No ano de 2014 o diretor/roteirista James Gunn até então conhecido como roteirista dos dois filmes live action de Scooby-Doo e roteirista de A Madrugada dos Mortos lançou o primeiro Guardiões da Galáxia, o filme foi um marco para o Universo Cinematográfico Marvel se tornando um sucesso instantâneo e refinando a fórmula de fazer filmes do estúdio e que se mantém até hoje. É interessante notar a grandeza da influência do primeiro Guardiões quando as medidas criativas que o estúdio toma quando uma de suas franquias está “indo mal” é tentar tornar a franquia o mais próximo possível de um Guardiões da Galáxia. Aconteceu com Thor que abandonou o tom sombrio e Shakespeariano por uma ópera espacial cômica , Homem-Formiga que abandonou as influências de filmes assalto por uma viagem a um reino alienígena com civilizações ala Star Wars e a vindoura sequência da Capitã Marvel que está seguindo o mesmo caminho. Essa influência retrata apenas como Gunn foi assertivo naquele primeiro filme honrando clássicos como Star Wars e Flash Gordon ao mesmo tempo que o filme bebia de uma rebeldia oitentista com uma trilha sonora marcante, humor escrachado e personagens distintos, cheios de personalidade em uma história com muito coração, uma verdadeira aventura espacial tragicômica.
E então alguns anos se passaram, sequências vieram e James Gunn continuou se aventurando no gênero de super-heróis entregando obras sensacionais como O Esquadrão Suicida (2021) e a série Pacificador, e agora se prepara para comandar um reboot do Superman nas telonas. Com a grande mente por trás da franquia prestes a mudar de Marvel para DC, era inevitável que Guardiões da Galáxia Vol. 3 não fosse sobre outra coisa se não o fim da jornada do grupo nas telas e aqui estamos nós.
O filme abre com uma versão acústica de Creep do Radiohead acompanhando o personagem Rocket Racoon (Bradley Cooper) e enquanto a cena avança pelo novo QG dos Guardiões, o tom é estabelecido. Há uma melancolia no ar acompanhando nossos queridos personagens e principalmente Rocket que aqui é o centro desse encerramento de trilogia. O roteiro escrito por Gunn se aprofunda no melancólico passado do personagem enquanto guia os Guardiões em uma jornada muito mais pessoal do que as outras vistas em filmes anteriores. Novamente o humor é usado para desenvolver os personagens seja nos diálogos ácidos ou nas interações costumeiras que nos transportam para próximo das situações estabelecidas pela história, mas dessa vez o humor também está alinhado para suavizar a carga dramática que é bastante forte em tudo que tange o passado de Rocket.
Dessa forma a narrativa do filme é dividida em duas, a situação presente e os flashbacks que servem para expandir mais do que conhecíamos sobre o personagem e desenvolvê-lo. Nessa tarefa, o roteiro do Gunn não se esquece de aprofundar o resto dos Guardiões entregando momentos de destaque para cada um e pequenas jornadas que encontram sua conclusão. Dessa forma podemos notar um amadurecimento do diretor/roteirista como um contador de histórias que tem total controle sobre a narrativa e em como pretende explorar seus personagens, o controle é notável até mesmo em pequenas informações que são estabelecidas no início para depois serem usadas novamente na conclusão do filme como por exemplo, as botas anti-gravidades de Rocky ou a informação a respeito do avô de Peter Quill.
Também existe um refinamento na direção de Gunn que encontra uma melhoria considerável principalmente nas cenas de ação. Planos sequências, câmera na mão e close-ups acompanham uma ação mais visceral tornando momentos presentes ainda no primeiro ato e também no clímax, memoráveis dentro da franquia. Não se limitando apenas na ação, a direção também extrai momentos singelos dos atores e até mesmo das criaturas digitais presentes no filme. Toda a emoção é sentida formando um alinhamento satisfatório entre a direção e o roteiro.
Ainda no âmbito técnico, o escopo da produção é ainda maior que as anteriores, apresentando cenários criativos e cheios de personalidade. Começando pelo novo QG dos Guardiões, LugarNenhum e indo para lugares como a ContraTerra onde o trabalho de maquiagem e efeitos práticos é extremamente satisfatório de se ver em tela. Os elogios ao design de produção e o design de criaturas é indispensável. Até mesmo o figurino é um destaque em especial aos novos uniformes dos Guardiões que remete muito aos quadrinhos encontrando um equilíbrio com a linguagem estabelecidas pelos primeiros filmes.
Mas nem tudo são flores, existem aspectos em que o filme comete muitos deslizes. O primeiro deles está presente na trilha sonora que é um elemento tão icônico da franquia, o Awesome Mix da vez não recebe o mesmo aproveitamento dos filmes anteriores. As letras das canções escolhidas a dedo por Gunn ainda possuem uma função narrativa, porém o aproveitamento delas não dura em tela com exceção de Creep que abre o longa. Não há muito respiro entre uma cena musical ou outra e em cada momento que uma nova música surge em tela, o único aproveitamento parece ser a antecipação para um refrão. É uma tentativa de querer ditar o tom de uma cena, mas que logo cai por terra para dar atenção a outra coisa. O mesmo vale para a trilha sonora original de John Murphy que abandona o tema icônico dos Guardiões para criar novos acordes que parecem saídos diretamente do Esquadrão Suicida.
Um outro aspecto em que o filme erra é o Adam Warlock interpretado por Will Poulter que apesar de visualmente estar interessante não tem muita função ou espaço dentro da história apresentada. Seu aproveitamento é minúsculo no andamento do filme e a cada nova aparição recorrente o desinteresse pelo personagem se torna maior até encontrar o ápice. É o clássico caso do personagem inserido mais pensando na importância para o futuro das produções da Marvel do que para um filme específico como este.
Apesar desses deslizes, o filme nunca se perde completamente encontrando sua força também no elenco que exala a energia melancólica de uma despedida. A entrega de Chris Pratt (Senhor das Estrelas) e Bradley Cooper (Rocket) são de longe o maior destaque, principalmente o segundo em um trabalho de voz formidável, a carga dramática está nos ombros dos dois atores que conseguem entregá-la sem também perder a veia cômica. Da mesma forma, Dave Bautista, Karen Gillan, Pom Klementieff e Zoe Saldana entregam a química costumeira entre seus personagens estando mais confortáveis do que nunca e explorando novas facetas sem descaracterizar o que já foi estabelecido anteriormente. Saldana, por exemplo, entrega uma nova versão da Gamora que mesmo sendo radicalmente diferente ainda tem a essência da personagem mantida ainda que os caminhos que ela tenha seguido sejam distantes o que traz um desenvolvimento satisfatório para sua jornada. Uma adição inédita no elenco é o antagonista Alto Evolucionário interpretado com firmeza Chukwudi Iwuji que possui um background interessante e que cumpre seu papel narrativo ainda que a atuação, em alguns momentos, caia no caricato e exagerado.
Mas o que torna tão especial esse terceiro volume? Afinal, a fadiga dos filmes de super-herói é tão comentada atualmente, em especial da própria Marvel, e o debate “Filme de Arte” vs “Blockbuster” ainda é um tópico popular. O que importa de verdade em mais um lançamento da Marvel? Bem, ao meu ver estamos diante de um projeto que possui uma personalidade própria o que é uma raridade no tópico cinema de estúdio. Nesse filme há uma identidade e isso não se reflete apenas em estilo ou técnica, também se reflete em uma paixão que está presente no texto. Do Senhor das Estrelas até mesmo ao Groot, eles são personagens vivos e são personagens muito próximos de nós. Há muita humanidade neles e há um desenvolvimento ao longo desses três filmes que é muito honesto e tangível. Esses três filmes, essa jornada do Gunn na Marvel, é autêntica e é cheia de paixão. É exatamente assim que a arte deve ser, mesmo um filme despretensioso e cheio de explosão.
Em meio há tanta ameaça de exaustão de um gênero, tudo que o público precisa é isso, autenticidade e uma jornada com coração….
Guardiões da Galáxia Vol. 3 é imperfeito, mas é especial. É uma bagunça de um criador bastante autêntico e de uma equipe cheia de paixão. Somos todos Groot!
Nota: 8,0/10










