Thor: Amor e Trovão – Crítica

1 mês atrás
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Em Thor: Ragnarok, o talentoso diretor Taika Waititi trouxe um novo respiro para o personagem Thor. Sua abordagem humorística que buscava inspiração nos Guardiões da Galáxia do James Gunn e outras óperas espaciais como Flash Gordon, despertou um novo interesse do grande público pelo personagem e isso trouxe frutos maravilhosos como o destaque sensacional e merecido que o personagem ganhou em Vingadores: Guerra Infinita. Thor retornou em Vingadores: Ultimato mais pesando para o humor escrachado do que qualquer coisa, mas sua conclusão se juntando aos Guardiões da Galáxia parecia um futuro promissor para o personagem. Agora, quase seis anos após Ragnarok, Thor retorna aos cinemas cheio de promessas. Hard rock, mais cores, duas sagas sensacionais dos quadrinhos sendo adaptadas dentro de um único filme, Guardiões da Galáxia, Christian Bale e Natalie Portman, nas mãos habilidosas do mesmo homem que entregou Ragnarok e tantos outros filmes sensacionais como Jojo Rabbit e O que Fazemos nas sombras, enfim, o que poderia dar errado?

Thor: Amor e Trovão, erra. Ele não simplesmente erra uma vez, ele erra duas vezes, ele erra três vezes. O filme é um banho de água fria. Um projeto que não apenas não atinge nenhum potencial, como também entrega uma das produções mais problemáticas da Marvel. Os problemas do filme podem se resumir a dois: Economia narrativa e excesso de humor sem timing.
O primeiro problema apressa a trama de um longa que necessitava por um desenvolvimento e aprofundamento nos dramas de seus principais personagens. Começando pelo promissor antagonista, Gorr (interpretado por Christian Bale). Sua origem e motivação rendem uma cena interessante, mas que implora por uma minutagem maior e aprofundamento. Não há tempo para simpatizar com o seu drama que é reduzido a duas cenas. Isso cria um enorme problema para um filme que anseia para ter um vilão empático que na conclusão do longa estará diretamente ligado ao arco do próprio Thor. Temos o primeiro desperdício. O segundo problema que a economia narrativa cria é o desenvolvimento de Jane (interpretada por Natalie Portman), a personagem tem uma trama interessantíssima que apesar de ser tratada com certa sensibilidade no filme, não é desenvolvida e é o mais resumida possível. Em um rápido resumo vemos que a personagem agora está com câncer e de repente já encontra a “solução temporária” para o problema. Temas que o filme estabelece como o drama de Jane e o de Gorr jamais deveriam ser tratados com tamanha simplicidade e somente colaboram para enfraquecer o conjunto da obra.

O segundo problema é o humor. Sim, a proposta do filme desde o inicio é ser uma aventura bem-humorada assim como seu anterior. Algumas piadas funcionam sim, como os “contos” do personagem Korg (interpretado pelo próprio Taika), principalmente sobre o resumo da jornada do Thor dentro do Universo Marvel e o resumo de seu relacionamento com Jane que através do humor consegue nos passar também o drama do desgaste de um romance. As piadas que envolvem as cabras (famoso meme do Youtube) funcionam no máximo duas vezes no filme, mas é um recurso que cansa rapidamente. É um humor exagerado que faz o filme ter um caráter de paródia, algo como Super-Herói: O Filme ou Todo Mundo em Pânico. Existem cenas bizarras como o Thor imitando o Van Damme , Valquíria com uma caixinha de som, Thor voando no Rompe-Tormentas como se fosse vassoura de bruxa, as armas do Thor com ciúmes dele… e por aí vai. Não há timing para esse humor sem noção e ele somente abobalha personagens e fazem momentos chaves serem arruinados. Por exemplo, temos Thor diante de seu povo cujo os filhos foram sequestrados uma noite antes e ao invés dele passar uma mensagem sábia e de segurança, ele se comporta como um verdadeiro trapalhão. Outro momento como esse é o próprio Thor se comunicando com as crianças e não sabendo como agir sem apavorar todo mundo com suas linhas de diálogos exageradamente cômicas. O problema é que paramos de enxergar os personagens como personagens e passamos a enxergá-los mais como frases cômicas prontas. Linhas de um texto. Isso quando um momento dramático não é arruinado por uma “gracinha” (algo já habitual no Universo Cinematográfico da Marvel, mas que aqui é amplificado em toda potência).

Em um filme como Jojo Rabbit, Taika Waititi soube equilibrar habilmente o drama, a comédia e o caráter de paródia. Aqui ele fracassa completamente. Quando o filme finalmente quer explorar o drama e os momentos mais melancólicas que isso rende, não parece se encaixar com as cenas escrachadas que acompanhamos anteriormente. Parecem dois filmes drasticamente diferentes. A própria resolução do clímax com Thor, Jane e Gorr é dramática, sensível, mas não parece em nada com o filme que acompanhamos até então. Os tons não conversam entre si, não existe uma união orgânica.

Também há um desperdício de elementos…. começando pelos Guardiões da Galáxia que como comentado antes, o caminho no MCU com Thor junto a equipe parecia um gigantesco gancho e que aqui já é resolvido em pouquíssimos minutos. O filme não aproveita a química de Chris Hemsworth e Chris Pratt e nem aproveita nenhum dos outros Guardiões que mal tem diálogos. A união rende somente uma ótima cena de ação com o Thor ao som de Welcome to the Jungle. Outro desperdício de elementos é a trilha sonora que não se encaixa tão bem quanto Led Zeppelin no primeiro, as músicas de Guns N Roses são encaixadas de maneira um tanto desconjuntadas (tirando Welcome to the Jungle) ao longo de algumas sequências, até mesmo Sweet Child of Mine é desperdiçada. Resta apenas elogiar o tema interessante que Michael Giacchino compôs para o filme e que também é esmagado pelas outras escolhas musicais mal encaixadas. Mas apontados tantos problemas, o filme tem méritos? Sim, tem. O visual é maior e melhor que Ragnarok, enchendo os olhos principalmente nas sequências que envolvem Zeus ou mais para o final com o elemento da Eternidade em tela. Os elementos visuais são quadrinhos puros, prestando muitos tributos a Steve Ditko. Um mérito do design de produção e também do figurino, todos os visuais do Thor ao longo do filme são sensacionais. Desde a jaqueta, regata e as botas (bem quadrinhos clássicos) até a armadura azul e amarela. O visual da Jane como A Poderosa Thor é uma das transposições mais belas já feitas de um personagem de quadrinho para a tela, o visual de Valquíria é incrível, e por aí vai.

O trabalho com as cores que o filme traz também é outro mérito principalmente em sequências que envolvem o Gorr quando as cores desaparecem da tela. É um deleite visual, uma das sequências mais impressionantes que a Marvel já entregou.

Outro mérito é o elenco que funciona muito bem, Christian Bale como Gorr é o destaque, apesar de seu personagem não ter a atenção que implorava pelo roteiro, Bale entrega muito na atuação. Ele extrai o pouquíssimo que o roteiro tem a oferecer, entregando uma performance que oscila entre o exagerado, o assustador e o empático. Esse é um dos maiores exemplos do que um bom ator consegue fazer com um roteiro fraco. Natalie Portman como Jane é outro destaque, muito mais à vontade no papel, passando fragilidade e também poder. Suas sequências de ação são empolgantes e sua personagem jamais perde a essência. Há algo de doce e otimista que Natalie entrega na atuação que é muito mais poderosa que a forma medíocre como o roteiro trata seu desenvolvimento, outra grande atriz extraindo muito de pouco. Chris Hemsworth vem logo atrás, caricato, um tanto canastrão e em momentos mais dramáticos não consegue entregar muito diferente do que conseguiu fazer em Vingadores: Guerra InfinitaRussell Crowe entrega um sotaque bizarro, uma atuação canastra e momentos capazes de fazer qualquer público se contorcer na cadeira de tanta vergonha alheia. Tessa Thompson vem logo atrás como Valquíria, ainda carismática, um verdadeiro colírio para os olhos, entregando fragilidade, energia e imponência. É uma pena que sua personagem acabe subdesenvolvida durante a trama.

Thor: Amor e Trovão é a maior decepção do ano. O talentoso elenco segura um filme que é inconsistente em tom e que não sabe trabalhar e desenvolver seus temas ou personagens. A mediocridade narrativa e o humor escrachado sem timing quase chegaram perto de tornar esse o Batman e Robin do século 21.

Nota: 5,0/10