Quando Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania estreou abrindo o filão de Blockbuster’s deste ano, ressaltei como o filme falhou em entregar um mundo lúdico com personalidade e personagens minimamente carismáticos e também a ausência de uma aventura empolgante. Naquela época a comparação mais fresca era com Avatar: O Caminho da água que é um exemplo de como ser feliz nas questões citadas acima, mas agora uma outra comparação surge: Dungeons e Dragons – Honra Entre Ladrões que acerta em tudo que a última incursão da Marvel nos cinemas falhou em entregar.
Antes de tecer elogios é importante ressaltar que estamos diante de um filme que não traz nada de inédito para o cinema Blockbuster. Usando novamente a Marvel como comparação, esse filme carrega bastante influências dos longas da editora/estúdio sendo o mais óbvio deles, Os Guardiões da Galáxia. Os personagens aqui também são desajustados que estão longe de serem exemplos morais e que caminham em direção a uma aventura improvável. Assim como em Guardiões da Galáxia, o filme tem um caráter de auto-paródias com dinâmicas cômicas sendo o centro da aventura. Dito isso, temos um filme que não vai inovar o cinema de fantasia.
Adaptação do popular jogo clássico, Dungeons e Dragons: Honra Entre Rebeldes funciona para o público casual e para os fãs mais assíduos do jogo. Para o segundo público existem diversos acenos como artefatos clássicos, raças icônicas e situações que evocam as aventuras costumeiras do mundo de RPG. Para o primeiro público, temos uma aventura carregada de charme. A direção de John Francis Daley e Jonathan Goldstein acerta ao extrair o melhor do carisma de seu elenco além de ditar o tom do mundo lúdico que estamos inseridos, este que é extremamente feliz em apostar na utilização de efeitos práticos e locações reais. Assim como a última trilogia de Star Wars fez, as criaturas do mundo de D & D são em grande parte feitas a partir do uso de animatrônicos, maquiagens e fantasias e o resultado não poderia ser mais palpável.
Os méritos também se estendem para as sequências de ação, os duelos envolvendo espadas e combate corpo a corpo são ferozes e mesmo utilizando de cortes de câmeras rápidos a decupagem é bastante clara. O resultado entrega um combate que é transmitido de forma limpa e que não causa confusão visual. Já os embates mágicos são registrados de forma criativa sob a lente dos dois diretores buscando ângulos arrojados que exaltam os efeitos visuais competentes.
Se juntando aos acertos técnicos da produção temos um elenco carregado de carisma. Chris Pine é um destaque à parte, roubando a cena em cada momento que aparece em tela. Sua atuação equilibra um timing cômico certeiro e a dramaticidade que mesmo sendo superficial no roteiro o ator expressa com bastante verdade. Michelle Rodriguez entrega uma atuação bastante competente, possuindo uma ótima química com o personagem de Pine. Justice Smith e Sophia Lillis também estão ótimos somando ao núcleo principal de protagonistas. Nesse ponto o roteiro e direção conseguem dar o destaque necessário para cada um dos personagens desenvolvendo seus arcos dramáticos ao longo da aventura.
Como adições secundárias temos Regé-Jean Page em uma partição bastante breve, mas que é marcante e igualmente cômica. Sua participação rende ótimos momentos com o personagem de Pine. Outro que também se destaca é Hugh Grant como um personagem dúbio também construído por uma atuação que acerta no timing cômico. A única presença do elenco que é mais fraca vem por parte de Daisy Head que entrega o necessário, mas não é tão bem explorada pelo texto que apresenta uma antagonista que acaba eclipsada por todos os outros personagens.
A trilha sonora de Lorne Balfe também se destaca. Na minha crítica de Super Mario Bros: O Filme citei como aquele filme falhou ao escantear sua trilha original para beneficiar músicas pop e essa é uma tendência crescentes em filmes desse tipo. Aqui, por outro lado, estamos diante de um Blockbuster que foge dessa armadilha ao apostar inteiramente em sua trilha original. Balfe compõe temas que remetem a clássicos da fantasia medieval enquanto faz algumas experimentações inserindo um coral nos temas que embalam as sequências de combate. Quanto ao tema principal o resultado se prova bastante memorável ao ditar o tom e a identidade do filme.
Poderia citar aqui a previsibilidade da narrativa escrita pela dupla de diretores e o roteirista Michael Gilio e é o que indiscutivelmente afasta o filme de um brilho maior, mas até nessas limitações o filme compensa em outros aspectos.
O maior destaque de Dungeons e Dragons está em ser um projeto que está longe de se preocupar com sequências e um universo compartilhado. Seria estupidez não reconhecer que o filme abre uma porta a isso, mas a equipe criativa se esforçou antes de tudo em entregar uma aventura cativante em um mundo cheio de personalidade e com personagens carismáticos. Novamente alfinetando a Marvel/Disney, essa era uma preocupação que eles tinham ao criar seu universo e foi o que possibilitou as sequências virem de maneira natural e é o que D & D faz. Uma boa história deve vir antes de tudo, acenos para sequências são somente um bônus.
O consenso geral deve ser bastante positivo, ainda que notem que não existem muitas novidades em um filme como D & D. Então fica o questionamento, para vocês o que importa mais? A falta de novidade dentro de um gênero ou uma história bem contada?
Dito isso, Dungeons e Dragons: Honra Entre Rebeldes > Homem Formiga e a Vespa: Quantumania. Apenas para não perder a piada…
Nota: 7,0/10










