Acho que sou um dos poucos que nasceram depois do ano 2000 que optaram por ler a obra de J. R. R. Tolkien antes de sequer bisbilhotar o filme. É lógico que pela grandeza da obra eu sabia de alguns conceitos básicos: sabia que envolvia um anel, e que o objetivo do pequeno camarada era destruí–lo; sabia também que o grupo que faria essa jornada era grande e que guerras ocorreriam.
Nunca desgostei de Tolkien, porém, como leitor de fantasia tive a oportunidade de adentrar esse mundo com obras mais atualizadas e contemporâneas. Meu primeiro livro de fantasia foi “A Guerra dos Tronos”, que decidi encarar depois de assistir as primeiras temporadas da série televisiva e que não tardei em ultrapassar após me viciar no universo de Gelo e Fogo. Além disso, outras obras acabaram entrando no meu caminho e o grande pai da literatura sempre esteve ocioso em minha estante.
Há uns dois anos resolvi dar uma chance e li “O Hobbit”, obra de fantasia que precede a trilogia de “O Senhor dos Anéis” e que gostei em todos os sentidos, apesar de sua maneira bobinha de solucionar os conflitos (o que não é nenhum problema, visto que era uma obra voltada para o público infantil).
Então, tendo gostado do primeiro livro, decidi começar a trilogia (lembrando, apesar de saber de pontos decisivos, eu não fazia a mínima ideia de como esta jornada seria). Muitos amigos meus e que compartilham do meu gosto me alertaram sobre a lentidão da narrativa do primeiro livro. Estou acostumado a narrativas grandes e cadenciadas e posso lhes afirmar que a minha experiência não poderia ter sido mais agradável.
A forma como o conflito se inicia e resvala nos acontecimentos de “O Hobbit”, trazendo uma trama que consegue unir momentos mais tensos e adultos com a típica comicidade dos pequenos aventureiros me foi muito aprazível. Há também discussões quanto a prosa e a inserção de capítulos desnecessários, como o de Tom Bombadil. Já adianto que, para mim, não foram problema em momento algum e que só atiçaram minha curiosidade quanto ao mundo.
O término do primeiro livro é surrealmente desesperador, e aqui encontro meu primeiro problema com a obra. Após o início frenético e dinâmico do segundo livro, é assustadora a necessidade que Tolkien tem em apelar quanto aos seus personagens principais. Muitos acontecimentos marcantes, incluindo o retorno de Gandalf, são esmorecidos por essa característica da Terra–média de que todo mundo vive esdruxulamente mais do que deveria. Ou que, no pior dos casos, como o de Gandalf, onde o personagem claramente não conseguiria sair de uma situação vivo e sai.
Há também os que não gostaram da divisão de perspectivas do segundo livro, outra discordância que tive com relação aos meus amigos. Confesso que o segundo livro foi devorado por mim, e em questão de dias já o tinha terminado. Apesar dos conflitos serem muito crivelmente retratados, comecei a notar problemas que ficaram evidentes no terceiro livro.
Quanto ao “Retorno do Rei”, posso afirmar que sua primeira parte (livro V) foi o suprassumo da escrita de qualidade e do melodrama cavalariano. O destino e as incumbências de cada personagem, aliadas ao conflito maior, foram de fato emocionantes de serem lidas. Já no que diz respeito à segunda parte (livro VI), aí o coração foi de base. Os últimos capítulos até o fim da sina de Frodo e Sam foram os capítulos que mais me imergiram ao longo da história, pois o desespero e a exaustão emanam através de uma prosa digna do que de fatio viria a ser uma excelente experiência cinematográfica.
Mais além disso, no finalzinho feliz, as páginas parecem voar com uma nova melancolia, pois cada um dos carismáticos personagens consegue nos marcar até mesmo nos últimos parágrafos, resultando em uma pintura que merece a memória da gente como um clássico. Então veio o apêndice, e vou te contar, não achei que seria tão grande! Como me interesso bastante por línguas, não tive pressa de ler cada um dos segmentos relacionados à cultura, escrita, idioma e cronologia por trás do mundo. É admirável ver a congruência linguística no cenário e como parte da história também fica guardadinha nas páginas (não esperava me deparar um prólogo de cada membro da Sociedade do Anel, com destaque para o lindíssimo conto de Aragorn e Arwen).
Como nem tudo são flores, também observei que Tolkien conclui de maneira muito apressada e questionável seus conflitos políticos (sério que uma linha de Regentes centenário nunca tentaria tomar o trono do seu maior reino?) e apesar de conflitos serem citados, a devastação de Sauron não faria com que todo mundo simplesmente se curvasse perante Elessar (quando os Lestenses se ajoelharam, juro que ri).
Como alguém que leu antes de assistir a adaptação, posso recomendar: vai com tudo que sua experiência será ainda mais impactante! Minha perspectiva é a de um leitor que começou quando todos os frutos da literatura fantástica já estavam amadurecidos. Não se engane, apesar de minhas críticas, fica a admiração por quem plantou as primeiras sementes deste incrível ramo literário.










