Desde sua estreia no gênero de super-heróis com a trilogia Guardiões da Galáxia, James Gunn deixou claro seu fascínio por narrativas que exploram a redenção de figuras marginalizadas. Em Guardiões da Galáxia, ele deu vida a uma família disfuncional formada por desajustados rejeitados pela sociedade, construindo suas histórias a partir de passados trágicos que servem para humanizá-los. Além disso, o humor autodepreciativo, frequentemente flertando com o besteirol, tornou-se uma assinatura de seu estilo. Com O Esquadrão Suicida e a série derivada Pacificador, Gunn encontrou a liberdade de se afastar das restrições de uma classificação indicativa mais familiar. Nessas produções, ele reutilizou suas fórmulas narrativas e temáticas, agora incrementadas por uma violência mais visceral e um subtexto mais sujo, aspectos antes apenas sugeridos na trilogia dos Guardiões.

Analisando sua nova produção, onde assina como roteirista, Comando das Criaturas, é difícil ignorar a sensação de desgaste e padronização. A série segue os mesmos caminhos já trilhados, reciclando temáticas e batidas narrativas sem trazer um frescor a um universo que já estamos familiarizados.

Desta vez, o elenco de personagens inclui monstros clássicos, como Frankenstein, a Noiva de Frankenstein e Nina, uma versão feminina e mais dócil do Monstro da Lagoa Negra, além de figuras como Doutor Fósforos (um vilão do Batman), G.I. Robot (um robô com paixão por eliminar nazistas) e Doninha, um dos personagens mais excêntricos apresentados em O Esquadrão Suicida. No entanto, Comando das Criaturas acaba sendo apenas uma história “clássica” da Força Tarefa-X, seguindo o formato já estabelecido por filmes, animações, games e gibis anteriores.
A série animada não se permite explorar esteticamente o potencial de horror de seus personagens monstruosos. Não existe intenção mínima de abraçar o gótico dos personagens de Mary Shelley no universo DC ou em brincar com um choque estético entre essas figuras tão distintas. Em vez disso, a produção se mantém no padrão convencional ao qual já estamos acostumados. A direção de Sam Liu e Matt Peters é protocolar, guiando a narrativa escrita por Gunn, sem brincar ou ousar muito com o que está estabelecido pelo texto.

Em termos visuais, a série tem momentos cinematográficos pontuais, especialmente nas cenas mais brutais que compõem os clímax de alguns episódios. No entanto, a fluidez e a técnica da animação seguem um padrão genérico, semelhante ao de outros filmes animados recentes da DC. Apesar de apresentar um traço diferente, a movimentação, os cenários e as interações pouco se destacam, deixando a sensação (mais uma vez) de uma produção que opta pela segurança em vez da experimentação.
O que distancia Comando das Criaturas de seus antecessores e evidencia o problema na padronização temática de Gunn está na execução. A narrativa principal, que gira em torno da missão do grupo, é reduzida a um fiapo enquanto flashbacks se intercalam com a trama de maneira desordenada. Inicialmente, esses flashbacks parecem ser integrados à história, como quando a Noiva revisita o castelo onde foi criada, com memórias despertando a partir desse reencontro, ou quando Doutor Fósforos se depara com situações que ecoam sua própria experiência familiar. Contudo, em outros momentos, eles se tornam meros interruptores da narrativa principal, deslocando o foco para uma tentativa de aprofundamento de personagens em detrimento da progressão da história. Exemplos disso incluem os flashbacks de Eric Frankenstein e Doninha.

O caso de G.I. Robot é o mais gritante: seu flashback serve para tornar seu sacrifício mais empático, já que a narrativa até então não conseguiu estabelecer um envolvimento dramático suficiente para sustentar esse momento. A trama, que envolve proteger uma princesa, lidar com uma missão de assassinato equivocada e, eventualmente, impedir esse assassinato, se vê fragmentada por flashbacks que ora estão organicamente inseridos, ora interrompem o ritmo. Essa oscilação explicita a fraqueza estrutural que inevitavelmente compromete a série.
Outro ponto relevante é como, mesmo com uma classificação indicativa mais elevada, permitindo cenas de violência explícita, incluindo crianças vitimizadas, a série não consegue amadurecer o suficiente para desafiar verdadeiramente o espectador. Protagonistas mais ambíguos ou até mesmo vilanescos (me referido dentro da equipe principal, então, Frankstein não conta) promovendo ações questionáveis poderiam ter enriquecido a narrativa, mas, em vez disso, seguimos novamente um grupo marginalizado com passados trágicos e um potencial para o bem. Mesmo em momentos de maior tensão moral, como quando Fósforos e a Noiva forçam Nina a se sacrificar, a narrativa rapidamente retrocede, com a Noiva verbalizando que Nina foi a única amiga que teve durante toda sua existência.

Embora a classificação indicativa seja mais alta, falta ousadia para explorar personagens mais moralmente complexos ou narrativas menos convencionais. Essa padronização faz com que a série evite qualquer risco, preferindo manter-se no terreno seguro de produções que, apesar de seu potencial, não encontram uma maturidade substancial ou uma proposta verdadeiramente provocativa. Comento isso porque produções de super-heróis, mesmo lidando com personagens originados de GIBIS, têm o potencial de abordar temas mais maduros e desafiadores, mesmo com um público massificado como alvo. E nem é necessário ter uma narrativa excessivamente complexa por trás; a complexidade, às vezes, vem da simplicidade. Exemplos disso são filmes como Logan, Homem-Aranha 2 e outros.
Comando das Criaturas, à primeira vista, parece flertar com essa possibilidade, mas, no fim, revela-se apenas mais um produto na longa fila de obras padronizadas que evita sair do lugar-comum. Dessa vez, as ferramentas nas mãos dos responsáveis não foram suficientes para fazer essa nova narrativa sobre redenção de desajustados brilhar.
Crítica/Review
Comando das Criaturas
Em Comando das Criaturas, James Gunn repete suas fórmulas, mas com uma execução pior e uma estética que pouco consegue cativar ou divertir.
PRÓS
- Sequências de ação com forte apelo cinematográfico
CONTRAS
- Falta de um envolvimento dramático mais bem desenvolvido entre os personagens
- Narrativa prejudicada pelo uso desordenado dos flashbacks
- Execução temática falha









