
Desde o anúncio até a estreia, Batman: O Cruzado Encapuzado vem sofrendo comparações inevitáveis com a icônica Batman: A Série Animada, que foi ao ar de 1992 até 1995. As comparações surgiram principalmente pelo envolvimento de Bruce Timm (um dos principais responsáveis pela série mencionada e outras célebres como Liga da Justiça e Liga da Justiça: Sem Limites) e pelo estilo visual que, mais uma vez, faz alusão ao trabalho icônico. Quando se trata de séries animadas do Batman, a comparação sempre será feita com o padrão de qualidade estabelecido pela clássica entrada de 1992.
Mas é verdade também que o legado do Batman nessa mídia gerou outros excelentes exemplares, como The Batman (2004 a 2008), por exemplo, que foi a primeira série a narrar a jornada do herói de forma cronológica, mostrando-o no início de carreira, enfrentando seus primeiros vilões, unindo-se a Batgirl e Robin, e eventualmente formando a Liga da Justiça. Embora se afastasse do estilo noir e da profundidade dramática da Série Animada, The Batman se destacava pela ação empolgante e pela belíssima animação, fruto da icônica identidade dos produtores de As Aventuras de Jackie Chan (lembra dessa?). Essa série, com sua abordagem mais frenética e estilizada, alcançou uma qualidade que só aumentou ao longo das temporadas. Mais tarde, também tivemos Batman: Bravos e Destemidos (2008 a 2011), que se distanciou tanto da Série Animada quanto de The Batman, abraçando uma homenagem vibrante à era de ouro dos quadrinhos do personagem e fases posteriores mais bem-humoradas, como a Liga da Justiça Internacional de J.M. DeMatteis e até a série live action de Batman e Robin estrelada por Adam West e Burt Ward. Com uma proposta mais aventuresca, às vezes cômica e psicodélica, Batman: Bravos e Destemidos ofereceu um retrato refrescante ao mesmo tempo que manteve o padrão de qualidade estabelecido lá trás.

Estabeleci essa rápida contextualização para mostrar como a responsabilidade de criar uma nova série televisiva do Batman é imensa. Em Batman: O Cruzado Encapuzado, Bruce Timm, junto com uma invejável equipe de produtores e roteiristas como J.J. Abrams (Star Trek 2009, Star Wars: O Despertar da Força), Matt Reeves (Cloverfield, The Batman) e Greg Rucka (conhecido pela fase brilhante nos quadrinhos Gotham DPGC: No Cumprimento do Dever), ambienta o Cavaleiro das Trevas na década de 1940, período em que o personagem viveu seus primeiros anos nas histórias em quadrinhos, e busca explorar sua mitologia nascendo em meio a personagens como Barbara Gordon, Comissário Gordon, Renee Montoya e Harvey Dent.
Essa ambientação é um prato cheio para o estilo noir inerente ao personagem título ser o principal chamariz da série, bem como para a expectativa de ver coadjuvantes do seu universo em versões repaginadas. Entretanto, é aqui que residem as maiores falhas da série: a própria animação. A fluidez com que os personagens interagem entre si ou participam de sequências de ação se perde em planos praticamente estáticos e pouco inventivos. Em várias cenas, a animação parece sofrer de uma rigidez que impede qualquer tipo de movimento natural, tornando as lutas e diálogos menos impactantes. Essa falta de dinamismo reflete diretamente na qualidade da animação e passa um aspecto “barato”. As expressões faciais dos personagens também são limitadas, muitas vezes não capturando a emoção ou intensidade necessárias para as cenas mais dramáticas.
Se temos essa sensação de estar assistindo a um seriado “desanimado” (perdoem o trocadilho), ela também compromete a ambientação. Falta estilismo, uma identidade na composição de cenários, no trabalho das cores dos personagens, nas paisagens urbanas e figurinos, e até no uso de iluminação e outros recursos que imprimam essa sensação do noir. A série não consegue capturar a atmosfera sombria e opressiva que é marca registrada do gênero noir.

Além disso, a paleta de cores utilizada é muitas vezes monótona e sem contraste, o que diminui a profundidade visual e a separação clara entre personagens e cenários. A falta de detalhes nos fundos das cenas, como elementos de construção, texturas e objetos que preencham o ambiente, faz com que a cidade pareça vazia e artificial. Um cenário bem detalhado e vibrante é essencial para criar a imersão necessária em uma série de animação. A animação, por si só, é uma mídia onde a criatividade é seu principal alicerce para nos impressionar visualmente, e é nesse aspecto que O Cruzado Encapuzado mais falha. Qualquer comparação com as cenas vistas em Batman: A Série Animada, que também é noir, é brutal. Em Batman: A Série Animada, cada frame parece meticulosamente planejado para replicar a atmosfera noir, com sombras profundas, iluminação dramática e detalhes minuciosos que enriquecem cada cena enquanto aqui temos o oposto. A diferença na execução visual é gritante e lamentável para uma produção de streaming lançada em 2024. Até mesmo o curta-metragem Strange Apparitions (também de Bruce Timm) consegue, em poucos minutos, traduzir uma identidade visual quarentista e noir que convence e envolve. Em contraste, O Cruzado Encapuzado resulta em muitos momentos em uma experiência visualmente sem vida e pouco envolvente. É uma pena.

Embora esses problemas constantemente impeçam o seriado de atingir seu potencial, por outro lado, Batman: O Cruzado Encapuzado ainda consegue se sustentar em sua narrativa e criatividade na repaginação de alguns personagens. O Batman, por exemplo, nunca esteve tão frio e distante de sua própria humanidade. Isso é ressaltado em sua presença ao longo da série, afinal, em todos os episódios sua participação é um pouco mais comedida, remetendo ao aproveitamento do Batman de Michael Keaton nos filmes de Tim Burton. E, é claro, ressalto a dublagem espetacular de Márcio Seixas na versão brasileira. Seu retorno ao personagem é carregado de um pouco mais de frieza e desumanidade, fazendo o Cavaleiro das Trevas soar como um ser humano praticamente esgotado de qualquer emoção. A forma como Márcio alterna seu tom de voz entre Bruce e o Morcego é excelente para distinguir aquela falsa “calmaria” que Bruce Wayne tenta vender de sua besta interior quando fala como Vigilante.
A narrativa escolhe centrar o protagonismo da série no núcleo mais mundano da cidade. Bárbara Gordon, por exemplo, aqui reimaginada como advogada, tem sua relação com Harvey Dent como um dos principais alicerces para toda a jornada dos personagens, culminando no clímax onde animação consegue brilhar. A temporada de dez episódios estebelce uma narrativa contínua no formato já conhecido de “vilão da semana”, e esses episódios, de sua maneira, agregam ao todo. Seja explorando a evolução constante do Batman na dinâmica com Alfred Pennyworth ou desenvolvendo a corrupção inerente à cidade no núcleo policial do Comissário Gordon e Montoya, com Flass e Bullock, a série lembra o tempo todo da parte mais suja daquela cidade. No entanto, tenho que destacar que, apesar de gostar da reimaginação de alguns vilões icônicos, como a Arlequina, que ganha um background interessantíssimo e mergulha profundamente na vilania, outros não me cativaram tanto. A versão feminina do Pinguim, por exemplo, resulta talvez no pior e menos inspirado episódio da série, e ironicamente, abre o seriado. O caso de Nocturna, uma personagem interessante que desapareceu dos quadrinhos e brilhou no período pré-Crise, também não funcionou tanto, apesar de o episódio “Noturno” (o oitavo), em que ela surge, oferecer um excelente passo para o desenvolvimento da humanidade do Batman. Ao longo da temporada, a série ainda apresenta dinâmicas interessantes, como o episódio do Fantasma Fidalgo, antagonista clássico da Sociedade da Justiça, no sexto episódio, e uma roupagem socialite e mimada da Mulher-Gato no episódio “O Beijo da Mulher-Gato”, o terceiro da temporada.

Como dito antes, é no arco dos dois últimos episódios, “O Assassino que Existe em Mim” e “Noite Selvagem”, que Batman: O Cruzado Encapuzado realmente brilha, superando suas deficiências técnicas. A narrativa desses episódios é satisfatória, especialmente na transformação de Harvey Dent em Duas-Caras e sua subsequente redenção. Esta transformação não é apenas um ponto culminante da trama, mas também um reflexo da dualidade que a série explorou com Dent ao longo de sua execução. A forma como o personagem retratado, tanto em sua ascensão quanto em sua queda, é um exemplo da complexidade emocional que a série consegue alcançar, apesar das limitações visuais.Além disso, esses episódios finais servem como o clímax para a jornada do Batman, permitindo que ele finalmente encontre sua humanidade. Este desenvolvimento é crucial, pois alinha a série com a proposta de explorar essa faceta mais profunda e introspectiva do Cavaleiro das Trevas. O confronto final e a resolução das histórias dos personagens fornecem uma sensação satisfatória, e me peguei refletindo na animação que, mesmo com suas falhas, entrega uma experiência satisfatória no final que remete aos bons tempos de Batman: A Série Animada.

Bruce Timm e sua equipe demonstram que, mesmo com essas limitações, ainda há espaço para o Cavaleiro das Trevas brilhar na mídia que nos presenteou com algumas das suas melhores versões fora dos quadrinhos em Batman: O Cruzado Encapuzado. No entanto, é essencial lembrar, principalmente nas inevitáveis sequências que essa temporada ganhará, que a qualidade técnica é extremamente crucial para definir a atmosfera e o tom. Resta aguardar para ver se a série conseguirá encontrar esse equilíbrio no futuro.
Crítica/Review
Batman: O Cruzado Encapuzado
Batman: O Cruzado Encapuzado falha na estética noir e na técnica da animação, mas se destaca na narrativa que explora a humanidade do herói e de seus coadjuvantes.
PRÓS
- A narrativa
- O desenvolvimento dos personagens
- A temática da série
CONTRAS
- A baixa qualidade gráfica da animação
- Pouco aproveitamento da ambientação
- A falta de personalidade no traço e estética da animação
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