
Em uma das primeiras cenas de Deadpool & Wolverine, o protagonista, interpretado por Ryan Reynolds, conversa com o público sobre como o filme pretende honrar a memória do Wolverine, aquele que vimos em Logan e nos demais filmes da Fox. Enquanto cava o túmulo onde o cadáver de Wolverine está enterrado, ele conclui esse diálogo dizendo que, na verdade, o filme não vai honrar sua memória. A cena se segue com uma abertura ao som de “Bye Bye Bye” do NSYNC enquanto o Mercenário Tagarela praticamente profana o corpo do nosso carcaju favorito e o usa como arma durante a coreografia que se desenrola em tela.
Toda essa sequência de abertura reforçou, mais uma vez, algo que já estava bem claro: o que eu iria testemunhar seria apenas uma experiência de nostalgia, humor negro e algumas tripas na tela. Muito pouco além disso. Portanto, nem me importei em buscar uma lógica interna na narrativa do roteiro, assinado por cinco pessoas: Ryan Reynolds (o próprio Deadpool também escreveu?), Rhett Reese, Paul Wernick, Zeb Wells e Shawn Levy. A propósito, não existe lógica interna alguma nas regras apresentadas sobre o multiverso ou mesmo no fiapo de história que o filme apresenta. Mas, continuando… eu estava preparada para a proposta de Deadpool e Wolverine.

Só que ao longo do caminho, a inevitável questão continuava me incomodando: qual invenção narrativa e aproveitamento me convenceriam a aceitar Hugh Jackman no papel de Wolverine após a singela, melancólica e poderosa despedida vista em Logan? Depois que o filme acabou, a mesma resposta de Deadpool veio até mim: não, não conseguiram me convencer. No fiapo de história que os cinco roteiristas entregaram, o Wolverine está passando pelo mesmo arco narrativo já visto em filmes como Wolverine: Imortal e Logan. O aproveitamento de Hugh Jackman não traz muita novidade, além da roupa amarela e da máscara clássica (que eu sempre quis ver no rosto do ator, mas depois deste filme, repensei meu desejo). Até mesmo sua dinâmica com Ryan Reynolds é muito semelhante à dinâmica entre Cable (Josh Brolin) e Deadpool vista em Deadpool 2. O ator ruge um pouquinho, fatia uns cadáveres, mas quando quer entregar mais do que isso, aquele ponto que comentei mais cedo – que o filme se constrói como uma experiência de nostalgia – retorna e não permite que ele explore alguma faceta dramática que seu arco narrativo quer atingir.
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa também se configurava de forma semelhante como uma experiência nostálgica pelas participações especiais, mas não trazia Tobey Maguire e Andrew Garfield de filmes que concluíram a história de ambos os personagens de forma satisfatória. Muito mais do que isso, aquele filme conseguia fazer a jornada dos personagens nostálgicos estar diretamente atrelada ao arco do Peter Parker principal e, no final, render consequências a ele e fazê-lo crescer como personagem. O que está longe de acontecer aqui. Deadpool e Wolverine trocam farpas em uma dinâmica já vista anteriormente, compartilham várias cenas de ação e, no final, estão juntos sem grandes consequências.

Mas eu acho que já falei demais sobre narrativa; vamos falar de cinema, certo? Obviamente, estamos diante de um filme de orçamento alto e um multiverso para se salvar, distanciando-se do charme intimista e desbocado do primeiro filme. Aqui, estamos diante de uma grandiosa cadeia de eventos. Mais do que isso, é o tipo de obra que busca mesclar esse espetáculo de alto orçamento com a metalinguagem e o humor negro. Entretanto, Shawn Levy não parece ter a habilidade para fazer nenhuma dessas coisas.
Para ser justo, há um ou outro enquadramento em uma sequência do Wolverine e do Deadpool contra hordas de inimigos que remete diretamente a videogames dos anos 90, onde a ação é aproveitada. Porém, os combates dos dois protagonistas, um contra o outro, não possuem peso algum e, assim como toda a violência do filme, acabam sendo cartunizados e resolvem-se com dublês de CGI difíceis de engolir. Até mesmo as cenas de fanservice, quando os grandes rostos nostálgicos se reúnem lado a lado (aparições que, aliás, passam a impressão de serem os atores que “sobraram” de uma lista para qual Ryan Reynolds ligou), acabam em uma sequência de câmera tremida e cortes rápidos, onde a ação se resolve com um dinamismo quase inexistente e uma criatividade nula.
Agora, tratando do humor, está claro que falta para cada uma das cenas um timing adequado. Um diretor com mais firmeza conseguiria construir cada momento de humor para funcionar organicamente em determinadas sequências ou para desarmar momentos de tensão. Aqui, não: a comédia invade o espaço o tempo inteiro, praticamente berrando na tela e implorando para ser engraçada. Não apenas o timing falha por parte da direção, mas as piadas são pouquíssimo inspiradas. O que dizer do tal Nicepool (o Deadpool bonitão) e seu Dogpool em uma esquete de humor que se repete de novo e de novo, sem adicionar uma camada interessante ao que estamos vendo e sem arrancar uma risada sequer.
O mesmo vale para o uso da metalinguagem. Recentemente, filmes e séries que se apropriam dessa técnica acabam na mesma armadilha: apontam um sintoma, um elemento frágil ou ridículo em um determinado gênero, mas não conseguem contornar esse elemento e construir uma saída criativa a partir disso, e aqui isso se repete. Deadpool faz graça com os personagens tendo que explicar as situações que vemos em tela, mas os dois antagonistas do filme fazem isso em longas sequências e em dois momentos diferentes. A autoconsciência de ser um personagem em um filme poderia render a Deadpool explorações muito ácidas e saídas criativas; o personagem mesmo reforça em dado momento que ele não quer ser o cara de uma única piada, mas é o que ele acaba sendo. Essa conclusão de trilogia se consolida como um dos usos de humor negro mais pobres que já vi em uma obra recente. Pouquíssimas tiradas funcionam, e as que funcionam se repetem de novo e por aí vai.

Também me peguei pensando no “Vazio”, a dimensão na qual os dois heróis acabam condenados em certa porção da obra. Em comparação com o mesmo “Vazio” que vimos na série Loki, este aqui parece ser a série de televisão e aquele o filme para cinema. É tudo muito chapado, visualmente desinteressante na paleta de cores e composição de cena. E olha que os visuais dos filmes anteriores, fotografia e tudo mais, não se destacavam muito, mas estamos falando de um personagem metalinguístico que poderia render grafismos na tela, muita brincadeira visual, inserido em um contexto multiversal. Assim como em todas as outras categorias, o filme faz um aproveitamento pobre de seu visual, de sua fotografia e de suas cores. Mas talvez eu seja o ranzinza aqui, tanto quanto o velho Wolverine. Porque se o filme brinca com o público e diz que tem problemas, ou se é humorístico e não se leva a sério, eu não deveria olhar para esse tipo de coisa e ter essa sensação de um desperdício criativo gigantesco (segundo dezenas de comentários por aí).
Dito tudo isso, por mais que eu já estivesse preparado para essa experiência de nostalgia e diversão, Deadpool & Wolverine não me entregou isso. Ele me entregou a ilusão disso, um trabalho pouco inspirado que tenta me imergir nessa experiência a todo custo, mas que infelizmente não consegue sustentá-la. Faz os dias do frescor criativo que o primeiro Deadpool trouxe parecerem que aconteceram em outro universo e, mais do que isso, faz graça e “profana” o encerramento de um filme muito melhor que buscava honrar e homenagear o Wolverine de Hugh Jackman. Só que eu não quero ser apenas o cara que bate nos dois personagens com o maior fator de cura do Universo Marvel e não apresenta soluções, veja bem:
Não seria muito melhor enxugar essa loucura multiversal, buscar uma solução metalinguística para o Deadpool acabar no MCU, se sentir um personagem menor diante desse universo que tem tantos filmes e séries interligados, e, com esse ressentimento de ter vindo de um universo controverso da Fox, buscar um grande propósito e fazer nós, o público, acreditar que ele merece sim estar dentro do MCU? Reunir seu velho elenco de personagens, buscar briga com algum vilão remanescente de um filme do MCU do passado e, no meio do caminho, perceber que ele ainda continua sendo um personagem trágico que busca essa aprovação de nós, como público, porque ele se sente atormentado e vazio por dentro, uma vez que sabe que é um personagem consciente que vive dentro de um filme. E nesse olhar introspectivo, claro, por meio da comédia, da visceralidade e de tripas voando, provar o valor ao MCU dessa forma, crescendo como personagem e enterrando seus demônios internos (podendo ser, é claro, até literalmente). E de quebra, nessa jornada o Mercenário Tagarela ainda poderia cruzar com o surgimento de alguns mutantes no MCU, e dessa forma o filme criticar que filmes intimistas não chamam público, só filmes que apresentam personagens para um mega evento? Pois bem, essa é minha sugestão para o que poderia ser esse encerramento/preparação para o futuro. Não tem o Hugh Jackman, mas depois de X-Men ’97, acho que precisamos de novos rostos para os mutantes da Marvel, né?

Quanto à despedida da Marvel da Fox, me perdoem, mas eu já tenho duas despedidas da Marvel da Fox: Elas se chamam X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e Logan.
Crítica/Review
Deadpool e Wolverine
Deadpool e Wolverine promete uma experiência de nostalgia e humor negro, o que entrega é uma ilusão e má execução de suas ambições, fazendo parecer que o frescor criativo do primeiro Deadpool foi enterrado junto com a falecida Fox.
PRÓS
- A presença de Hugh Jackman como Wolverine, mesmo que não traga novidades, ainda é um atrativo
- Uma sequência que faz alusão a videogames dos anos 90 e oferece, pelo menos, uma dose sutil de diversão
CONTRAS
- A falta de coesão e criatividade é evidente, com um roteiro que ignora a lógica interna e um humor que não funciona
- O filme falha em entregar a nostalgia e o humor prometidos, resultando em uma imitação pobre do frescor criativo do primeiro Deadpool
- O visual e a fotografia são desinteressantes, tornando o filme visualmente desapontante e pouco inspirador
- A nostalgia do filme se baseia em referências mal exploradas, que acabam resultando em sequências empobrecidas e sem impacto devido à direção fraca
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