
A principal característica em comum nos projetos de Seth Rogen (como Superbad, This is The End e A Festa da Salsicha) está no uso do humor irreverente. O humor escatológico e o humor negro embalam suas tramas satirícas sendo o principal meio do entretenimento de seu cinema e também o principal meio para desenvolver seus personagens. Em resumo, podem chamar o cinema de Seth Rogen de cinema adolescente, mas não casa perfeitamente com a criação de Kevin Eastman e Peter Laird, também conhecido como As Tartarugas Ninja?
As Tartarugas Ninja: Caos Mutante tem tudo o que vocês provavelmente já viram nos últimos anos envolvendo esse tipo de filme. Referências a cultura nerd, músicas dos anos 80 e um vilão tentando exterminar a raça humana com um raio que será disparado nos céus. Mesmo com tudo isso ainda existe uma visão autoral e muita ousadia nesse projeto. A primeira coisa digna de nota é que esse é um projeto feito com muita paixão por parte de seus realizadores. Essa paixão está presente principalmente na equipe criativa, o diretor Jeff Lowe (do EXCELENTE A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas) dirige as cenas de uma maneira muito criativa na comédia e também na ação. O roteiro de Seth Rogen, Evan Goldberg, Dan Hernandez e Benji Samit consegue extrair o melhor da dinâmica entre os personagens, retratando os quatro “jabutis” como verdadeiros adolescentes fazendo jus ao conceito original. A história também repagina muitos elementos clássicos do cânone como o Mestre Splinter, April O’Neil e a origem dos quatro irmãos, mas tudo soa autêntico e atualizado de maneira respeitosa. Temas como família e aceitação, obviamente, já são esperados em uma história como essa e infelizmente são trabalhados de maneira menos sutil do que eu gostaria. Nesse ponto o filme é menos ousado e espertinho, optando mais pelo didatismo e a superficialidade.

Músicas pop a parte, a trilha sonora original composta por Trent Reznor e Atticus Ross que embala o universo adolescente do filme mescla eletrônico, Lo-Fi, Hip Hop, uso de piano e uso de sintetizadores que trazem uma atmosfera oitentista para o projeto. As faixas compostas pela dupla evocam os momentos mais dramáticos do projeto, empolgam e somam a atmosfera proposta. É uma junção de diversos elementos que tornam a experiência, novamente falando, atmosférica.
Entretanto, o maior acerto está nas escolhas visuais do filme e em sua estética. O trabalho remete bastante a animações recentes como Arcane, Homem-Aranha: Através do Aranhaverso e Gato de Botas: O Último Desejo, mesclando o uso de 2D com 3D na modelagem de seus personagens e experimentando escolhas ousadas em cenários e paleta de cores. Aqui, esse estilo de animação ousa mais uma vez. A modelagem dos personagens é menos realista em suas formas e feições enquanto os cenários buscam uma inspiração no grafite para compor Nova York, os esgotos e os demais cenários que surgem ao longo do filme. Existem quebras de padrões durante as cenas, experimentações visuais que trazem um ar mais sujo, urbano e caótico para aquele mundo. As sequências de ação possuem uma fluidez ímpar e preenchem os cenários vivos que também sofrem as consequências da ação. Nesses pontos vemos os acertos também da edição do filme que traz uma lógica mais live action de composição de cenas.

O filme, em resumo, ganha muitos pontos por estar alinhado ao tom certo e ter uma identidade própria. Essa identidade forte vinda da experimentação visual dialoga perfeitamente com as Tartarugas Ninja que vieram diretamente dos quadrinhos indie. Apesar de não ousar muito na narrativa, essa é a melhor versão desse universo retratado no cinema por simplesmente conseguir abraçar tantos elementos clássicos, repagina-los e ainda fazer jus à essência do que torna os quatro “jabutizinhos” tão irresistíveis para tantas gerações diferentes.
Crítica/Review
As Tartarugas Ninja: Caos Mutante
As Tartarugas Ninja: Caos Mutante está recheada do DNA adolescente de Seth Rogen. As dinâmicas entre personagens são irresistíveis e a estética experimental e urbana trazem uma visão autoral e indie para esse universo. É uma das experiências mais divertidas do ano.
PRÓS
- Elementos clássicos do cânone das Tartarugas Ninja são atualizados de maneira respeitosa, mantendo a autenticidade
- O filme tem uma identidade própria, alinhada ao tom certo, o que o torna uma versão bem-sucedida do universo das Tartarugas Ninja para o cinema
- As dinâmicas entre personagens e a comédia funcionam como a principal fonte de entretenimento do filme.
- O filme se destaca por suas escolhas visuais e estéticas, mesclando 2D com 3D na modelagem de personagens e explorando cenários ousados e paletas de cores. Além disso, faz diversas experimentações e quebra de padrões, o que enriquece o filme.
CONTRAS
- A abordagem dos temas de família e aceitação é menos sutil do que o desejado, optando mais pelo didatismo e superficialidade
- Apesar das escolhas visuais ousadas, a narrativa do filme ousa pouco, seguindo fórmulas mais convencionais











