços de inimigos juntos.

Não estou dizendo que protagonistas moralmente ambíguos não possam render bons filmes. Podem. A questão é outra: o blockbuster atual parece incapaz de aceitar um verdadeiro vilão no centro sem antes absolvê-lo. Hollywood quer o figurino do monstro, seus poderes, sua pose e seu marketing. Mas, diante da possibilidade de encarar sua verdadeira monstruosidade, recua. Porque, mais uma vez, não quer desafiar demais o público com narrativas e estruturas que fujam do convencional. Se levarmos em conta os exemplos apresentados neste artigo, os filmes de vilões do Sonyverso, Malévola, Cruella, Coringa 1 e 2, os dois Esquadrão Suicida, Pacificador, Comando das Criaturas e Adão Negro, o único exemplo que fugiu dessa tendência não foi no cinema, foi na TV, com a série Pinguim, de 2024. Uma série bastante tímida acerca de suas origens quadrinescas e que também é uma aposta mais segura; afinal, trata-se de um projeto de streaming.

O que nos leva até Cara-de-Barro, o próximo projeto solo protagonizado por um super-vilão dos gibis. Como de praxe, não teremos o contraponto do Batman e, provavelmente, zero menções ou alusões a ele. Também surgirá a necessidade de um próprio contraponto e antagonistas para o vilão. É um filme vendido como desprendido de fórmulas, horror corporal, filme B e baixo orçamento, mas o tom do marketing o torna bastante próximo de Coringa, de 2019. Após o sucesso de A Substância, que na internet sofreu diversas comparações do público geek com o episódio “Perito em Formas Humanas”, da série animada do Batman, não é difícil imaginar o que motivou os estúdios a se interessarem e aprovarem o projeto.
Por mais que Mike Flanagan e James Gunn alardeiam a ideia e vendam o filme como vindo de um roteiro fantástico que precisava ser aprovado logo, a verdade crua é que é assim que funcionam as motivações por trás desses grandes projetos mainstream de super-heróis. Se vai ser bom ou não, só o tempo dirá. Por ora, parece apenas mais um exemplar de um modelo que se vende como ruptura em entrevistas e marketing, mas que, como vimos aqui, opera pelas mesmas engrenagens narrativas. A problemática desses filmes persiste até o momento, sem grandes exemplos que escapem da nova fórmula estabelecida.

Por enquanto, o super-vilão no cinema segue proibido de ser vilão em seus projetos solo…










