Quando Os Vingadores (2012) se provou um impacto financeiro e cultural, a fórmula estabelecida pelo diretor e roteirista Joss Whedon virou modelo a ser replicado em praticamente todas as produções seguintes do MCU. De lá até Thunderbolts, hoje , em 2025, ela se manteve firme — passando por filmes, séries e animações dentro do mesmo universo. Mas no que consiste essa fórmula? Basicamente, em um humor autodepreciativo com tiradas rápidas entre os personagens, uma dinâmica de equipe marcada por sarcasmo carismático e uma metalinguagem constante que brinca com o aspecto ridículo da fantasia super-heroica transposta para o “mundo real”. É como se os personagens estivessem sempre cientes do quão absurda é a própria existência deles e, ao invés de levarem isso a sério, resolvessem rir junto com o público. Esse tom aparece em momentos como as infames piadinhas sobre o uniforme do Capitão América, um recurso cômico que escancara a auto ironia do próprio universo.

Ainda assim, nos filmes dos Vingadores dirigidos por Whedon, havia um equilíbrio. Mesmo zombando de nomes, uniformes e poses heroicas, ainda se percebia uma crença sincera na fantasia que estava sendo oferecida. O riso não necessariamente anulava o encantamento. Esse equilíbrio, no entanto, nem sempre foi bem dosado nas obras que vieram depois — mesmo nas maiores, como Guerra Infinita e Ultimato. Quando você assiste a um filme como Eternos, por exemplo, e vê os personagens debochando de um nome como “uni-mente”, um superpoder que permite a equipe de deuses se unirem em uma simbiose para enfrentar uma ameaça maior, bate uma estranheza. Esse filme quer mesmo que a gente leve essa fantasia a sério? Se o próprio texto trata a ideia como nomes de super-heróis ou superpoderes como algo idiota, por que eu, como espectador, deveria aceitar de peito aberto um vilão que quer destruir a Terra para dar à luz um gigante cósmico? Sem falar em outras produções como Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa fazendo tiradas com o nome Otto Octavius. Se toda fantasia precisa ser imediatamente ironizada, se cada nome ou poder soa ridículo até para os próprios personagens, a suspensão da descrença se quebra e, junto com ela, se perde a capacidade de acreditar que aquilo importa de verdade.
Replicar a fórmula de Whedon ou manter aquela padronização estética cinzenta dos Irmãos Russo acabou virando uma espécie de amarra criativa, o tipo de coisa que, com o tempo, desgasta o potencial dos filmes do estúdio de ousarem mais, de brincarem com novas possibilidades narrativas e visuais. Só que, assistindo a Thunderbolts, fui surpreendido. A fórmula de Whedon, mais uma vez reciclada, funcionou. E não só funcionou, ganhou camadas novas.

O filme é centrado em um grupo de personagens coadjuvantes, superindivíduos relegados a missões secretas, sujas, quase descartáveis. Gente quebrada, desiludida, que mal acredita em si mesma — e, principalmente, marcada por um vazio latente, como Yelena (Florence Pugh) e Bob (Lewis Pullman). Nesse contexto de fracassados tentando fazer o mínimo para continuar existindo, a comédia autodepreciativa típica da fórmula Whedon encontra um lugar mais orgânico. O humor surge do reconhecimento de que esses personagens são figuras pequenas e ridículas em um mundo povoado pelo legado dos Vingadores e, justamente por isso, essa autopercepção melancólica acaba funcionando dentro do todo. O charme de Thunderbolts* é ser honesto consigo mesmo, abraçar as fórmulas, mas as inserindo a serviço de uma história marcada pela melancolia e pelo desejo de superação. É um dos raros casos, dentro do histórico desse universo cinematográfico, em que tudo parece estar no lugar certo.
Depois de muito tempo, não estamos diante apenas de mais uma experiência de estádio — aquele tipo de catarse coletiva ao ver um ator reprisando um papel que interpretou há 20 anos. Aqui, existe algo sincero a ser dito. O estado melancólico em que Yelena Belova se encontra, nossa protagonista, remete aos melhores filmes de super-herói, como Homem-Aranha 2 ou O Cavaleiro das Trevas. Essa melancolia se estende como um espelho para o antagonista Bob, o Sentinela, e também orbita ao redor dos demais personagens, que ajudam a desenvolver e discutir esse tema de forma coletiva.

A morbidez é trabalhada, principalmente, pela cinematografia — seja pela trilha sonora discreta, pelos figurinos enegrecidos ou pela iluminação baixa que domina os cenários. Tudo vai escurecendo até culminar no clímax, cinzento e desesperançoso. Nem sempre, no entanto, a fotografia e a iluminação funcionam para mim. Ainda há aquela amarra estética de querer parecer com Capitão América e o Soldado Invernal, por exemplo, o que limita um pouco as possibilidades visuais. Em alguns momentos, a escuridão tem a possibilidade de ser usada com mais intenção plástica e poética, como faz Matt Reeves em The Batman, ou Andrew Dominik em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, onde a escuridão é não só um recurso dramático, mas uma beleza em si. Ou até como os irmãos Coen tratam o vazio e o silêncio em paisagens e interiores. Thunderbolts* até flerta com isso, mas às vezes acaba apenas confuso, como na sequência da fuga da equipe das instalações da Valentina — um momento em que a falta de luz mais atrapalha do que serve à narrativa. Por outro lado, há momentos em que essa escuridão encontra propósito e potência. A sequência em que Yelena se transforma numa sombra viva durante uma luta coreografada em um corredor, ou o momento em que o Sentinela se converte no Vazio, uma penumbra sinistra encarnada, funcionam. Nesses momentos, o filme encontra uma expressividade visual que dialoga com o que ele realmente quer discutir, e não apenas com a imagem superficial que deseja projetar.
O grande charme de Thunderbolts está na sinceridade com que abraça sua natureza autocontida. Com exceção de Bucky, que funciona como um elo complementar, somos apresentados — ou reapresentados — aos demais personagens pelos olhos de Yelena. Os close-ups e planos fechados em seu olhar mórbido e alienado nos alinham a um estado emocional que guia a narrativa e se espelha nos demais personagens, que funcionam como extensões, variações ou distorções desse mesmo estado. Suas relações com os demais se desenvolvem rapidamente, quase instintivamente, em meio à ação. E quando o clímax chega, o filme evita a estrutura tradicional dos blockbusters de equipe, como Guardiões da Galáxia ou Esquadrão Suicida, onde personagens improváveis acabam se tornando tão grandiosos que enfrentam ameaças cósmicas de igual para igual. Thunderbolts não cai nessa tentação. Ele é honesto o bastante para não forçar sua escala, seus anti-heróis jamais têm chances reais de enfrentar fisicamente o Sentinela ou o Vazio. A ameaça que ele traz para Nova York não é feita de explosões, nem de prédios desabando, mas sim do colapso interno que ecoa o vazio existencial que Yelena carrega. Nesse ponto, o filme se destaca dentro do universo cinematográfico da Marvel justamente por ser mais fiel às escolhas formais e temáticas que propõe desde o início. Como dito antes, tudo parece estar no lugar certo.

Ainda é um blockbuster explosivo, divertido, com ritmo, mas suas decisões narrativas e estéticas conferem um charme particular. Todo filme é um produto de seu tempo, e Thunderbolts encontra seu lugar em uma época marcada pela morbidez e por uma sensação de vazio que, mais do que pano de fundo, é parte essencial da discussão. Alguns podem até considerar certas resoluções do clímax um tanto didáticas e torcer o nariz para o melodrama. Mas, do meu ponto de vista, o melodrama é justamente os alicerces do gênero de super-heróis, seja na Marvel, na DC ou em qualquer outra mitologia moderna desse tipo. Thunderbolts, mais uma vez, brinca com a linguagem desse universo, autoreferencial e irônico, mas é justamente por permanecer fiel às emoções exaltadas que fundem esse imaginário que o filme conquista seu charme: ele conduz a fantasia com a seriedade emocional que ela exige, e é isso que o faz brilhar.

Isso não quer dizer que o filme seja infalível. Sempre que tenta articular algum comentário político, por exemplo, tropeça na mesma cautela excessiva que prejudicava o último filme do Capitão América: tudo soa seguro demais, limpo demais, como se tivesse sido projetado para não incomodar ninguém. As aspirações políticas de Bucky, ou a forma como Valentina manipula os bastidores do poder, permanecem entre os aspectos mais frágeis da narrativa, não por falta de espaço, mas talvez por não conseguirem, ou até por não poderem, alcançar o mesmo grau de sinceridade com o qual os demais temas são tratados. Ainda assim, Thunderbolts permanece como um raro gesto de vulnerabilidade dentro de um universo cada vez mais blindado e padronizado.
Crítica/Review
Thunderbolts*
Thunderbolts* se destaca com algo raro: sinceridade. Menor em escala, maior em significado.
PRÓS
- O humor autodepreciativo funciona organicamente, complementando a melancolia dos personagens.
- A sinceridade emocional do filme o diferencia, com uma narrativa que se apoia em temas profundos e não apenas em ação.
- A fotografia e a iluminação, embora com alguns deslizes, criam momentos visuais expressivos que reforçam o tom do filme.
CONTRAS
- A tentativa de comentário político no filme fica superficial e excessivamente segura.
- A estética cinza e a influência de outros filmes da Marvel limitam algumas possibilidades visuais.
Thunderbolts* OFERTAS
Coletamos os melhores preços das nossas lojas parceiras

Ingresso.com









