Após o impacto triunfante e merecido de Top Gun: Maverick logo após os tempos pandêmicos, Tom Cruise retornou ao que seria o projeto de conclusão da franquia Missão: Impossível. Com Acerto de Contas – Parte Um, o astro e o cineasta Christopher McQuarrie pareciam particularmente interessados em dialogar sobre o conforto e a repetição estética à qual o cinema blockbuster parecia condenado: o cinema de super-heróis, a artificialidade dos efeitos digitais, os filmes projetados por algoritmos.
A Entidade, a IA do mal e vilã desses últimos filmes parecia ser a forma que Cruise encontrou para tornar essa discussão um inimigo palpável, que seu cinema mais analógico, clássico baseado no espetáculo físico iria confrontar. O resultado foi um filme bastante divertido, embora a narrativa já demonstrasse certo cansaço e talvez não conseguisse se sustentar tão bem por muito mais tempo.

Com Acerto Final, essa narrativa não apenas evidencia seu esgotamento, como também traz um aspecto bastante esquisito que se torna o novo foco: a verborragia. As explicações mirabolantes sobre o desenrolar dos planos da equipe de Hunt, as motivações dos vilões, as discussões sobre os MacGuffins que herói e vilão precisam conquistar — tudo isso sempre foi um aspecto menor no cinema de espionagem e na própria franquia. Essas questões narrativas sempre existiram mais para dar alguma dimensão aos personagens e preparar o contexto para uma cena espetacular de ação.
Só que, aqui, até mesmo a ação parece menor. O filme acredita que essas discussões sobre os MacGuffins e sobre o potencial destrutivo da Entidade devem ocupar a maior parte das imagens e do tempo de tela. Como elas se tornam o foco, logo percebemos o quão frágeis são esses diálogos e o quão repetitiva é essa ameaça. A intenção da Entidade é a mesma que todas as IAs malignas já quiseram no passado: acabar com o mal que é o ser humano no planeta — de Tron a Exterminador do Futuro, passando por Ultron, é a mesmíssima coisa.

Ainda assim, o filme não quer utilizar isso como pano de fundo para um assalto arriscado ou um embate espetacular de ação. A preocupação de McQuarrie está em cortar plano-contra-plano de discussões que repetem sobre a urgência da ameaça dessa IA, enquanto insere, repetidamente, imagens de mísseis nucleares prontos para destruir o mundo — uma imagem que se repete à exaustão durante todo o filme. É uma urgência construída por diálogos, mas pouquíssimo sentida.
Como se isso não bastasse, há também o reforço de que devemos compreender perfeitamente que certos personagens não aparecem na franquia há muito tempo. Para isso, o filme recorre a flashbacks granulados, que retornam de novo e de novo à imagem do “encontro” entre esse personagem e Hunt. É um filme muito preocupado em ser compreendido, de modo que acaba preso às mesmas raízes que os blockbusters modernos abraçaram — e contra as quais ele tenta, em tese, lutar. Jamais imaginei a dificuldade que essa dupla teria para trabalhar organicamente na criação de urgência, algo tão bem feito nos filmes anteriores, ou na celebração pura dos rostos conhecidos da franquia.

Quando a ação finalmente chega, ela funciona como um respiro diante de tanta discussão e frases de efeito vazias. Há uma sequência bastante interessante e tensa num submarino, que eleva o limite do exagero e até flerta com a artificialidade — o máximo que um filme tão preso a suas questões narrativas parece permitir. Também há um confronto aéreo, igualmente tenso, no clímax. Este, curiosamente, é tratado como algo menor, pois está inserido numa montagem paralela que, mais uma vez, quer reforçar o perigo iminente da vitória da IA, ao invés de simplesmente nos deixar apreciar os riscos físicos que Hunt — ou melhor, Cruise — corre. Afinal, a franquia sempre brincou com essa questão metalinguística: não é só Hunt, mas Tom Cruise ali, pendurado num avião, fazendo acrobacias reais e arriscando a própria pele.

É uma pena que a qualidade acabe sacrificada por não reconhecer o foco que sempre definiu o entretenimento de Missão: Impossível: a ação. Claro, ainda há o que se divertir dentro do filme. A interação entre Cruise e Hayley Atwell, por exemplo, é carismática e hipnotizante; ela cria uma ótima dinâmica com o protagonista. O mesmo vale para o retorno de Simon Pegg. Há esses momentos em que é possível se divertir com esses personagens e, claro, mesmo que a ação demore a chegar, ela acaba empolgando.
Mas o sentimento que Missão: Impossível – Acerto Final deixa é bastante amargo: um filme que, de muitas maneiras, parece rendido à tendência que buscava evitar. Afinal, não há nada mais algoritmizado do que as raízes verborrágicas às quais este filme se prende.
Crítica/Review
Missão: Impossível - Acerto Final
Missão: Impossível – Acerto Final falha ao priorizar a verborragia em detrimento da ação, transformando o entretenimento, que sempre foi o motor da franquia, em algo secundário.
PRÓS
- As cenas de ação, embora tardias, ainda empolgam e impressionam.
- A dinâmica entre Tom Cruise e Hayley Atwell é carismática e envolvente.
CONTRAS
- O filme prioriza a verborragia e a exposição excessiva, em vez da ação.
- A ameaça da IA é genérica e repetitiva, sem urgência.
- A narrativa se torna cansativa, presa à necessidade de ser didaticamente compreendida.
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