
Mussum, o Filmis, segue as tradicionais convenções de uma cinebiografia. Ele apresenta um recorte histórico da vida do icônico artista e é inteiramente construído para celebrar seu legado, mas para mim, o que difere este filme de outras cinebiografias é que há um pouco mais de substância aqui.
O filme está interessado em uma humanização de seu protagonista, Antônio Carlos, o “Mussum”, muito maior do que filmes como Elvis de Baz Luhrmann ou Bohemian Rhapsody. De modo que a principal unidade dramática, que conecta os diferentes períodos temporais do filme e serve como um “coração”, é a relação de Antônio Carlos com sua mãe, Malvina. É nessa relação que reside a maior força do filme para mim, e é onde o roteiro desenvolve melhor a humanidade já mencionada de seu personagem. A relação de Antônio e Malvina perpassa por três períodos diferentes, o primeiro onde a segunda personagem é interpretada pela atriz Cacau Protásio que brilha na entrega do humor, mas também protagoniza uma tocante cena onde seu filho a ensina a escrever o próprio nome. É um momento tão singelo que a direção de Sílvio Guindane consegue entregar impregnando doçura na tela e servindo como o principal momento que irá nos conectar em definitivo com a relação dos dois personagens. No segundo momento, temos Malvina sendo interpretada por Neusa Borges e é onde a pontual interação entre os dois leva a um ápice dramático que, apesar do roteiro pisar um pouco no melodrama, tanto a atuação dela quanto de Aílton Graça entregam um dos momentos mais poderosos e memoráveis dessa experiência.
Ainda sobre essa divisão temporal que o filme propõe, temos Yuri Marçal interpretando Antônio Carlos na sua juventude e Aílton Graça mais tarde. Ambos estão impecáveis. É até difícil escolher qual dos dois núcleos é o mais interessante, com o primeiro, nós vemos o início da vida artística do personagem, sua vida no samba e a crescente de sua banda no cenário carioca. É o momento em que o humor e o uso das músicas mais funcionam dentro do filme. Uma celebração a todo esse cenário artístico brasileiro, nossa própria cultura pop, com figuras como Cartola, Jorge Ben Jor e Elza Soares fazendo aparições. Do outro lado, temos Aílton Graça se entregando à figura de humorista e a aurora de sua alcunha de Muçum. As sequências com o Grande Otelo e a com Chico Anysio mostrando o timing cômico impecável de Aílton rendem os momentos de humor mais inspirados do longa. A coisa só melhora quando temos o mergulho de Muçum já no periodo com Os Trapalhões, e a escolha de elenco com Gero Camilo como Didi, Felipe Rocha como Dedé e Gustavo Nader como Zacarias foi muito bem pensada. Os quatro possuem uma química divertidíssima em tela, além de estarem perfeitamente caracterizados nos respectivos papéis.
Dessa forma, o recorte histórico que o filme propõe sobre a vida artística de Antônio Carlos é bastante eficiente, e sem dúvidas, o ponto alto da experiência. No entanto, nessa busca pela humanização que é o foco do filme, alguns pontos ainda ficam devendo como a superficialidade acerca do vício de Antônio Carlos com álcool, por exemplo.
Voltemos à relação de Antônio Carlos com sua mãe e como essa força motriz consegue ser maior que toda a construção nostálgica que o filme inevitavelmente adentra, é algo que nos mostra o poder da atuação de Aílton Graça e Neusa Borges. Mussum tem sim esse legado enorme na cultura do nosso país, mas o que o filme quer nos mostrar é humanidade. Porque humanidade é o que faz a arte ser o que é, é ela que dá nuances à arte e a torna inspiradora. E em tempos que discutimos sobre uma inteligência artificial poder fazer arte ou não, seja ela visual ou escrita, a mensagem da humanidade através da arte é mais uma vez reforçada. A arte salva Antônio Carlos e salva também as crianças da periferia que ele inspira no ato final.
Mussum, o Filmis é isso. Tem todo o divertido recorte histórico que se espera de um filme desses, mas também tem algo a mais para oferecer.
Crítica/Review
Mussum, o Filmis - Crítica
Mussum, o Filmis é uma cinebiografia com o foco claro de humanizar seu protagonista. A celebração de seu legado e o recorte histórico ainda estão presentes, eficientes por sinal, mas há muito mais substância nessa experiência do que isso. Aílton Graça entrega um excelente timing cômico e dramaticidade no papel principal.
PRÓS
- Destaque para a humanização do protagonista, Antônio Carlos, e a força da relação com sua mãe.
- As atuações, especialmente de Aílton Graça, Neusa Borges, e do elenco de Os Trapalhões.
CONTRAS
- Superficialidade na abordagem do vício de Antônio Carlos com álcool.
- Alguns momentos melodramáticos no enredo.










