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Home Originais AN Especiais

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 

Gabriel Lefinski por Gabriel Lefinski
3 semanas atrás
em Especiais, Originais AN, Séries, TV e Streaming
Tempo de Leitura:10 mins
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Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
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Foi bem interessante acompanhar semana a semana o desenrolar da terceira temporada de Euphoria. Ainda melhor foi atestar que no fim, ela se consolidou como uma das produções mais ambiciosas da televisão recente. Desde o começo, Sam Levinson construiu a identidade da série pela imagem: luzes neon, câmera inquieta, montagem frenética. Nos melhores momentos das temporadas anteriores, isso tudo descambava para sequências oníricas, e você parava de observar os personagens pra sentir que estava dentro da cabeça deles. Aquele universo pop e colorido parecia brotar de dentro das emoções, impulsos e ansiedades deles. Era uma série sobre juventude, mas sobretudo uma experiência sensorial.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX / DIVULGAÇÃO)

Entretanto, para a nova temporada, o tom mudou. Em uma entrevista para o podcast Filmmaker Toolkit, Levinson discorreu sobre as intenções dele e do diretor de fotografia, Marcell Rév: 

“ Na terceira temporada, queríamos adotar uma linguagem mais objetiva, diferente do olhar profundamente subjetivo que guiava a câmera nas duas primeiras. A ideia era recuar um pouco, usar planos mais abertos e enxergar os personagens como parte de um mundo mais amplo, e não apenas através de suas próprias perspectivas.” 

Esse é o primeiro rompimento da terceira temporada em relação às anteriores. Ao mesmo tempo em que a série se reinventa visualmente, ela também se posiciona de maneira um pouco mais ambiciosa. Filmada inteiramente em película e combinando negativos de 35mm e 65mm, Euphoria seguiu na contramão de uma indústria dominada por câmeras digitais extremamente nítidas e imagens processadas até perderem qualquer sensação de materialidade ou do real. Com isso, Levinson e Marcell Rév encontraram através dessas imagens a presença física do mundo que precisavam.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX / DIVULGAÇÃO)

Embora o 65mm seja frequentemente associado à ideia de maior resolução, seu verdadeiro impacto está mais na maneira como ele registra o espaço. O negativo maior produz gradações tonais um pouco mais suaves proporcionando uma riqueza de detalhes impressionante e uma sensação de profundidade difícil de reproduzir digitalmente. O resultado é uma imagem que parece menos processada e mais observada, como se os personagens existissem concretamente diante dos planos, uma imagem quase documental. Não é coincidência que muitos dos filmes mais celebrados visualmente da história tenham sido produzidos nesse formato. Obras como Lawrence da Árabia, 2001: Uma Odisséia no Espaço, Ben-Hur e até o “recente”, Os Oito Odiados utilizam formatos de grande escala para transformar paisagens, arquitetura e corpos em elementos tão importantes quanto os próprios personagens. No caso de Euphoria, os personagens deixaram de ocupar o centro absoluto da imagem. Pela primeira vez, o espaço ao redor deles passa a importar tanto quanto eles próprios. O mundo recupera peso e dimensão para atingir o propósito das novas temáticas. 

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 

Justamente nesse ponto, a influência do faroeste se torna tão decisiva no ano final de Euphoria. Vejo que muitas leituras superficiais tendem a encarar o faroeste como mera questão estética que reside nos símbolos mais óbvios como paisagem aberta e árida, ou a iconografia clássica americana. Aqui, ainda que possua tudo isso, a questão é um pouco mais estrutural do que meramente visual. O gênero sempre foi obcecado pela relação entre liberdade e responsabilidade mesmo quando a desconstrução de faroestes como os de Sérgio Leone e Corbucci influenciaram o faroeste americano. Suas histórias frequentemente acompanhavam indivíduos lançados em territórios onde as instituições ainda não haviam imposto regras definitivas. Nesses filmes, a famosa fronteira árida não era apenas geográfica; era moral também.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
(HBO MAX/ DIVULGAÇÃO)

O salto temporal de cinco anos coloca os personagens exatamente nesse lugar. O colégio desapareceu. As famílias perderam influência e não há mais rede de apoio. As amizades já não oferecem a mesma estabilidade e a adolescência definitivamente terminou. Pela primeira vez, Rue (Zendaya), Jules (Hunter Schafer), Nate (Jacob Elordi), Cassie (Sydney Sweeney), Maddy (Alexa Demie) precisam construir suas identidades sem a proteção das estruturas que os definiam. Eles entram em uma fronteira existencial. Essa ideia dialoga diretamente com a transformação visual promovida pelo 65mm. Os vastos espaços registrados pela película não servem apenas para criar imagens bonitas (que vemos aos montes nessa temporada). Eles transformam os personagens em figuras pequenas diante da imensidão do mundo. Como nos filmes de John Ford, a paisagem passa a ser argumento e comunicar a fragilidade humana diante de algo maior. No caso, a fragilidade de um jovem adulto frente a dura realidade da vida.

Ao mesmo tempo, existe uma relação profunda entre essa nova linguagem visual e a ambiguidade moral que sempre definiu Euphoria. Grande parte das críticas dirigidas à série ao longo dos anos que ganhou nova intensidade com o pavor que parte do público pareceu sentir nessa temporada, gira em torno da representação de sexo, drogas, nudez e autodestruição. Acompanhar a série semanalmente e as reações nas redes sociais, foi observar legiões de espectadores exigindo, indireta ou diretamente, que a obra deixe clara sua posição moral diante dessas imagens. Soa como uma expectativa crescente de que toda representação venha acompanhada de uma interpretação correta, de uma lição explícita ou de uma condenação verbalizada (e olha que isso aparece sempre na figura de Lexi interpretada por Maude Apatow). Como é de esperar, na medida do possível, Euphoria evita a tendência de mastigar suas intenções. Afinal, a série não está operando segundo uma visão pedagógica da arte. Ela não parece interessada em transformar experiências humanas contraditórias em exemplos morais organizados. Pelo contrário. Sua força surge justamente da capacidade de colocar fascínio e destruição coexistindo dentro de um mesmo enquadramento.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX/ DIVULGAÇÃO )

Essa contradição produz desconforto porque rompe uma expectativa contemporânea segundo a qual a forma estética, em suas imagens e até texto, deveria refletir automaticamente um julgamento moral. Levinson parece interessado em algo mais próximo da tradição de cineastas como Martin Scorsese, Stanley Kubrick ou Brian De Palma, realizadores que frequentemente exploravam obsessão, violência, desejo e decadência sem fornecer respostas simples sobre como o público deveria reagir. É chover no molhado, mas parece ser necessário reforçar que a presença desses elementos em cena não constitui automaticamente uma confissão pessoal do autor nem um endosso moral de seus personagens. Reduzir qualquer interesse artístico por temas incômodos à lógica de que “tudo é fetiche do autor” significa abandonar a análise da obra em favor da especulação sobre a vida privada de quem a criou. É uma leitura que transforma a crítica em um pobre julgamento psicológico, ignorando que a arte frequentemente existe justamente para examinar impulsos, fantasias, contradições e comportamentos que seriam impossíveis ou indesejáveis fora dela. Levada às últimas consequências, essa perspectiva reduziria séculos de produção artística a um exercício de diagnóstico moral. Basta pensar na arte antes do cinema, paixão destrutiva que Emily Brontë retrata em O Morro dos Ventos Uivantes seria tratada como uma confissão pessoal, os jogos de desejo e manipulação escritos por Vladimir Nabokov em Lolita poderia ser lido como uma declaração de valores pessoais, e o assassino, fanático e niilista de Fiódor Dostoiésvki em Crime e Castigo como um porta-voz de suas crenças. O resultado seria uma compreensão muito pequena do que essas obras efetivamente são.

Nesse sentido, Cassie (Sydney Sweeney) se torna uma das personagens mais importantes da série. Uma leitura superficial enxerga apenas sua sexualização. Mas a temporada parece interessada em algo mais complexo. Seu corpo funciona como o território onde se manifestam suas carências emocionais, sua necessidade de validação, seu desejo de pertencimento e sua incapacidade de construir uma identidade independente do olhar dos outros, o que a leva diretamente para o Onlyfans. A câmera registra sua beleza, sensualidade, mas também registra sua vulnerabilidade. Ela não é apresentada como símbolo de empoderamento nem como vítima absoluta. Em seu encerramento, ela permanece contraditória. Permanece humana. Na resolução da personagem, nos despedimos de Cassie em um plano aberto que a abandona em sua gigantesca e solitária casa que soa como uma casa de bonecas, e ela, como mais uma adição àquelas figuras objetificadas e inanimadas.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX/ DIVULGAÇÃO )

Essa recusa em simplificar os personagens é exatamente o que aproxima Euphoria de faroestes como Rastros de Ódio ou Era Uma vez no Oeste. Esses filmes com o tempo abandonaram o heroísmo clássico para retratar indivíduos moralmente ambíguos vivendo em um mundo onde os velhos valores estavam desaparecendo. A fronteira já não era um lugar de conquista, apenas de desencanto. Antes mesmo de acabarem em suas jornadas pessoais de vingança, os protagonistas frequentemente buscavam significado em uma realidade que parecia incapaz de oferecê-lo.

 Como era de se esperar, a protagonista Rue (Zendaya) ocupa essa posição. Ela se torna uma espécie de pistoleira contemporânea. Cruza estradas, transita entre ambientes criminosos, circula por territórios que não lhe pertencem e busca desesperadamente um lugar onde possa existir. Mas diferente de um Django, Ethan Edwards ou Harmônica, sua jornada não é de expansão, conquista ou vingança. Funciona muito mais como um desgaste. Diferentemente dos heróis clássicos do gênero, ela não encontra redenção através da travessia da fronteira. Ela é consumida por ela. Nos faroestes clássicos, muitas vezes o herói sobrevivia para testemunhar o resultado do duelo. Aqui, Levinson inverte a lógica. Rue não vive para ver a resolução. Sua ausência se torna justamente a razão pela qual o duelo acontece.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX/ DIVULGAÇÃO )

No conflito do episódio final, o gênero clássico do cinema americano, novamente, se prova mais do que influência, e sim, o que estou discutindo aqui, estrutura narrativa. O conflito entre Ali (Colman Domingo) e Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje), ambos personagens gigantescos e maiores que a vida nessa temporada, assume a forma de um duelo clássico de pistoleiros. Além de reproduzir os códigos tradicionais do gênero, a cena representa um confronto entre duas visões de mundo incompatíveis. Alamo encarna a lógica da força, da sobrevivência e do poder exercido sem responsabilidade moral. Ali, mesmo longe da fé, representa a possibilidade de reconstrução moral e de redenção. Como nos grandes duelos dos bang-bang, o que está em jogo não é apenas quem vence. Também está em jogo qual visão de mundo prevalece após o corpo tombar no chão. 

Quando observamos todos esses elementos juntos, fica claro que a fotografia, a encenação, a moralidade ambígua e a influência do faroeste estão servindo ao mesmo propósito. A película devolve materialidade ao mundo. O faroeste devolve dimensão mítica à jornada dos personagens. E a ambiguidade moral devolve complexidade à representação da experiência humana. Não são escolhas isoladas, mas ferramentas utilizadas para elevar conflitos íntimos a algo próximo de uma tragédia moderna.

Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX / DIVULGAÇÃO )

É justamente por isso que algumas das imagens mais importantes da temporada parecem carregar um peso simbólico incomum para a série. Cenas como Rue envolta em trevas dentro da igreja, buscando algum tipo de redenção que talvez nunca alcance, a aproximam de uma figura quase bíblica, perdida entre culpa, fé e desejo de salvação. De maneira oposta a essa grandiosidade, mais tarde, a morte de Rue é filmada com delicadeza, transformando a tragédia pessoal da personagem que acompanhamos desde o início em um adeus silencioso e profundamente humano. 

Por isso a terceira temporada de Euphoria parece tão diferente das anteriores. Ela não é mais apenas uma série sobre adolescentes problemáticos e prova isso se transformando em uma meditação sobre a passagem para a vida adulta. Uma obra que utiliza a escala épica do cinema clássico para examinar questões profundamente humanas e construir um retrato melancólico da juventude contemporânea. Uma geração que herdou liberdade para escolher quem deseja ser, mas poucas certezas sobre como viver com essas escolhas. Assim como nós, os personagens possuem mais possibilidades do que nunca, mas também enfrentam um mundo marcado pela solidão, pela instabilidade, comparação e pela ausência de referências capazes de oferecer a direção certa.

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Como a temporada final de Euphoria elevou sua ambição artística 
( HBO MAX / DIVULGAÇÃO )

Talvez seja o que tornou tão fascinante acompanhar essa temporada semanalmente. Pelas imagens, pelos rumos da narrativa, e também, pelas reações que ela provocava. A cada episódio parecia surgir a velha necessidade de transformar ambiguidades em certezas, contradições em respostas fáceis e personagens complexos em exemplos morais simples de catalogar. De certa forma, é fascinante como muito da recepção da série acabou refletindo o mesmo desconforto que ela retrata. O desconforto de ser um jovem adulto nesse mundo onde nem sempre existem respostas claras.

Entre desejo e destruição, entre fascínio e tragédia, é justamente nesse espaço de incerteza que Euphoria encontra sua forma mais madura, mais ambiciosa e talvez mais profundamente humana. Uma baita temporada! 

Tags: EuphoriaHBOHBO MaxSydney SweeneyZendaya
Gabriel Lefinski

Gabriel Lefinski

Aspirante a roteirista e amante de cinema, games, gibis e Batman. Instagram: gabriel_lefinski

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