Antes de começar, é válido deixar uma crítica a forma como o título “The Batman” foi traduzido no Brasil. Uma tradução que parecia bastante simples a princípio, mas que a equipe brasileira da Warner optou por não fazê-lo. Ao invés do filme se intitular como “O Batman” foi apenas traduzido como “Batman”, o exato mesmo título do filme de 89 de Tim Burton. Ironicamente a série animada de 2004 com o mesmo nome em inglês foi traduzida de forma correta na época. Após assistir o filme, o título faz todo o sentido. Tudo gira em torno do personagem, seu protagonismo é o coração e a força do longa, então… “ O Batman ” é um título que traduz exatamente o que é o filme e faz falta quando os créditos iniciais sobem. Como forma de justiça, o título da minha análise a seguir se manterá como deveria ter sido traduzido. Agora, vamos ao texto de fato:
Ao longo de todos esses anos acompanhando filmes de super-herói é comum ouvir comentários como “me senti lendo um quadrinho ao assistir esse filme” ou… “esse filme parece uma Graphic Novel do diretor x” nunca senti nada parecido, talvez o mais próximo disso tenha sido em Homem-Aranha 2 do Sam Raimi e ainda sim havia muitas particularidades do diretor dentro do filme. Dessa vez, no entanto, a história é diferente. Durante as 2hrs e 56 minutos do filme a sensação é de ler uma Graphic Novel, experiências semelhantes ao ler um Vitória Sombria, Longo dias das Bruxas (um das inspirações para o filme) ou até exemplos inferiores como Batman: Silêncio. Nesse aspecto, o filme é praticamente impecável e é notável o quanto o diretor Matt Reeves conhece e entende do personagem. As inspirações não acabam somente em quadrinhos, elas se estendem para a aclamada série animada do Batman dos anos 90 e pincela até elementos dos games da franquia Arkham. Essa colagem de inspirações em obras contendo o personagem se mesclam com filmes noir como Seven (algumas cenas soam como uma homenagem clara ao filme), Chinatown e Zodíaco. Da mesma forma que Coringa soava como um… “E se Martin Scorsese dirigisse um filme do Coringa? ”, esse filme soa como “ E se David Fincher dirigisse o Batman? ”, a diferença é que esse longa consegue ser mais original e marcante para o gênero do que o Coringa de Todd Phillips.
Ainda nos minutos iniciais, uma chuva absurda começa a cair sobre Gotham City – uma chuva que nunca parece ter fim – e, acompanhamos o Batsinal iluminar os céus noturnos da cidade. Uma narração em off do Batman de Robert Pattinson tem início e é impossível não se empolgar com o filme e não imergir completamente nele. Muitos méritos para o design de produção que é incrível, as cores, a cidade… estamos diante da melhor Gotham City dos cinemas. Ela une o fantasioso e sombrio dos quadrinhos com uma cidade da vida real e o resultado é perfeito. Gotham City neste filme é um personagem, não apenas uma cidade. Mérito da absurda cinematografia de Greig Fraser (Duna). Unido ao deleite visual, temos a direção absurda de Matt Reeves que é a melhor de sua carreira simplesmente. Não há como contra argumentar. As sequências de ação são limpas com o mínimo de cortes possíveis, as brincadeiras com desfoque e as aberrações cromáticas são muito bem realizadas trazendo toda a atmosfera que a obra pede. O resultado é fantástico. É o longa mais visualmente interessante e arrebatador do personagem desde Batman: O Retorno.
Se juntando ao design de produção, a direção e a fotografia… temos aquilo que completa toda a absurda atmosfera do longa: a poderosa trilha sonora de Michael Giacchino. Ela é poderosa, agoniante, sombria, sensual e misteriosa. Cada faixa é memorável sendo o maior destaque o tema da Mulher-Gato (Zoe Kravitz) que em poucos acordes define exatamente tudo o que a personagem é. Já o tema do personagem título… é um novo clássico. Um tema tão marcante quanto o de Hans Zimmers e Danny Elfman.
Completando as qualidades do filme está o elenco magistralmente escolhido. Robert Pattinson como Bruce Wayne/Batman é o maior destaque do filme e diferente de longas anteriores onde o personagem era eclipsado por seus antagonistas, aqui ele é o destaque. A atuação de Pattinson é contida, silenciosa, mas cheia de detalhes Em especial há uma cena em que ele olha para uma criança que acaba de perder seu pai e de forma discreta, entendemos exatamente o que o personagem sentiu ao ver a situação tão familiar. O Homem Morcego já teve muitas versões no cinema ao longo do tempo e de início parece não haver mais camadas para explorarem, porém, é trazido uma nova ótica. Além de ser um Batman mais humano e vulnerável do que nunca, ele é um detetive e toda jornada ao longo do filme é de um amadurecimento nunca antes visto. Surpreendentemente existe muito pouco do Bruce Wayne no filme ou será que há muito do Bruce Wayne de verdade? porque o vemos com o traje 90 % do filme. O Cavaleiro das Trevas de Pattinson é completo e não seria exagero em dizer que ele é definitivo.
Outro destaque é Zoe Kravitz como Mulher-Gato que serve como uma coprotagonista do filme. O roteiro explora diversas facetas já conhecidas da personagem e pavimenta uma evolução sólida ao longo da progressão da história. A atuação de Kravitz brilha em seus momentos vulneráveis, sensuais e principalmente nos mais explosivos. Sua química com Pattinson é simplesmente incrível.
Jeffrey Wright como Gordon é outro excepcional no elenco. Sua presença em tela é grande e a parceria/amizade com o Cavaleiro das Trevas é tão bem realizada que não deixa devendo em nada Gary Oldman e Christian Bale. Seu Gordon é um homem comum, incorruptível e que confia muito em seu amigo mascarado. Andy Serkis como Alfred por outro lado tem uma presença menor, mas que não deixa de ser marcante. Seu potencial dramático é sólido, ainda que merecia um pouco mais de tempo de tela, porém, serve a seu propósito. Temos aqui um Alfred muito mais endurecido e vulnerável. Destaque para uma cena extremamente sensível dele e de Bruce próximo ao terço final.
Chegamos aos antagonistas do longa que felizmente também merecem elogios. Colin Farrell como o Pinguim é sensacional. O ator simplesmente desaparece no papel. Seu personagem é grotesco, mas ao mesmo tempo carismático, além de estar inserido em um contexto riquíssimo. John Turturro como Carmine Falcone esbanja carisma e ameaça, seu papel é importante na trama e sua atuação faz jus ao sustentar isso. Por fim, o principal antagonista do longa, Paul Dano como Edward Nashton/O Charada é uma mescla de assassino do Zodíaco com o John Doe interpretado por Kevin Spacey em Seven. Em um momento específico, ele parece exatamente emular os trejeitos deste último. Assim como também ocorre em Seven, a aparição do vilão é contida e se concentra no terço final do longa. Mesmo com as referências óbvias, Paul Dano consegue trazer algo de original em sua atuação explosiva que conforme avança na história vai se aproximando ainda mais do que o personagem é na sua mídia original.
The Batman é um projeto cheio de paixão. Algo que já era evidenciado com as entrevistas de Matt Reeves, mas assistindo o longa essa impressão apenas se eleva. É um projeto dele, um projeto pessoal. Um filme que respira muitas influências seja de outros filmes (como citado acima), livros e os próprios quadrinhos do Batman. O personagem até mesmo anda como um cowboy ao melhor estilo Clint Eastwood e o som de seus passos acompanha preenchendo a atmosfera. Muito além dessas influências, o filme tem coração. Seu roteiro é bem escrito, roteiro este que Reeves também assinou ao lado de Peter Craig. O elenco é muito bem escolhido, a trilha sonora, a cinematografia e a direção. É um conjunto de acertos que fica difícil encontrar um único ponto negativo. Eles existem? Sim. Em determinado momento o filme perde um pouco o ritmo e existem algumas facilitações no terceiro ato, mas são detalhes mínimos que não compromete o todo.
Não seria exagero algum afirmar que esse filme é um impacto, um respiro, algo de novo dentro do gênero… ele é desafiador, ousado e humano. Cheio de personalidade. É um filme poderoso. Resta saber como o gênero irá lidar com o peso desse filme daqui pra frente….
The Batman é a obra prima de Matt Reeves. Um marco no gênero de super-heróis como Christopher Nolan fez um dia. Um filme maduro, cheio de personalidade e visual, com uma história eficiente e repleto de boas inspirações. É cinema… cinema puro!
Nota: 10/10











