
“Beetlejuice Beetlejuice – Os Fantasmas Ainda se Divertem” é mais um exemplo desse retorno nostálgico de franquias consagradas do cinema. No entanto, diferente de filmes como Star Wars: O Despertar da Força e Top Gun: Maverick, ele se alinha mais com Mad Max: Estrada da Fúria, onde o autor original retorna à posição de diretor. O exercício interessante aqui é como Tim Burton recupera muitos dos méritos que o consagraram como um cineasta singular, mas que pareciam perdidos em seus últimos projetos. A graça aqui é que para se reencontrar, ele precisou revisitar um de seus maiores clássicos.
O Beetlejuice original foi um divisor de águas, pois abriu caminho para Burton realizar filmes como Edward Mãos de Tesoura e Batman, ao mesmo tempo em que consolidou suas características únicas, como o uso de influências góticas em sua linguagem, a morbidez e o humor ácido extraído dessas temáticas. Tratando-se de um filme que lida com a morte e mortos-vivos, Beetlejuice é o exemplo mais preciso de todas essas influências de seu autor.

A primeira coisa a se notar em “Beetlejuice Beetlejuice – Os Fantasmas Ainda se Divertem” é como Burton conduz a narrativa de uma maneira mais distante dos blockbusters modernos e mais próxima dos blockbusters oitentistas. O grande foco do filme, centrado no núcleo familiar composto pelas personagens de Winona Ryder, Jenna Ortega e Catherine O’Hara, é desenvolvido de forma cadenciada. As muitas subtramas que surgem a partir daí nem sempre têm um propósito claro de agregar a algum arco ou desenvolvimento de personagem. Diferente da lógica moderna dos blockbusters, onde cada subtrama ou desdobramento precisa servir para mover a história ou desenvolver o personagem, aqui a narrativa se desdobra em subtramas que agregam mais do ponto de vista temático, abordando luto por meio do sobrenatural ou servindo como uma sátira ácida. Claro que, quando o filme tenta incluir urgência na figura da antagonista vivida por Monica Bellucci, as coisas não funcionam tão bem porque essa lógica é quebrada, especialmente no clímax onde a resolução é ágil – até demais – na decupagem. No entanto, tirando esses pormenores onde residem a fragilidade dessa sequência, é como se Burton se desprendesse um pouco das lógicas modernas, fazendo com que o filme soe como se tivesse sido rodado nos anos 80.

Esteticamente, há também um resgate ao analógico e a recursos que pareciam distantes do cinema contemporâneo, como o stop-motion. Diferente de trabalhos que soam excessivamente digitais, como Alice no País das Maravilhas, a fábula de Burton aqui se apoia em um equilíbrio entre o digital e o prático, seja nas maquiagens, fantasias ou na composição dos cenários. É nesse aspecto que vemos o peso e a identidade do autor, não retornando de forma burocrática, mas de maneira inspirada, fazendo o espectador acreditar que o criador desse universo está se divertindo novamente e transmitindo essa energia ao filme.
Do ponto de vista do humor, praticamente tudo funciona. Há um espaço bastante interessante para a autorreferência, como as piadas envolvendo o destino do personagem de Jeffrey Jones, que, para quem conhece os desdobramentos infelizes da vida do ator, ganha toda uma outra camada de humor negro. Na linha da autorreferência a trabalhos anteriores, a sequência que apresenta o personagem de Danny DeVito faz uma divertida alusão ao visual grotesco do Pinguim de Batman: O Retorno, que causou polêmica entre os pais que levaram seus filhos pequenos para assistir ao filme na época.
Do outro lado, temos a força da natureza que é Michael Keaton como Beetlejuice. Assim como em seu retorno como Batman, ele esbanja jovialidade, retratando o personagem como se nenhum dia sequer tivesse passado desde o filme original (é claro, ele é um fantasma, dã!). O humor físico rende ótimas piadas, escalando no ponto certo e entregando um divertido humor mórbido, escatológico e ácido, que Keaton emprega com muita autenticidade nos diálogos. Por fim, a comédia que se desenrola de personagens mais alheios sem tanto foco nos planos principais, preenchendo os fundos com detalhes hilários como os fantasmas na eterna espera de atendimento e outros na sequência de embarque no trem para o além, seja tomando o plano principal em poucos momentos ou apenas compondo o ambiente, também rende ótimos momentos de humor.

É muito interessante observar, complementando o que comentei anteriormente, como “Beetlejuice Beetlejuice – Os Fantasmas Ainda se Divertem” não se preocupa em abrir diversas subtramas, resultando em uma experiência caótica que o diretor consegue atingir —uma característica que define o universo dessa sequência e seu protagonista. E em meio a todo esse caos, ainda há algo muito sincero e particular. Como discuti antes, o diretor parece se reencontrar, mas, mais do que isso, o filme, assim como o original, nos mostra como a morte, a morbidez e essas figuras fúnebres podem, paradoxalmente, ser fontes de comédia. Essa natureza ambígua e rica é um reflexo do que a filmografia de Burton sempre buscou: melancolia, humor, comédia—todos esses temas se encontram de forma satisfatória, seja no clássico Beetlejuice ou nesta nova versão. Ainda que os pormenores revelem alguns tropeços, a experiência como um todo atinge seu propósito. Beetlejuice Beetlejuice: Os Fantasmas se Divertem é um reencontro satisfatório tanto para Burton quanto para nós.
Crítica/Review
Beetlejuice Beetlejuice: Os Fantasmas Ainda se Divertem
Em Beetlejuice: Os Fantasmas Ainda se Divertem, Tim Burton não apenas revisita um de seus clássicos, mas também se reencontra como autor e acerta naquilo que tornou seu cinema tão marcante.
PRÓS
- O retorno de Burton a sua essência original, equilibrando elementos digitais e práticos com estilo característico
- O humor mordaz e a autorreferência, incluindo piadas que enriquecem a experiência para os fãs de longa data
- O desempenho de Michael Keaton no papel principal
CONTRAS
- A resolução apressada e pouco impactante do clímax
- A má execução em criar urgência com a antagonista interpretada por Monica Bellucci
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