
O exercício mais interessante durante uma análise de temporada de série é observar como a perspectiva sobre alguns episódios podem mudar no encaixe da temporada como um todo e, é claro, em comparação a outros episódios. Esse é o caso do primeiro episódio de Mulher-Hulk: Defensora de Heróis, analisado aqui. Não que ele seja de todo mal, é um episódio que introduz bem sua protagonista, mas é inegável o ritmo rápido e atrapalhado que o episódio toma e também mostra que a série ainda não havia encontrado o seu “caminho”. O mesmo destino aconteceu com episódios posteriores como “Direito Super-Humano” e “O povo contra Emil Blonsky”, os respectivos segundos e terceiros episódios. Capítulos bastante irregulares e apressados. No entanto, a partir de “Não é Magia de Verdade?”, o quarto episódio da série, as coisas começaram a mudar.
Mulher-Hulk encerra as séries de TV da Fase 4 não apenas como a introdução de uma nova personagem e também um dos projetos mais experimentais do estúdio, o que já é característico dessa nova fase. Sem entrar muito nos méritos, é importante um Universo Compartilhado como o da Marvel depois do impacto cultural que foi a conclusão da Saga do Infinito, tentar coisas novas. Nem sempre o resultado de experimentações será positivo, mas de todo modo é louvável. Trazer novas perspectivas, mudar rumos, testar novos conceitos, estruturas e modelos de produção é o que manterá a marca renovada por um longo tempo. Com muito alívio, Mulher-Hulk é um dos acertos nessa onda de produções e talvez o maior quando se trata das séries do estúdio.
Os maiores méritos da série estão na showrunner e também roteirista, Jessica Gao e na estrela da série, Tatiana Maslany. Começando por Gao que firma a série como uma sitcom e consegue mesclar os dilemas de um super-herói, modernizando a já conhecida “jornada do herói”, humanizando sua protagonista em meio a situações “cotidianas”, raramente explorada em outras produções desse tipo, e ainda fazendo uso de metalinguagem de maneira memorável. Essa metalinguagem insere como ameaça para Jennifer Walters/Mulher-Hulk, os próprios haters da série. A esfera mais tóxica que se pode encontrar no mundo da cultura pop que há anos aparece ao redor de franquias famosas como Star Wars e o próprio universo de quadrinhos. Esse uso de quebra de quarta parede em tempo real, é algo que será lembrado por um bom tempo e mostra a sagacidade e olhar atual do texto de Gao que conseguiu, em tempo real, retratar os “ferrenhos haters” da série dentro da própria série. Além disso, a quebra de quarta parede (semelhante a produções como Fleabag) inevitavelmente satiriza produções anteriores da Marvel e ainda faz críticas pontuais a elas e ao gênero como um todo.
O próximo maior mérito da produção é Tatiana Maslany que definitivamente fará parte da tradição de excelentes escolhas de elenco do Universo Cinematográfico da Marvel. Sua atuação carrega um carisma absurdo e entrega o timing cômico que seu personagem necessita. Maslany também consegue trazer a fragilidade e humanidade que o texto pede, tornando Jennifer uma das personagens mais memoráveis desse recente panteão do universo Marvel. O trabalho de voz e a captura de movimentos de sua contraparte de CGI como Mulher-Hulk também está bom, embora seja inevitável não reconhecer os problemas gráficos gritantes principalmente nos primeiros episódios. Conforme a temporada foi caminhando, o CGI se aprimorou, mas ainda sim, oscilava entre os bons e maus momentos. Outro ponto memorável ainda sobre Maslany foi sua química de “atravessar a tela” com Charlie Cox como Matt Murdock/Demolidor, tornando um deleite o penúltimo episódio.
Sobre o elenco de apoio, temos as participações especiais já esperadas como Benedict Wong como Wong que embora seja divertida, não marca muito e também não compromete. O mesmo vale para o “veterano desse universo” Mark Ruffalo como Hulk que nunca teve espaço para brilhar ou fazer algo de marcante com seu personagem e aqui não é diferente. A química entre Ruffalo e Maslany até funciona e talvez, mais espaço de tela tivesse favorecido um pouco mais essa dinâmica assim como a participação de Ruffalo. Tim Roth retorna ao papel de Emil Blonsky/ Abominável dentro de uma veia cômica, seu papel tem bastante espaço durante a série e o timing de humor funciona. Charlie Cox “retorna ao lar” como Demolidor, certamente a participação mais aguardada da série inteira e entrega tudo o que prometeu. Mais a vontade do que nunca no papel, sua dinâmica com Maslany comentada acima, é um dos pontos fortes e a faceta mais “leve” do personagem funciona bem e o reinsere de maneira interessante nesse universo. Fica a vontade de acompanhar mais do futuro do Demolidor no MCU…

O resto do elenco enriquece bastante o mundo da sitcom. Ginger Gonzaga entrega o suficiente em seu papel como Nikki e a amizade com Jennifer é crível, o mesmo vale para Josh Segarra como Pug embora seja mais apagado. Jameela Jamil como Titânia está extremamente divertida e funciona bem como a “antagonista recorrente” da Mulher-Hulk. Por último, Renee Elise Goldsberry como Amelia tem pouco espaço, mas consegue ser uma boa adição ao núcleo de “advogada” da protagonista. Destaques também para John Bass como Todd, vulgo incel de fandom, e Griffin Matthews como Luke Jacobson, o estilista do mundo da moda dos super-heróis. Por último e não muito importante, Patty Guggenheim como Madisynn, uma divertida e memorável personagem, talvez a melhor adição cômica da série.
Diante de acertos, os problemas da série se provaram serem os técnicos. A computação gráfica mal acabada tão comentada por uma internet polarizada nos últimos meses, realmente compromete em muitos momentos, em especial quando a montagem precisa cortar momentos decisivos para mascarar a qualidade ruim do CGI como na cena final do primeiro episódio. Isso é um reflexo não apenas da pandemia, mas também do modelo de tantas produções ao mesmo tempo que a Disney tem promovido com seu universo Marvel. Embora exista uma melhoria principalmente nos episódios finais, o CGI tinha a obrigação de ser melhor, afinal, a protagonista dependia dele.
Enfrentando uma internet polarizada, Mulher-Hulk provou ser um acerto na onda de experimentações da nova fase da Marvel. O texto hábil e a metalinguagem são a maior força da produção junto com a atuação carismática de Tatiana Maslany. Embora enfrente problemas técnicos, a Marvel finalmente entrega uma série coerente com sua proposta do início ao fim. Não estamos mais diante de um “filme expandido”, o erro de outras séries do estúdio, mas de uma sitcom de fato. Um seriado de TV coerente e bem realizado.

Ranking dos episódios do pior até o melhor:
– 1×1: Uma Quantidade Normal de Raiva
– 1×3: O Povo contra Emil Blonsky
– 1×2: Direito Super-Humano
– 1x:5 Malvadinha, Verdinha e de Calça Apertadinha
– 1×7: O Retiro
– 1×6: Apenas Jen
– 1×8: Coaxando e Saltando
– 1×9: De quem é essa série? ( Com destaque para a homenagem divertidíssima da série dos anos 70 do Hulk e a sensacional quebra da quarta parede, a melhor já feita em uma produção de super-herói)
Nota geral da temporada: 7,5/10










