O ano é 2023. A Microsoft prossegue sua jornada na indústria de jogos uma vez mais como forte atuante após um 2022 aquém às expectativas da sua comunidade de fãs, criando um novo formato de eventos para adereçar as necessidades e pedidos dos jogadores de Xbox, que ansiavam por um tipo de celebração que não se resumisse às clássicas e robustas formas já conhecidas de se anunciar um produto, num grande evento recheado de trailers (coisa que a Microsoft sempre amou fazer).
A proposta de criar um evento menor como o Developer_Direct se dá ao mérito de revelar trechos detalhados de jogos anunciados previamente, priorizando um contato mais direto entre os produtores e jogadores. O evento por si só fora muito bem–aceito pela comunidade, mas certamente a revelação repentina do novo jogo da Tango Gameworks e seu lançamento abrupto na mesma data chocou os internautas.
O que também chocou uma galera foi o tema do jogo, diferente dos projetos mais recentes do estúdio japonês que tinha como alicerce de produção o terror. Hi–Fi Rush chega para mudar esse paradigma e provar que o trabalho de uma equipe dedicada a fazer o que ama compensa qualquer orçamento limitado ou exigências da indústria de jogos AAA.

Hi–Fi Rush é um tratado entre veteranos da indústria, como Shinji Mikami (diretor criativo de jogos como Resident Evil), e novos prodígios, como John Johanas (diretor narrativo de The Evil Within 2, um dos melhores jogos de terror já feitos) e muitos outros desenvolvedores apaixonados pelo que fazem, um tratado que tem como meta a de não se envergonhar em ser um jogo simples, divertido, carismático, que não se leva a sério mas que não deixa de exercer, com seriedade, um trabalho que a indústria de jogos tem sofrido em adereçar: dar orgulho de se amar videogames. Agora, após ter zerado o game disponível exclusivamente para as plataformas de nova geração da Microsoft e PC (disponível também em nuvem pelo Xbox Game Pass), eu tentarei explicar o porquê dessa conclusão.
Game design (apresentação, estilo e mecânicas):
Sabe aquela música que inicia com uma batida que já te faz amar o que está por vir? Agora imagine se a música transbordasse através do ar e arrefecesse na direção de arte, na jogabilidade, na história, criando uma amálgama musical inexprimivelmente engajante? Hi–Fi Rush consegue cativar por ser uma mistura de tudo o que tem de melhor no mundo dos videogames, mas que consegue ser original e executar primorosamente certas mecânicas que outros jogos falharam em implementar.

No jogo controlamos “Chai”, um adolescente aspirante a uma estrela do rock que se vê como voluntário num experimento de uma megacorporação que visa mecanizar seus meios de produção realocando partes humanas de seus trabalhadores e substituindo–as por membros mecânicos ou até de modo integral ao organismo.
No meio de tal experimento, Chai acaba fundindo–se a um tocador de músicas portátil, passando a perceber o mundo a sua volta de modo síncrono à batida de uma constante e agradável trilha sonora.
Sua guitarra se torna a arma principal durante a jogatina, arma essa que permite com que ataques fracos, fortes e combos sejam executados ou até auxiliados por amigos que encontramos ao longo do jogo, cada um com sua mecânica única, criando diversos trechos de exploração como um bom metroidvania.

A base do jogo é o ritmo de um compasso que podemos seguir e, atenção à palavra “podemos”, pois como os golpes sempre acertam o alvo, tudo pode ser levado como aprendizado enquanto a familiarização com novas variáveis são apresentadas. Tais aprendizados servem para conquistarmos pontuações mais altas e sincronias que fazem a porradaria satisfatória do jogo parecer um AMV ou abertura de anime, com a única diferença sendo a de que esse sentimento perdura durante todo o jogo, visto que Hi–Fi Rush não interrompe o ritmo em nenhum momento da experiência, algo sensacionalmente intrigante de se observar à medida que o simples se torna complexo mas completa de modo primoroso a linearidade do combate, dando tempo para que o jogador se acostume a cada novidade apresentada sem puni–lo por errar algumas vezes ao longo de sua jornada.
Level design (níveis, inimigos, direção de arte e trilha sonora):
Os níveis desse jogo são mosaicos que parecem ter sido concebidos nas mentes mais criativas e apaixonadas por histórias em quadrinhos ocidentais, asiáticas, animações, séries televisivas, música e, claro, jogos da era de ouro do Playstation 2 e Xbox Original.
O estilo cartoon dos personagens e do cenário são denotados de modo carismático e o mundo ao nosso redor vibra em cores na mesma medida em que interage com a música a ser tocada no momento, fundindo–se numa estranha mas divertida dose de dopamina gamer que não cansa, nem deixa de desafiar, nem deixa de lembrar as coisas boas que fazem os jogos serem tão amados.

Cada inimigo é implementado precisamente no momento em que as coisas parecem ficar entediantes e, como os mesmos seguem o ritmo da música no seu próprio estilo, o fator surpresa não sobrepuja a frustração que cada um poderia trazer ao jogador com sua forma mais apropriada de ser enfrentado.
Cada chefão também traz consigo experiências únicas em termos de resolução de conflito, indo da clássica porradaria até uma competição de show de talentos. Tudo isso se soma a momentos alucinantes que transitam entre cinemática e jogatina, embasbacando o público com aquela clássica experiência de sentir que se está na presença de algo único. Único e extraordinário, extraordinário justamente por não se propor a sê–lo, mas com esmero em tentar ser o melhor no que se resigna a oferecer.
Questline (enredo, construção de mundo e narrativa):
Chai não é o único “patife” a ser caçado ao longo do jogo após ser tratado como um defeito após a falha no experimento ao qual se sujeitou. Também somos acompanhados por uma gatinha robótica cujo nome é “808” e sua dona “Peppermint”, que quer destruir a companhia “Vandeley” após sua alusão a um futuro distópico.

Cada um dos executivos da empresa é um chefe específico e todos eles precisam ser derrotados para que o plano maligno de controlar a população seja impedido. Ao longo da narrativa, encontramos outros aliados que trazem visões únicas e interações divertidas com relação ao que se passa na história, tornando a experiência entre fases um bom respiro para que o jogador se familiarize com as mudanças.
Gameplay (acessibilidade, experiência pessoal e notas precisas):
Sendo um jogo de ritmo, ele cumpre muito bem sua proposta. Em todos os momentos o jogo reforça referências para que o jogador não se perca ao longo das batalhas e consiga traçar seu próprio caminho entre as hordas que atacamos. A história é incrível, não por ser extravagante nem complexa em demasia, mas sim por ser simples, interessante até onde precisa ser e emocionante o suficiente para que o jogador sinta que as piadas, as conversas, as batalhas, enfim, para que o jogador sinta que o que está fazendo reverbere não somente nas notas musicais, mas na narrativa à medida que cada personagem amadurece nessa curta mas excelente jornada.
Confesso que após um 2022 tristemente desinteressante para o lado verde da força, não achei que este ano começaria com um passo direito tão forte da marca e da indústria de jogos, visto que Hi–Fi Rush tem o feito inédito de ser anunciado e lançado no mesmo dia através de um serviço de assinatura como o Xbox Game Pass, surrupiando notoriedade através do fator surpresa e evadindo as típicas críticas de um mercado já saturado com exigências restringentes e que poderiam ofuscar o sucesso de jogos como esse.

O fator de jogatina após a campanha ser concluída permite com que uma curta mas satisfatória extensão da vida útil do jogo atraia um público que queira se aprofundar nas mecânicas propostas, já que sua execução é caprichada se comparada a produtos semelhantes no mercado. Salas secretas, músicas inéditas, murais e colecionáveis contribuem para amainar o gostinho de “quero mais” e “vai deixar saudades”.
Agrada–me muito ver a Microsoft dando espaço e respeitando os interesses criativos de seus estúdios e, apesar de projetos como Hi–Fi Rush e Pentiment já terem sido planejados antes de se tornarem jogos do catálogo interno da marca Xbox, ainda é surpreendente eles terem permitido e tratado tais propriedades intelectuais com carinho e não terem forçado a seus desenvolvedores a denegrirem a visão de seus projetos em detrimento do Xbox Game Pass, tornando–o, ao invés disso, uma ferramenta para alavancar um modelo de negócios inovador e que veio para ficar. Enfim, a Tango Gameworks deu um show no sentido literal e metalinguístico da coisa, e Hi–Fi Rush é uma prova de amor ao que torna os videogames tão divertidos e apreciados.
Notas precisas
- Game design: 10/10
- Level design: 10/10
- Questline: 10/10
- Gameplay: 10/10
- Nota final: 10/10
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