Antes de começar, acho válido ressaltar que gostei de Mestres do Universo (2026). Não só pelo carinho que nutro pelo desenho original de 1983, que assisti em algumas reprises na infância, que se estende a tranqueira live action estrelada por Dolph Lundgren em 1987, e o retorno da franquia na interessantes série animadas de Kevin Smith, Salvando Etérnia (2021) e a Revolução (2024). O filme é feliz no tributo que presta à obra original, ao mesmo tempo em que abraça uma linguagem cartunesca e vibrante na maior parte do tempo, fazendo com que o conjunto pareça um desenho animado ganhando vida. Essa abordagem se reflete em interessantes sequências de ação, sempre claras e energéticas, interessadas em explorar e traduzir para o cinema todo o potencial imaginativo daquele universo. Resumindo, é uma experiência que diverte.

O que acabou me cansando para com o filme foi um uso constante do humor metalinguístico. Não por existir humor em si, o universo de He-Man sempre teve espaço para leveza, diversão e até rende piadas óbvias, mas porque ele surge como mais um sintoma de uma linguagem que se tornou dominante no blockbuster contemporâneo após mais de uma década de influência do MCU. É aquela necessidade permanente de comentar a própria história, de piscar para o público e de reconhecer o quão estranhas ou extravagantes são as imagens que está colocando em cena. Vi esse aspecto sendo discutido pelo canal do youtube HoldMyDualShock e resolvi expandir a conversa aqui, justamente porque meus sentimentos em relação ao filme foram muito parecidos. Novamente, o que me incomodou não foi uma piada específica, mas a sensação recorrente de que a narrativa raramente permitia que a fantasia do filme existisse sem algum grau de autoconsciência ou constrangimento.
Minha crítica, entretanto, não é está na metalinguagem em si, até porque se bem usada, acho que ela pode enriquecer uma obra. O problema pra mim é quando ela se torna a forma padrão de neutralizar o risco do sentimento, do heroísmo ou do fantástico. O que fere a fantasia como um todo.
Mas de onde vem esse uso da metalinguagem e autoconsciência?

Pois bem, é um conceito que vem diretamente do chamado metamodernismo que surgiu como uma resposta ao esgotamento do pós-modernismo, movimento cultural marcado pela ironia, pelo distanciamento emocional e pela tendência de desconstruir qualquer ideal ou narrativa grandiosa. Se o modernismo acreditava em valores como heroísmo, progresso e verdade, e o pós-modernismo passou a enxergá-los com desconfiança e sarcasmo, o metamodernismo tenta ocupar um espaço intermediário. Ele reconhece as limitações e contradições desses ideais, mas ainda busca se conectar a elas de forma sincera. Em vez de escolher entre acreditar ou zombar, sua principal característica é oscilar constantemente entre essas duas posturas.
As raízes dessa sensibilidade podem ser rastreadas ainda nos anos 1990, quando a influência da MTV, da linguagem dos videoclipes e de uma cultura jovem cada vez mais autoconsciente ajudou a consolidar a ironia como a linguagem dominante da cultura pop. Filmes como Pânico (1996) levaram essa lógica ao cinema ao comentar abertamente as convenções do próprio gênero e transformar a autoconsciência em parte da narrativa. Entretanto, obras posteriores como Shrek começaram a utilizar essas mesmas ferramentas para um propósito diferente: ao mesmo tempo em que satirizavam contos de fadas e zombavam de seus clichês, continuavam acreditando sinceramente em temas como amor, amizade e aceitação. A partir daí, essa combinação entre ironia e emoção se tornou uma das linguagens dominantes do cinema comercial americano, aparecendo em produções diversas como Uma Aventura Lego, Jumanji, Homem-Aranha no Aranhaverso, Barbie, na televisão, com Community e Fleabag e em boa parte do Universo Cinematográfico Marvel. Todas compartilham uma característica em comum: reconhecem o absurdo ou a artificialidade de suas premissas, mas ainda convidam o público a se envolver emocionalmente com elas.

Entretanto, essa oscilação constante acabou se transformando em uma fórmula tão previsível quanto o cinismo que pretendia superar. Com a ascensão do Universo Cinematográfico Marvel, o MCU, como principal símbolo de sucesso no cinema blockbuster, essa característica acabou se tornando exemplo para outros filmes. O problema é que a divisão entre pós-modernismo e metamodernismo nessas produções acabou ficando um pouco caótica e se tornou difícil de se separar. O MCU pega elementos pós-modernos (ironia, autoconsciência, excesso de referências, consciência de franquia) e mistura com uma recuperação de valores clássicos (heroísmo e esperança).
Nesse cinema, a consciência pós-moderna se transforma em parte do espetáculo. Em filmes como Vingadores, Guardiões da Galáxia, Thor, Deadpool, há uma consciência nítida de que os super-heróis são mitos artificiais, cheios de clichês e fórmulas repetidas. Seus personagens fazem piadas sobre isso, quebram expectativas e reconhecem direta ou indiretamente que fazem parte de uma grande franquia. Porém, diferente da abordagem puramente pós-moderna, ainda tem o toque que eles usam não usam essa consciência para desconstruir o mito de herói; recupera a ideia de que esses símbolos ainda podem representar algo. Embora, nem toda produção consiga dosar bem essas ideias.
O problema é que, conforme os filmes do MCU foram ficando cada vez mais formulaicos e gerando gêmeos formulaicos em outros estúdios, isso resultou em uma fórmula onde momentos dramáticos são repetidamente interrompidos por piadas autoconscientes ou comentários que diminuem sua própria importância. Nisso, a sinceridade passa a parecer incapaz de existir por conta própria. Nesse sentido, o meu cansaço e muito do debate atual que vejo em torno do metamodernismo, não está questionando apenas o excesso de ironia, mas também o desejo crescente por narrativas mais diretas, que reflitam uma busca por obras capazes de permitir ao heroísmo, à beleza e ao idealismo existirem sem a necessidade de uma piscadela para o público ou de um comentário que alivie o constrangimento de levar fantasia, super-heróis e combates com superpoderes, a sério.

Talvez seja justamente por isso que filmes como Top Gun: Maverick e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos tenham se destacado tanto para mim recentemente. Ambos parecem compreender que existe algo poderoso em simplesmente acreditar no próprio universo. Não sentem a necessidade de pedir desculpas por sua grandiosidade, sentimentalismo ou pelos elementos mais melodramáticos e fantásticos (ba dum tiss) de suas narrativas. Em algum momento, essa autoconsciência tão característica do blockbuster moderno deixou de ser apenas um recurso e passou a funcionar como um mecanismo de defesa. Como se os filmes precisassem tranquilizar o espectador de que sabem o quão absurdas são suas premissas antes que alguém as critique por isso. O resultado é uma narrativa que raramente se permite ser plenamente sincera, tratando seus elementos mais fantásticos com uma camada constante de ironia. Mestres do Universo, infelizmente, retorna a esse reflexo contemporâneo de transformar a metalinguagem em comentário e usar a ironia como escudo, a ponto de enfraquecer um envolvimento emocional mais profundo.
Se existe uma obra que ainda deveria servir de referência para essa sensibilidade, novamente, é Shrek. O filme reconhece os clichês dos contos de fadas, satiriza suas convenções e brinca constantemente com a ideia do “felizes para sempre”, mas nunca abandona a crença nos sentimentos que sustentam essas histórias. Sua subversão não existe para ridicularizar o gênero, mas para expandi-lo e propor algo novo. Shrek e Fiona não correspondem ao ideal de beleza tradicional dos contos clássicos e, ainda assim, encontram amor, aceitação e felicidade sem precisarem se transformar em versões mais palatáveis de si mesmos. O filme desconstrói a fantasia ao mesmo tempo em que preserva seu otimismo, demonstrando que é possível questionar uma tradição sem perder a fé nos valores que a tornaram significativa e potente. Talvez por isso continue sendo um dos exemplos mais bem-sucedidos do metamodernismo no cinema popular, afinal, sua ironia jamais existe para enfraquecer a fantasia, mas para renová-la.

Por isso, me senti cansado em muitos momentos do novo Mestres do Universo. Algumas sequências potencialmente mais poderosas da narrativa, como o Príncipe Adam reencontrando a Espada do Poder como um adulto, sua primeira transformação como campeão de Eternia ou adotando o nome He-Man, são rapidamente interrompidos por piadas ou comentários que parecem constrangidos pela própria fantasia que estão apresentando. Em vez de permitir que esses instantes carreguem o peso simbólico de uma transformação heroica, o filme parece sentir a necessidade de tranquilizar o público, lembrando-o de que tudo aquilo é absurdo. Mas não deveria haver vergonha em um personagem receber seus poderes, erguer uma espada mágica ou assumir uma identidade heroica. Afinal, tudo isso faz parte dessa fantasia. Esses momentos, por mais lúdicos que sejam, podem ser belos, inspiradores e emocionalmente sinceros. A fantasia não deveria precisar pedir desculpas por existir.
Me peguei pensando em Speed Racer (2008), assim como Mestres do Universo, o filme parte de um material que poderia facilmente ser tratado com constrangimento por um blockbuster moderno: heróis de nomes extravagantes, personagens caricatos, visuais coloridos e uma fantasia assumidamente artificial. No entanto, enquanto Mestres do Universo frequentemente parece interromper seus momentos de maior sinceridade para assegurar ao público que está consciente do absurdo de sua própria premissa, Speed Racer segue pelo caminho oposto. Os Wachowski abraçam integralmente o universo que estão adaptando, permitindo que sua fantasia exista sem o peso da batida ironia. Algo que poderia ter beneficiado essa nova encarnação de He-Man.

Durante décadas, o uso crescente da metalinguagem e da autoconsciência na cultura pop parece ter nos reeducado a enxergar a ironia como uma forma de inteligência e a sinceridade como algo vergonhoso. Por isso, Hollywood segue ofertando produções com essas fórmulas como imposição pré-estabelecida de sucesso e não escolha criativa. No entanto, talvez estejamos chegando a um ponto de cansaço dessa lógica, algo que se reflete na divisão do público e nos números mais baixos de bilheteria de produções como Mestres do Universo e os filmes recentes do MCU. Depois de tantos filmes tratando seus próprios mitos com distanciamento e autoconsciência, espero que cresça o desejo por histórias que permitam ao heroísmo, à beleza e ao idealismo existirem sem ressalvas. Histórias que não sintam a necessidade de piscar para o público após cada momento de emoção genuína. Porque acreditar em algo, por mais fantástico que seja, não deveria ser motivo de constrangimento.
Talvez a lição de hoje seja a mesma que He-Man nos ensinou todos esses anos: acreditar em algo não nos torna tolos. Às vezes, é isso que nos torna fortes.






