
Contém spoilers, xará!
Ao longo de uma temporada de dez episódios, X-Men ’97 provou ser uma das maiores surpresas do ano de 2024. Inicialmente, não havia muita expectativa além de encará-lo como um mero e inofensivo produto nostálgico, concebido pela Disney, Marvel Studios e Marvel Animation. Entretanto, a série mostrou ser muito mais do que isso. Em muitos aspectos, acredito que a continuação dos X-Men dos anos 90 e seus acertos nos fazem lembrar do potencial da animação ao adaptar super-herois, da mesma forma que a célebre Série Animada do Batman fez em seu tempo, assim como Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites e até mesmo o primeiro Aranhaverso.
Contudo, existe algo ainda mais profundo na natureza das histórias dos mutantes: a breguice. Os uniformes chamativos, o melodrama que permeia os romances e as interações entre a equipe, as frases dramáticas como os monólogos exagerados da Tempestade, e, claro, os conflitos de proporções épicas que agitam aquele mundo e rendem combates fluidos e memoráveis, parte desses elementos já foram adaptados para o cinema, mas sempre sacrificando seu potencial para buscar uma seriedade e estética morta, fria e desinteressante. Esta série, por outro lado, abraça esses elementos, mostrando a beleza da animação em contar uma história como essa. Com um traço atualizado que mescla o uso de 3D e 2D, a série consegue dar vida a toda a essência dos Filhos do Átomo. Sim, ainda existe seriedade e as mesmas temáticas, mas a estética brega e super-heroica que a equipe rende é explorada com classe ao longo dos dez episódios, na construção visual e textual. E esse talvez seja o maior mérito que a série alcança. Ela tem uma narrativa bem construída, capaz de nos envolver dramaticamente, mas nunca se esquece de suas origens e de seus exageros. X-Men ’97 nos lembra como os super-herois podem ser bregas, e é por isso que os amamos.

A narrativa concebida por Anthony Sellitti e Beau De Mayo, junto com seus roteiros, consegue nos situar bem como uma continuação direta da série original. Não há muita confusão nem necessidade de contextualização; tudo é resolvido de forma bem direta logo no primeiro episódio. A série funciona tanto para quem não assistiu à série original quanto para quem assistiu. Ao longo dos dez episódios, as temáticas envolvendo preconceito, desigualdade, paranoia e genocídio – inevitáveis quando se trata de mutantes – são exploradas, e os subtextos minoritários que se constroem durante esse discurso complementam o todo e nem sempre são tão sutis. O preconceito sempre será um tópico atemporal, e, embora a série se passe nos anos 90, ela conversa perfeitamente com os dias de hoje, pois esse é e sempre será o drama da humanidade.
A síntese perfeita disso está no episódio de Genosha – o ponto alto da temporada. Encontramos o paraíso mutante, o lugar onde mutantes podem viver com seus iguais, vemos a beleza daquela sociedade e eles se assumindo seus poderes sem medo. Vemos a beleza e o orgulho de ser um mutante, especialmente quando o baile ao som de “Happy Nation” começa. Estamos envolvidos dramaticamente com o triângulo amoroso de Vampira, Gambit e Magneto, ao mesmo tempo em que celebramos a beleza daquela sociedade se assumindo com orgulho. E então vem o choque, o horror causado pelo ataque dos sentinelas. Vemos o peso de cada morte, a visceralidade, a brutalidade, e a série não tem medo de nos mostrar isso. O choque atinge seu ápice com a morte de Gambit, e nos vemos completamente envolvidos e arrebatados por esse acontecimento. Esse é o ponto-chave da temporada, para onde todos os discursos trabalhados convergem, e as consequências se desenrolam até a conclusão da série, principalmente no que envolve Magneto, construindo a figura mais dúbia e profunda do seriado.

Se eu pudesse citar quatro pontos altos envolvendo os personagens ao longo da temporada, seriam: Vampira, Magneto, Ciclope e Jean. Vampira é multifacetada, diretamente ligada a todos os pontos importantes da temporada, e estamos com ela em todos os seus ápices dramáticos. O mesmo vale para Ciclope e Jean; toda sua narrativa, desde Cable até Madelyne Pryor, é melodramática da forma mais brega e divertida possível. A dramaticidade funciona, e é satisfatório ver a resolução do relacionamento dos dois, especialmente o ápice do núcleo familiar com Cable. E, novamente, retornando ao Magneto, ele é o antagonista perfeito para a série, tanto que o arco de três episódios “Tolerância é Extinção” encontra seu ponto alto no momento em que ele se torna a principal ameaça. É uma das raras vezes em que uma obra de super-heróis consegue verdadeiramente nos fazer sentir a dor do antagonista e compreender por completo sua atitude extrema, embora nos levantemos contra ela. Esse envolvimento com Magneto é uma das belezas narrativas que os episódios conseguem construir.
Apesar do destaque desses personagens, a série encontrou espaço para outros brilharem também. Gambit, por exemplo, diria que é o coração dessa temporada. Noturno e Wolverine ganham bons momentos, Morfo é um personagem que cresce também, e é claro, o professor Charles Xavier, cujo conflito com Magneto é central no último episódio, onde subtextos são evocados e vemos toda a complexidade do relacionamento de ambos os personagens.
Acho que nem tudo são elogios em X-Men ’97, no entanto, existem pontos em que a série não funciona. O núcleo envolvendo Roberto Da Costa, Mancha Solar, com Jubileu tem boas ideias, mas não é interessante o suficiente. Além disso, a dinâmica entre os dois não consegue atingir o potencial desejado. O arco duplo de episódios com Tempestade e Forge buscando reaver os poderes dela não funciona tão bem, na minha visão. O impacto da perda dos poderes de Ororo é o ponto alto do segundo episódio, impactante até. Porém, toda a jornada para recuperar os poderes perde força quando comparada às tramas grandiosas. O envolvimento dramático é sabotado por essa falta de tempo e pelo caminho apressado que essa narrativa acaba seguindo.
Por fim, Bastion, o antagonista principal que é revelado já na reta final da temporada, não tem a mesma força ou dimensão que Magneto. Ele funciona mais como uma força imparável, mas seu exército consegue ser mais ameaçador do que ele próprio em muitos momentos. A temática por trás das motivações do vilão está diretamente ligada a todas as discussões centrais da série, mas, diferente de Magneto, não conseguimos nos envolver tão bem com o vilão que aparece em um momento tardio. Por outro lado, ele rende bons momentos de ação e toda a amarração e relação com o Senhor Sinistro funciona bem, outro personagem que ganha bons momentos.

E é claro que a confiança e paixão também – nítida em como exploram todo esse universo e até inserem participações de outros herois da Marvel – deixam claro que isso não seria apenas um revival com início, meio e fim. O encerramento do episódio final constroi ganchos para pavimentar uma próxima temporada, e nos resta torcer para que a qualidade seja mantida.
Como abri o texto dessa forma, fecharei da mesma. O maior mérito de X-Men ’97’ está em nos relembrar o potencial que a animação tem de adaptar o mundo dos super-herois e, tratando-se dos mutantes, talvez tenham encontrado sua mídia definitiva. A qualidade e excelência encontradas aqui dificilmente serão superadas por alguma futura produção cinematográfica…
Crítica/Review
X-Men '97
X-Men '97 relembra o potencial da animação em adaptar super-heróis, incorporando a breguice, as cores, o melodrama e os monólogos exagerados daquele universo. Ao mesmo tempo, desenvolve suas temáticas atemporais, encontrando a forma ideal para adaptar os Filhos do Átomo.
PRÓS
- A mesclagem do 2D e 3D cria uma animação fluida e traços convincentes, entregando um estilo vintage e cartunesco memorável.
- A narrativa bem construída ao longo da temporada, trabalhando o melodrama e as nuances dos personagens.
- A rica exploração da temática sobre preconceito, de forma direta e subtextual.
CONTRAS
- Alguns núcleos de personagens funcionam menos que outros, como a dinâmica entre Jubileu e Mancha Solar, e Tempestade e Forge, ficando aquém do que é construído com outros personagens.
- O antagonista Bastion, com sua exploração mais simplória e menos inspirada, soa desconjuntado e sabota momentos chave da conclusão da temporada.









